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Venezuela quer economia ‘100% digital’ para driblar sanções dos EUA

Estratégia de digitalizar economia do país pode ser tão genial como suicida; o bolívar venezuelano perdeu 95,7% de seu valor frente ao dólar em 2020

Por Felipe Mendes Atualizado em 2 jan 2021, 19h27 - Publicado em 2 jan 2021, 19h15

A Venezuela pode estar vivendo o início de uma nova era econômica. O país latino-americano comandado com pulso firme e autoritário por Nicolás Maduro começou a vislumbrar crescimento por meio da digitalização de sua moeda. Diante do colapso das receitas provenientes da exploração do petróleo no país, Maduro disse em entrevista à rede local Telesur na última sexta-feira, 1º, que o país se prepara para ter uma “economia 100% digital” para se defender das sanções impostas pelos Estados Unidos. Recentemente, o governo de Maduro decidiu acabar com as restrições e controles que caracterizaram o chavismo durante anos.

“Eles têm uma guerra contra a nossa moeda física. Vamos avançar neste ano para termos uma economia profundamente digital. Estou lançando a meta de termos uma economia 100% digital”, disse Maduro, acrescentando que o dinheiro físico eventualmente desaparecerá no país. A moeda venezuelana perdeu 99% de seu valor durante três anos de hiperinflação, o que forçou o país a emitir notas mais altas (algo que o Brasil, no governo Bolsonaro, também fez ao lançar a nota de 200 reais) — a estratégia mostrou-se um fracasso na Venezuela. O resultado disso, segundo a Bloomberg, foi a inflação ter avançado 5.790% nos últimos 12 meses.

Maduro tem facilitado a adoção do dólar no país, o que pode estar agravando o processo de desvalorização do bolívar venezulano. Na conversa com a imprensa local, ele disse que 18,6% de todas as transações comerciais são feitas em dólar, enquanto 77,3% são realizadas em bolívares por meio de cartões de débito. Apenas 3,4% são pagos com notas da moeda local. Dentre os países emergentes, o bolívar venezuelano foi a moeda que mais se desvalorizou frente ao dólar em 2020: 95,7%. No continente sul-americano, o peso argentino (-28,8%) e o real (-22,4%) ainda apareceram no ranking das 10 maiores desvalorizações cambiais do mundo em relação à moeda americana. Para ilustrar o tamanho do descalabro fiscal no país é possível dizer que, hoje, o salário mínimo na Venezuela (800 mil bolívares) equivale-se a menos de um mísero dólar — em 2017, o salário mínimo do país valia 2 dólares.

  • A ideia de abraçar as moedas digitais, defendida por Maduro, não é exatamente nova. Há pouco mais de dois anos, o país lançou o Petro, sua criptomoeda cotada em Euro e apoiada por reservas de petróleo, gás, ouro e diamantes. Com o intuito de facilitar a penetração da moeda digital, o país passou a exigir o Petro como forma de pagamento em transações envolvendo o petróleo do país, o que afugentou parte dos compradores. Para demonstrar o tamanho da aposta na ‘nova economia’, o país lançou uma corretora de criptomoedas estatal chamada “Venezuela Exchange” (VEX). Em mais uma tentativa de driblar as sanções dos EUA, a Superintendência Nacional de Criptoativos e Atividades Relacionadas (Sunacrip) publicou, em setembro, uma normativa para fomentar a criação de fazendas de mineração de bitcoin no país.

    Recentemente, Maduro disse que já existem ao menos 100 mil estabelecimentos comerciais no país utilizando a criptomoeda, incluindo uma parceria com a empresa Veneven, uma das maiores do sistema de emissão de cartões e sistemas de vale alimentação. Com a descentralização, o consumo do país deixa de depender das gigantes multinacionais Visa e MasterCard, que vez ou outra ameaçam deixar o território. O resultado disso é que o dinheiro físico está sumindo. Hoje, o dinheiro é usado para pagar apenas itens básicos, como o transporte público. Além da digitalização, há a dolarização dos bens no país, que ainda encontra resistência de bancos, pois não há como permitir transações digitais em dólares.

    A abertura econômica do país refletiu-se em um movimento positivo para a bolsa de valores de Caracas em 2020. Com um ambiente mais amigável para o setor privado e menos espaço para crédito bancário, empresas transnacionais resolveram emitir dívida privada na bolsa, em busca de atrair investimentos e receitas para financiar projetos no país combalido. A ideia de Maduro é mudar a imagem centralizadora que tanto marcou os governos venezuelanos desde o século passado. Se vai dar certo, é muito cedo para dizer. Para um país com pendor populista, os avanços são inegáveis.

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