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Três americanos são premiados com o Nobel da Economia

Em entrevista ao site de VEJA, Robert Shiller se diz surpreso: 'é difícil de acreditar'

“É difícil de acreditar”, disse Robert Shiller ao site de VEJA, por telefone, logo depois de ter recebido a notícia sobre a premiação. “Eu me sinto muito feliz por ter sido premiado com eles.”

O Prêmio Nobel de Economia 2013 foi concedido nesta segunda-feira a três economistas americanos: Eugene Fama, Lars Peter Hansen e Robert Shiller. O trio foi laureado por sua “análise empírica dos preços de ações”. Cada um dos economistas desenvolveu trabalhos separados em que tentaram mostrar de que forma se pode calcular ou prever a valorização de um papel de uma empresa.

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“É difícil de acreditar”, diz Robert Shiller ao site de VEJA, por telefone, logo depois de ter recebido a notícia sobre a premiação. O professor de Yale, conhecido por ter sido um dos responsáveis por prever a bolha imobiliária dos Estados Unidos, que deu origem à crise financeira de 2008, disse estar feliz por ter ganhado a premiação junto aos dois professores norte-americanos.

Os vencedores vão dividir um prêmio de 8 milhões de coroas suecas (cerca de 1,25 milhão de dólares). Segundo a Academia Real Sueca de Ciências, que divulga o Nobel, “não existe como prever o preço das ações e títulos nos próximos dias ou semanas. Mas é bem possível prever o amplo curso desses preços durante períodos mais longos, como os próximos três a cinco anos. Essas descobertas foram feitas e analisadas pelos premiados neste ano”.

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Segundo Shiller, apesar de não terem trabalhado juntos, os três laureados na edição deste ano “se encontraram” no desenvolvimento de seus estudos. Shiller diz ter lido pesquisas de Fama de forma “entusiasmada” no passado, sobre a tentativa de calcular os preços de ativos financeiros. Sobre o trabalho de Lars Peter Hansen, ele cita alguns pontos em comum, como o uso da psicologia e das ciências sociais para prever padrões de movimentação acionária.

Em seu mais recente livro Finance and the Good Society, publicado em 2012, Shiller fala sobre o papel do mercado financeiro na vida das pessoas. Contrapondo a visão de que o mercado serve apenas para gerar lucro para aqueles que apostam dinheiro na alta ou na baixa dos ativos, o professor tem uma visão pragmática sobre a importância das ferramentas das finanças para que indivíduos, empresas e nações alcancem seus objetivos. Shiller não faz, em seu estudo, qualquer juízo de valor sobre o desenvolvimento do mercado financeiro.

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Outro trabalho em que Shiller mistura conhecimento econômico com psicologia é o livro Exuberância Irracional, publicado em 2000. Nele, o economista mostra o quanto a irracionalidade é usada para as decisões “racionais no mercado financeiro”.

Estudos – Os três economistas não trabalharam em um único estudo de forma integrada, ou sequer produziram pesquisas sequenciais sobre um mesmo tema. Contudo, segundo a academia, seus trabalhos individuais contribuíram para mostrar que, se por um lado os preços das ações não podem ser calculados ou previstos em questão de dias ou semanas, é possível desenhar uma trajetória num prazo mais longo: de três a cinco anos. Os trabalhos são complementares e foram desenvolvidos em períodos distintos.

Na década de 1960, o professor Fama, da Universidade de Chicago, desenvolveu um estudo mostrando que os preços de ações são difíceis de serem calculados no curto prazo. Ele descobriu a teoria por meio de diversos testes feitos ao observar o comportamento do mercado, que, em muitos casos, é o chamado ‘comportamento de manada’. O problema é que, quando Fama conseguia racionalizar o padrão de oscilação de um papel, logo as coisas mudavam – graças, sobretudo, a analistas com capacidade acima da média que conseguiam quebrar tais padrões por meio de operações financeiras fora dos modelos convencionais. O trabalho de Fama mostrou também como novas informações são rapidamente incorporadas ao preço das ações. Além disso, seus estudos provam que as oscilações de curto prazo são irrelevantes porque não mudam o patamar de preço de um ativo. Segundo Fama, apenas às vésperas de uma empresa fazer uma grande capitalização é possível, de alguma forma, prever uma valorização que perdure.

Já na década de 1980, o trabalho de Shiller agregou informações mais complexas à teoria racional de Fama, mostrando que é possível prever a trajetória do preço de ativos financeiros no longo prazo com base em componentes psicológicos presentes no mercado. O economista fez um trabalho empírico mostrando que, depois de oscilações excessivas decorrente de pagamentos de dividendos (retorno pago pela empresa ao detentor das ações), em um ano, os preços das ações tendem a ser seguidos por uma queda nos anos subsequentes, e vice-versa. O mesmo método, segundo Shiller, pode ser aplicado para analisar o preço de títulos de dívida dos governos (os chamados bonds) e demais ativos financeiros.

O terceiro trabalho, de Lars Peter Hansen, professor da Universidade de Chicago, desenvolveu um método estatístico usado para calcular os preços de ações financeiras, chamado de Método Generalizado de Momentos (GMM, na sigla em inglês). Ele tentou combinar seu novo método com o Consumption Capital Asset Pricing Model (CCAPM), modelo desenvolvimento na década de 1970 para calcular preços de ações. A mistura da nova teoria com a anterior inspirou diversos trabalhos futuros sobre pesquisa do preço de ações e “gerou diversos novos insights sobre o comportamento humano de forma mais ampla”, segundo a academia responsável pela premiação.

Os trabalhos dos três economistas resultou na popularização dos fundos de índice (ETFs, na sigla em inglês), num amplo conhecimento sobre o risco intrínseco nas ações e sobre finanças comportamentais. Contudo, o fato de terem sido desenvolvidos em épocas diferentes e sob óticas completamente distintas (como Fama, um racional, e Shiller, que estudou aspectos psicológicos) mostra uma intenção específica do comitê do Prêmio Nobel de chancelar a eficiência do mercado financeiro, mesmo que, às vezes, haja uma quebra generalizada, como ocorreu em 2008. Ao quebrar, o mercado fornece, involuntariamente, mais subsídios para que pesquisadores e analistas encontrem formas inovadoras de entender sua complexidade.

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Histórico – A premiação econômica, oficialmente chamada Prêmio Sveriges Riksbank em Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel, foi criado em 1968. A honraria não integra o grupo de prêmios originais estabelecidos no testamento de 1895 do inventor da dinamite Alfred Nobel.