Transição crucial: o que está em jogo na sucessão no reino da Disney
Pela segunda vez, Bob Iger entrega o comando a um substituto que tem o desafio de reinventar o gigante do entretenimento
Há uma sucessão em curso no reino da Disney. Em março, sai Bob Iger, que se provou um mago da gestão desde que assumiu como presidente do grupo, em 2005, e entra Josh D’Amaro, atual chefe da divisão de experiências, que inclui os parques temáticos e os navios de cruzeiros. Ele terá o desafio de realizar uma mágica muito aguardada por investidores e fãs: transportar o colosso da mídia e do entretenimento que praticamente dominou o imaginário de crianças e adultos nos últimos 100 anos — de Mickey Mouse aos heróis da Marvel (comprada em 2009), passando por Star Wars (incorporado em 2012) e Toy Story (da Pixar, adquirida em 2006) — para uma realidade em que a atenção do público se desvia do cinema e dos canais de TV para o streaming, as redes sociais e as atrações geradas por inteligência artificial (IA). Dessa transição depende o sucesso da Disney nas próximas décadas.
O conselho de administração da empresa levou três anos para escolher o novo presidente. Além de D’Amaro, compunha a lista de favoritos Dana Walden, chefe da divisão de mídia e entretenimento, justamente a área que mais precisa de uma sacudida. O setor de parques e cruzeiros, sob D’Amaro, respondeu por mais de 60% do faturamento do grupo no ano passado e cresceu 6% no terceiro trimestre de 2025. Os outros negócios, incluindo TV e esportes, tiveram queda de 34%.
Por isso, alguns analistas avaliam que a escolha de D’Amaro pode passar a mensagem de que a Disney está apostando demais no que deu certo até agora (há mais um parque em construção, no Oriente Médio, e outros cinco cruzeiros a serem lançados neste ano), e não nas novas tecnologias. O temor é que a Disney fique na rabeira de concorrentes como Netflix e YouTube na produção de conteúdo — afinal, é o interesse nos personagens e nas histórias que leva os fãs a procurar os parques. Sob esse aspecto, Walden teria a vantagem de conhecer as idiossincrasias e as pessoas certas de Hollywood. Por isso mesmo, ela foi promovida para um cargo criado sob medida: o de presidente de criação. Dessa forma, a área de mídia e entretenimento ganha força estratégica, ainda que Walden permaneça abaixo de D’Amaro.
Não é a primeira vez que a Disney promove um chefe da divisão de parques a presidente do grupo. Isso aconteceu em 2020, quando Iger deu lugar a Bob Chapek. O executivo assumiu em um momento conturbado, que acelerou as transformações no setor e impulsionou a concorrência no streaming, marcado pela pandemia de covid-19. A gestão de Chapek foi tão caótica que Iger teve de ser chamado de volta. Enquanto a sua primeira passagem pelo cargo foi marcada por jogadas de mestre, como a compra de estúdios de cinema e franquias consagradas da cultura pop, na segunda Iger se concentrou em arrumar a casa, o que incluiu milhares de demissões.
Ao contrário do que ocorreu na malfadada tentativa anterior de sucessão, contudo, desta vez a cúpula da Disney parece ter clara a estratégia de integrar a propriedade intelectual de conteúdos atraentes com os produtos que lhes dão vida. “Trata-se de uma leitura mais ampla do entretenimento: filmes e streaming precisam ser pensados como motores criativos que, além do próprio negócio, retroalimentam toda a cadeia de valor da marca Disney”, diz Marcelo Flores, coordenador-geral do master em gestão de eventos, experiências e entretenimento da ESPM, em São Paulo.
Algumas apostas recentes da Disney já apontam para esse caminho. No final do ano passado, o grupo investiu 1 bilhão de dólares na OpenAI, a líder global em inteligência artificial, para impulsionar um serviço em que os usuários podem fazer vídeos personalizados com personagens cujos direitos pertencem à Disney. A casa do Mickey e do Pato Donald também colocou 1,5 bilhão de dólares na empresa Epic Games para desenvolver um universo online inspirado nos temas de Disney, Pixar, Marvel, Star Wars e Avatar que seja integrado ao Fortnite, um popular jogo eletrônico com cerca de 110 milhões de usuários ativos por mês. Ainda não há data oficial de lançamento para o fruto da parceria entre a Disney e a Epic, exceto alguns aperitivos como a possibilidade de o jogador participar de batalhas do Fortnite na pele de Darth Vader, Homem-Aranha ou Indiana Jones. A sucessão na Disney prepara o futuro sem ignorar o passado.
Publicado em VEJA de 6 de fevereiro de 2026, edição nº 2981






