Split payment pode abrir nova corrida do varejo por crédito
Setor já lidera análises feitas por FIDCs; retenção automática de impostos tende a aumentar a importância do capital de giro
A entrada em operação do split payment, um dos pilares da reforma tributária, pode produzir um efeito colateral importante para o varejo: aumentar a necessidade de capital de giro e, com ela, a procura por antecipação de recebíveis e outras estruturas de crédito.
A mudança começa a ganhar contornos concretos. A Receita Federal anunciou nesta quarta-feira, 30, que os testes de integração entre prestadores de serviços de pagamento e a plataforma pública do split payment começarão em 15 de outubro. A implantação efetiva está prevista para 2027 e será gradual.
O mecanismo muda uma engrenagem importante do caixa das empresas. Hoje, o dinheiro de uma venda entra para o comerciante, que posteriormente recolhe os tributos devidos. Com o split payment, a parcela correspondente a IBS e CBS será segregada no momento da liquidação financeira e encaminhada diretamente ao Fisco. A empresa recebe apenas o valor líquido correspondente à operação.
A mudança ocorre justamente num setor que já aparece com destaque no mercado de crédito estruturado.
Um levantamento da Assertiva, empresa de dados especializada em crédito, identificou 640 varejistas entre os CNPJs analisados por FIDCs entre janeiro e setembro deste ano. É a maior quantidade entre as atividades econômicas individualmente consideradas, à frente do comércio atacadista, com 347 empresas, e de confecção e vestuário, com 328.
Ao todo, 36 FIDCs fizeram 4.045 consultas sobre 3.543 empresas distintas no período.
O número não significa que todas tenham tomado crédito — uma consulta mostra apenas que o CNPJ foi analisado por um fundo. Mas revela o peso que empresas do comércio já têm no radar da indústria.
A explicação passa pelo próprio funcionamento do varejo. As redes precisam comprar mercadorias, montar estoques e pagar fornecedores antes de receber integralmente por vendas feitas a prazo ou parceladas.
“O varejista coloca dinheiro na operação antes de receber pela venda. Compra estoque, paga fornecedores e sustenta despesas enquanto parte das receitas ainda está para entrar. O crédito estruturado pode ajudar justamente a financiar esse intervalo, transformando recebíveis futuros em recursos para manter o ciclo da operação”, diz Eduardo Sgobbi, CEO do Edan Finance Group.
Com o split payment, parte do dinheiro que atualmente transita pelo caixa será segregada já na liquidação da operação. Isso não significa aumento da carga tributária, mas altera a disponibilidade de recursos ao longo do ciclo financeiro.
É aí que os FIDCs podem ganhar ainda mais espaço.
“Para o varejo, que precisa financiar estoque, fornecedores e prazos de recebimento, ter clareza sobre o caixa efetivamente disponível passa a ser ainda mais importante. Isso pode ampliar a necessidade de antecipação de recebíveis e de outras estruturas de crédito para financiar o ciclo do negócio”, afirma Sgobbi.
A própria legislação deixa claro que a antecipação de um recebível não elimina o split payment: a liquidação antecipada não altera a obrigação de segregação de IBS e CBS prevista para a operação.
Por isso, além de potencialmente criar demanda adicional por financiamento, a reforma exigirá dos fundos uma leitura mais precisa de quanto do fluxo futuro de uma empresa estará efetivamente disponível para servir de lastro a uma operação.
Os números da Assertiva também mostram que esse mercado está longe de ser restrito a companhias em situação financeira problemática. Dos 3.543 CNPJs analisados, 68,9% não apresentavam sinais de restrição. Outros 60,9% tinham mais de dez anos de existência.
Na média, as empresas observadas tinham 17,6 anos de atividade, faturamento presumido de 44,3 milhões de reais e 189 funcionários.
“Esses números ajudam a afastar a ideia de que a análise por um FIDC está necessariamente associada a empresas em dificuldade”, afirma Hederson Albertini, CEO da Assertiva.
O tamanho do efeito do split payment sobre a demanda por crédito ainda não pode ser calculado a partir do levantamento. Mas os dados revelam que, antes mesmo da mudança tributária, o setor que poderá sentir mais diretamente a nova dinâmica de caixa já é o que coloca o maior número de empresas sob a lupa dos FIDCs.







