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‘Se você se prende a ciclos políticos, não investe’, diz Alex Szapiro, do SoftBank

Chefe da operação do conglomerado japonês SoftBank na América Latina diz o Brasil continuará sendo um dos principais destinos de investimentos

Por Pedro Gil Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 27 fev 2026, 06h00 • Atualizado em 27 fev 2026, 06h13
  • O executivo brasileiro Alex Szapiro, 55 anos, é o braço direito do bilionário japonês Masayoshi Son na América Latina. Fundador do SoftBank e um dos investidores mais influentes do mundo, Son comanda o maior fundo de venture capital do planeta. Antes de assumir a liderança regional do conglomerado japonês, em 2019, Szapiro comandou operações de gigantes globais como Amazon e Apple no Brasil — experiência que lhe conferiu credenciais únicas para navegar o ecossistema de tecnologia e inovação da região. À frente da operação latino-americana do SoftBank, Szapiro já liderou investimentos em quase oitenta empresas, entre elas Nubank, Quinto Andar, Banco Inter, Petlove e Olist. Na entrevista a seguir, o executivo revela quais companhias investidas preparam a abertura de capital na bolsa, analisa desinvestimentos recentes — como WeWork Brasil e Banco Inter —, explica por que a inteligência artificial ganhou peso crescente na estratégia do grupo e resume a filosofia de investimento do SoftBank: “Nosso horizonte é de vinte anos. Se você se prende a ciclos políticos, não investe”. Confira os principais trechos.

    O SoftBank estruturou fundos específicos para a América Latina. Que critérios são usados na definição da estratégia de investimentos da empresa? Tínhamos dois fundos: um de 5 bilhões de dólares e outro de 3 bilhões de dólares. Já alocamos todos os recursos e agora o capital vem direto do SoftBank global. Isso nos dá flexibilidade: se encontramos b­oas oportunidades, realizamos os aportes sem a limitação de um fundo. Desde 2019, investimos em 78 empresas na região, como Quinto Andar, Petlove, Nubank, Banco Inter, Olist e Kavak. Entre as investidas, 55% estão no Brasil, 35% no México e o restante espalhado por outros países da América Latina.

    A alta taxa de juros no Brasil afeta as decisões de investimentos do SoftBank? Nosso foco são empresas em growth stage, que são basicamente aquelas que já têm entre cinco e oito anos de operação. São companhias mais estruturadas, que sofrem menos com o ciclo de juros altos. Nós olhamos para o longo prazo. Ciclos econômicos importam menos quando a visão é de décadas. Inclusive, temos empresas no portfólio que nos permitem discutir estratégias de saí­da, como a abertura de capital na bolsa.

    Quais empresas estão maduras para fazer IPO (oferta inicial de ações, na sigla em inglês) no Brasil? Temos casos como Quinto Andar, Unico, Petlove, MadeiraMadeira, Blip e Jusbrasil, que já têm porte e governança. Às vezes, pode ser que a empresa não esteja pronta para um IPO na Nasdaq (bolsa americana que reúne empresas do setor de tecnologia), mas ela está preparada para abrir capital no Brasil, que exige outro tipo de tamanho.

    Essas empresas citadas vão abrir capital? São companhias que têm mais de dez anos de existência, possuem boa governança, reportam crescimento anual e mantêm altas taxas de lucratividade.

    No fim de 2025, o SoftBank vendeu uma fatia do Banco Inter. O que explica esse movimento? Após cinco ou seis anos de investimento, vendemos um pouquinho para trazer retorno ao fundo. O ativo valorizou muito e pensamos que fazia sentido. Mas seguimos como maiores acionistas, só atrás da família Menin.

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    Outro movimento foi a venda de participação no WeWork Brasil. O fato de a companhia estar em recuperação judicial pesou na decisão? A tese funcionou por um tempo, mas foi uma questão global, de reestruturação da companhia. Para nós, fazia sentido esse movimento.

    “Se você se prende a ciclos políticos, não investe. Nosso horizonte é de longo prazo e nunca discutimos macroeconomia”

    Onde estão as oportunidades de investimento hoje em dia? A bola da vez é inteligência artificial. Globalmente, o mercado está mais maduro. No Brasil, muitas empresas desse setor estão surgindo, com boas teses, inovadoras, e que julgamos promissoras, mas ainda é cedo para nós, porque fazemos cheques grandes, de 30 milhões a 50 milhões de dólares. Precisamos que essas empresas amadureçam mais.

    Ou seja, o SoftBank não pretende investir em inteligência artificial no Brasil? Ainda é cedo. Considerando o tamanho dos nossos cheques, ficaríamos com 30% a 40% dessas companhias, mas precisaríamos esperar as ferramentas de IA amadurecerem. Levaria muito tempo. Nosso estágio de investimento exige empresas de maior porte. Por outro lado, já fizemos aportes em empresas maiores que estão se transformando com inteligência artificial, como a Blip. Nesse negócio, a tecnologia vai levar a operação para outro nível de crescimento.

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    A empresa de tecnologia jurídica Jusbrasil não é um caso bem-sucedido de uso de IA no país? Sim, é uma companhia que já trabalha com inteligência artificial há bastante tempo. Eu mesmo uso como cliente. É fantástico: você clica em um processo e a plataforma explica o que significa. Isso dá muito mais força para entender sua causa antes de falar com um advogado.

    O Brasil está ficando para trás em tecnologia? Hoje, o país está fora de uma parte crucial da cadeia global de infraestrutura e produção de microchips. O que vemos aqui é a camada de aplicação, não a de produção da infraestrutura. Empresas com base de dados proprietária têm vantagem competitiva. É o caso da Blip, que é uma plataforma de conversação com clientes de grandes marcas, como Claro, Dell, Coca-Cola, Fiat e outras. A vantagem da Blip é que a empresa, com a quantidade de dados que possui, tem uma visibilidade de certos negócios que nem os próprios clientes têm. Isso serve para treinar o próprio sistema. Com inteligência artificial, o negócio pode escalar muito mais rapidamente.

    É correto afirmar, portanto, que no Brasil o foco do investimento do SoftBank são empresas de dados? Sim, avaliamos quem sabe usar dados de forma inteligente para treinar sistemas e oferecer respostas muito mais próximas da interação humana. Obviamente, há empresas na América Latina que desenvolvem modelos fundamentais de inteligência artificial, mas isso exige uma capacidade de investimento gigantesca. Achamos difícil esse jogo ser ganho por aqui. As big techs globais investem cerca de 80 bilhões de dólares por trimestre em infraestrutura. Então, preferimos investir na ponta, com empresas que pensam a aplicação de inteligência artificial na prática. É uma questão de risco e retorno.

    Como funciona o processo de seleção das empresas investidas pelo Soft­Bank? O processo é concorrido. Falamos com muita gente. Nem sempre quer dizer que não gostamos da empresa. Às vezes, ela não está pronta ou está cara demais, o que também é relativo. Quantas vezes perdemos negócios por acharmos “caro”, mas no fim do dia não eram, porque a empresa cresceu, trouxe múltiplos de vendas ou de lucratividade. Ainda assim, nosso trabalho de seleção não é desperdiçado: seguimos acompanhando várias dessas empresas até que façam sentido para receber investimentos.

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    Quantas empresas são avaliadas anualmente no Brasil? Em 2025, abrimos conversas com 105 empresas. Dessas, setenta foram para estudo mais profundo, enquanto umas vinte ou trinta chegaram ao comitê de investimento. E acabamos investindo em apenas duas.

    “O Brasil e o México têm capacidade para formar players globais. A safra 2026 traz boas oportunidades”

    Por falar em preço, muitos analistas dizem que o SoftBank inflacionou o mercado de tecnologia no Brasil. É verdade? Vou desmistificar isso. Na maior parte das empresas em que investimos, não fomos líderes da rodada, ou seja, não fizemos o preço. Quando entramos no Brasil, em 2019, poucos fundos faziam o que nós fazíamos. Depois que nos estabelecemos, muitos “fundos turistas” surgiram e fizeram vários negócios no país. Após a pandemia, com os juros subindo, todos saíram correndo da América Latina. Nós seguimos aqui porque temos estrutura local e visão de longo prazo.

    Mas o SoftBank impactou o mercado de alguma forma? Se achamos que o ativo era bom e lideramos a oferta, pagamos o preço que achávamos certo. Mas somos estigmatizados. E tudo bem, ignoramos isso. O importante é ter um portfólio de qualidade.

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    Quais vantagens o SoftBank tem em relação à concorrência? Nosso capital é proprietário. Muitos fundos trabalham com dinheiro de terceiros. Na América Latina, os nossos recursos são do Masa (Masayoshi Son, fundador do SoftBank). Isso nos dá conforto de não ter pressa. Podemos errar, mas não vamos tomar uma má decisão porque estamos sendo pressionados pelo mercado. Somos diferentes de outros fundos que precisam vender ativos para captar novos recursos. Nós podemos esperar o momento certo.

    Em ano eleitoral, o mercado costuma segurar investimentos. O SoftBank fará o mesmo? Nunca discutimos macroeconomia ou cenário político dentro do Soft­Bank. Nosso horizonte é de quinze, vinte anos. Se você se prende a ciclos políticos, não investe. Essa visão pragmática é parte da cultura do fundador. Nossa decisão de investimento depende de boas oportunidades. Se amanhã aparecerem quinze empresas com potencial, vamos investir. Hoje, como nossa tese está mais focada em inteligência artificial, o filtro é mais restritivo, então naturalmente vemos menos negócios. Olhamos para o futuro, não para a macroeconomia.

    O senhor está otimista com 2026? Muito. O Brasil e o México têm capacidade para formar players globais. Além disso, muitas empresas estão crescendo rapidamente e devem atingir o tamanho ideal para receber nossos cheques. A safra de 2026 deve trazer boas oportunidades.

    Publicado em VEJA, fevereiro de 2026, edição VEJA Negócios nº 23

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