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Afinal, quem é o verdadeiro pai do Pix?

O mesmo instrumento que Bolsonaro tenta transformar em bandeira de campanha é agora motivo de investigação do governo Trump

Por Luana Zanobia Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 23 jul 2025, 11h38 • Atualizado em 23 jul 2025, 13h17
  • Quando Jair Bolsonaro quer provar que seu governo deixou um legado duradouro, ele costuma citar o Pix. Lançado em novembro de 2020, durante seu mandato, o sistema de pagamentos instantâneos desenvolvido pelo Banco Central virou símbolo de modernização, eficiência estatal e de popularidade. “É do meu governo”, repete Bolsonaro, ignorando o fato de que a concepção do sistema começou antes, ainda na gestão de Michel Temer, e sua criação coube a um órgão autônomo.

    Mas há um novo detalhe incômodo nessa narrativa: Donald Trump, aliado de primeira hora do ex-presidente brasileiro, decidiu mirar justamente no Pix. Em documento oficial divulgado pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), o governo Trump acusa o Brasil de práticas comerciais desleais por supostamente favorecer um sistema estatal – o Pix – em detrimento da competição privada, prejudicando empresas americanas do setor de pagamentos.

    O paradoxo é evidente. O mesmo instrumento que Bolsonaro tenta transformar em bandeira de campanha é agora motivo de tensão com seu principal aliado internacional. Trump não hesita em atacar um produto estatal brasileiro, ainda que tenha sido lançado durante o governo do amigo.

    O Pix, afinal, é mais do que um sistema de pagamentos. É uma revolução. Desde sua criação, superou com folga os meios tradicionais, como TED e DOC, e passou a ser usado por mais de 150 milhões de brasileiros. Reduziu drasticamente os custos de transação, aumentou a formalização de pequenos negócios e se tornou ferramenta central de inclusão financeira. Para o setor bancário, isso representou uma perda significativa: estimativas do próprio Banco Central apontam que o Pix retirou mais de R$ 20 bilhões por ano em receitas com transferências e tarifas bancárias.

    É esse impacto que, segundo Bolsonaro, teria motivado a “perseguição” dos Estados Unidos. “Os banqueiros perderam”, disse ele recentemente, em entrevista após ser alvo de operação da Polícia Federal. Ele usava uma tornozeleira eletrônica e tentava redirecionar o foco para o que ainda lhe rende apoio popular: sua narrativa de modernizador. “O Pix tá tudo certo. O problema é que as empresas perderam dinheiro”, afirmou.

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    Mas a apropriação política do sistema é enganosa. A semente do Pix foi plantada em maio de 2018, quando o Banco Central, então presidido por Ilan Goldfajn, criou um grupo de trabalho interno para estudar pagamentos instantâneos. Coube a Roberto Campos Neto, já durante o governo Bolsonaro, levar o projeto adiante, mas sempre com a lógica de política pública de Estado, e não de governo. Em abril de 2020, o BC abriu uma consulta pública. Em novembro, o sistema entrou no ar. E, desde então, segue evoluindo: recentemente foram lançadas mais funcionalidade, o Pix por aproximação e o Pix Automático.

    Empresas americanas de tecnologia de pagamentos têm dificuldades de competir com um sistema gratuito e onipresente. Para o USTR, isso é uma distorção de mercado. Para o Brasil, é uma política pública bem-sucedida. Para Bolsonaro, é um trunfo eleitoral. Para Trump, é um obstáculo que ameaça empresas americanas, mesmo que tenha nascido sob o guarda-chuva de um aliado ideológico.

    A crise em torno do Pix expõe os limites da aliança entre Bolsonaro e Trump. Os dois compartilham valores populistas, negacionismo pandêmico, desconfiança das instituições e ataques à imprensa. Mas, quando interesses econômicos entram em jogo, a cada um busca defender seu interesse, ou, no caso de Bolsonaro, a tentativa de se apropriar daquilo que lhe garante popularidade: o Pix, sucesso gigantesco entre os brasileiros, mesmo que à contragosto de Trump.

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