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Problemas de caixa da Petrobras começam a contaminar fornecedores

Empresas que prestam serviço a estatal estão sendo atingidas por atrasos de pagamentos

A Petrobras tem atrasado pagamentos a fornecedores e provocado dificuldades financeiras na cadeia de prestadores de serviços, após ter adotado uma política de redução de custos em meio a prejuízos na sua divisão de abastecimento, aumentos de custos e produção estagnada.

Segundo informações passadas à agência Reuters, há também o atraso de pagamento para fundos de recebíveis criados para financiar esses prestadores de bens e serviços, observando que a estatal alterou sua política de pagamentos recentemente e vem olhando com mais rigor os contratos. Com isso, tem demorado mais tempo para liberar os recursos e, em uma espécie de efeito dominó, os prestadores de serviços também atrasam seus compromissos financeiros.

“Não vou dizer que a Petrobras é inadimplente, mas que está em atraso. Enquanto algumas companhias estão sofrendo, estou confiante que os pagamentos serão feitos”, disse Fernando Werneck, gestor de um portfólio de fundos creditórios na BI Invest, exclusivos de fornecedores da Petrobras.

Alguns dos fundos de investimento dedicados exclusivamente aos fornecedores da Petrobras registraram aumento da inadimplência. Os pagamentos em atraso em cinco Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) saltaram 58,6%, para 18,4 milhões de reais, em 31 de dezembro, ante 11,6 milhões de reais em setembro, segundo uma pesquisa da Reuters junto à Comissão de Valores Mobiliários.

O FIDC existe para ajudar a Petrobras a terceirizar o negócio de financiamento aos fornecedores: os fundos de investimento emprestam dinheiro às empresas que possuem contratos com a estatal utilizando como garantia os recebíveis junto à Petrobras. Ao longo dos últimos dois anos, a Petrobras aportou cerca de 7 bilhões de reais para ajudar os fornecedores.

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Falências – No fim do ano passado, a Petrobras anunciou um programa de redução de despesas, que visa cortar custos de 32 bilhões de reais no período de 2013 a 2016. Isso depois de a estatal acumular nos nove primeiros meses de 2012 mais de 17 bilhões de reais em prejuízo na área de abastecimento (combustíveis), ao mesmo tempo que tem um plano de cinco anos de investir mais de 200 bilhões de dólares. Nessa conjuntura que favorece o crescimento do passivo, a agência de classificação de risco Moody’s alterou em dezembro para negativo o rating da dívida da companhia.

Algumas empresas menores que fornecem para a estatal, como a GDK, já entraram com pedido de recuperação judicial por problemas financeiros. Grandes empresas, tais como a Lupatech, tiveram de vender ativos e levantar capital novo para evitar o pior.

Também no mercado de capitais empresas têm tido prejuízos. As ações da italiana Saipem, prestadora de serviços e equipamentos offshore, caíram 34% na quarta-feira porque a companhia disse que poderia ter uma diminuição de 80% em seu lucro em 2013 por problemas no Brasil. As concorrentes Subsea 7 e Technip França, ambas também fornecedoras da Petrobras, chegaram a cair mais de 6% na quarta-feira. A Petrobras é responsável por mais de 90% da produção de petróleo no Brasil.

Segundo fontes de empresas que prestam bens e serviços à estatal, a Petrobras tem demorado mais tempo para liberar os aditivos aos contratos. Nas licitações, as empresas ganhavam oferecendo um orçamento abaixo do valor de mercado e depois recorriam aos aditivos, uma prática comum, já que depois esses aditivos eram liberados com mais facilidade. “Agora há um rigoroso processo de avaliação por parte da estatal e sempre há a necessidade de mais e mais documentos. Enquanto isso, o dinheiro não sai”, disse uma fonte de uma empreiteira de médio porte que presta serviço à Petrobras. Com a demora na liberação dos pagamentos, as empresas precisam tomar empréstimo de curto prazo, disse a fonte, a custos altos, gerando um desequilíbrio nas contas.

“Em geral tem demorado uns meses a mais. Como dois terços do nosso faturamento depende de contratos com a Petrobras, há um desajuste”, disse o executivo, sem se identificar. Algumas empresas têm quase a totalidade das receitas atreladas aos contratos com a Petrobras e podem acabar falindo com o atraso dos pagamentos.

É o caso da Tenace Engenharia, que, com 90% de faturamento oriundo da estatal pediu falência no fim do ano passado. A empresa tinha um grande contrato de construção de uma unidade de gasolina e diesel no Polo de Guamaré, no Rio Grande do Norte. Também prestava serviços para a estatal em Urucu, no Amazonas. Segundo uma fonte da empresa, a Petrobras não concordou em renegociar aditivos aos contratos e a Tenace enviou comunicado aos credores responsabilizando a estatal pelo seu fechamento, segundo a fonte, que preferiu não ser identificada.

A construtora GDK, também grande fornecedora da estatal, teve o seu pedido de recuperação judicial aprovado no dia 10 de janeiro pela Justiça da Bahia, segundo nota enviada pela empresa à Reuters. E a construtora Egesa, responsável por parte das obras de uma unidade de fertilizantes da Petrobras, também anunciou recentemente aos seus funcionários e credores que “está passando por uma reestruturação financeira em função do cenário econômico atual”.

Segundo a Petrobras, os pagamentos de seus compromissos “reconhecidos” são realizados de acordo com os prazos estabelecidos contratualmente. A estatal disse em nota que os eventuais pagamentos adicionais aos contratados são submetidos a uma avaliação técnica por uma comissão constituída para este fim, bem como a uma avaliação jurídica. “Após a conclusão deste processo, que está de acordo com contrato e com a legislação vigente, a negociação é submetida à aprovação das instâncias corporativas competentes. Dessa forma, eventuais pleitos não representam a existência de dívida por parte da Companhia”, disse a estatal.

(com agência Reuters)