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Pressionado por inflação e variante Delta, Copom sobe Selic a 5,25% ao ano

A despeito de reconhecer melhorias na economia, Banco Central opta por quarto avanço consecutivo da taxa de juros; previsão é que indicador encerre ano a 7%

Por Felipe Mendes Atualizado em 5 ago 2021, 12h39 - Publicado em 4 ago 2021, 19h12

No ímpeto de conter a escalada persistente dos índices de inflação no país, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu subir a taxa básica de juros, a Selic, em 1 ponto percentual, para 5,25% ao ano. O anúncio, acordado de forma unânime entre os membros na reunião desta quarta-feira 4, aponta, ainda, a evolução da variante Delta da Covid-19 mundo afora como um fator de risco. Por fim, a autoridade fiscal projeta novos avanços para a taxa de juros nas próximas reuniões, com previsão estimada de 7% ao ano.

O Copom ainda fez questão de reiterar a continuidade das reformas estruturantes para que o ambiente econômico melhore. “Perseverar no processo de reformas e ajustes necessários na economia brasileira é essencial para permitir a recuperação sustentável da economia”, diz trecho do comunicado. “O Comitê ressalta, ainda, que questionamentos sobre a continuidade das reformas e alterações de caráter permanente no processo de ajuste das contas públicas podem elevar a taxa de juros estrutural da economia.”

“A inflação ao consumidor continua se revelando persistente. Os últimos indicadores divulgados mostram composição mais desfavorável. Destacam-se a surpresa com o componente subjacente da inflação de serviços e a continuidade da pressão sobre bens industriais”, afirma o comunicado. “Além disso, há novas pressões em componentes voláteis, como a possível elevação do adicional da bandeira tarifária e os novos aumentos nos preços de alimentos, ambos decorrentes de condições climáticas adversas. Em conjunto, esses fatores acarretam revisão significativa das projeções de curto prazo.”

A tentativa é clara: conter o avanço da inflação. Com a reabertura mais robusta do setor de serviços recentemente, o comitê vê piora em componentes inerciais dos índices de preços pelo país, o que pode provocar uma deterioração adicional às expectativas da inflação. Há de se destacar, ainda, o aumento nos custos com energia elétrica pelo país devido à crise hídrica. As projeções de inflação do Copom situam-se em torno de 6,5% para 2021, 3,5% para 2022 e 3,2% para 2023.

Para Carlos Thadeu de Freitas Gomes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a autoridade monetária demorou para rever os índices de inflação. “O Banco Central demorou muito para subir a Selic. Agora vai ter que subir muito rápido para continuar percorrendo a meta da inflação, mesmo que isso seja algo quase impossível”. Ex-diretor do Banco Central, ele prevê que a crise hídrica e problemas ambientais como estiagem e geadas possam elevar a taxa Selic a 8% ao ano ainda em 2021.

Para especialistas, o avanço da taxa de juros não deve ocasionar em fuga do investidor no mercado de capitais. O entendimento é de que as medidas de estímulo dos Estados Unidos e da Europa mantenham a liquidez em níveis altos, o que deve sustentar o crescimento da bolsa de valores brasileira, a B3. “É um ajuste natural, que já se fazia necessário. Mas acredito que, mesmo assim, o número de investidores na bolsa vai continuar crescendo, mesmo que desacelere um pouco a velocidade desse crescimento”, diz o economista Pablo Spyer, sócio da XP Inc.

Segundo André Perfeito, economista-chefe da corretora Necton, o aumento da taxa básica de juros, ainda que chegue a 7% ao ano, não é necessariamente ruim para todos os ativos listados em bolsa. “A gente vai ter alguns produtos que podem sofrer um pouco mais, como alguns fundos imobiliários que paguem menos dividendos”, conjectura. “Também pode haver migração para produtos que sejam pós-fixados em CDI, como, por exemplo, o Tesouro Direto frente ao Tesouro Selic”, completa. A despeito dos temores do mercado de ações, a taxa Selic mais alta pode ser positiva para o controle do câmbio, mas isso depende de fatores como o controle da inflação nos preços de commodities, como alimentos, minério de ferro e petróleo, algo ainda difícil de prever.

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