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Os ricos doam pouco

O acionista do Itaú José Luiz Egydio Setúbal fala de sua batalha para engajar empresários na prática da filantropia e ajudar a transformar o país

Quinto dos sete filhos de Olavo Setubal, um dos fundadores do Banco Itaú, José Luiz Egydio Setúbal, de 62 anos, fugiu do curso natural de sua família e não se tornou banqueiro. Graduou-se em pediatria e, embora seja um dos acionistas da instituição financeira, nunca se envolveu no dia a dia da empresa. Com fortuna particular estimada em 1 bilhão de reais, ele já doou mais de 20% de seu patrimônio em vida. Além da distribuição de dinheiro a museus, igrejas e escolas, sua maior área de atuação é a infância. Ele mantém um hospital filantrópico cujo caráter é patrocinar pesquisas e ações voltadas para a primeira infância. Discreto, de fala pausada e com nove stents no coração, lançou um programa para que empresários atuem na filantropia. Por sua experiência, atesta: o brasileiro rico doa muito pouco. Setúbal, que fez do terceiro setor sua causa de vida, dispensa motorista e seguranças.

Bilionários franceses doaram dinheiro para reconstruir a Catedral de Notre-­Dame, mas não foi visto algo similar no caso do Museu Nacional, no Rio, destruído por um incêndio em 2018. O brasileiro rico doa pouco? São comparações diferentes. A Notre-Dame, um dos monumentos mais visitados do mundo, é um símbolo espiritual e, por isso, causa comoção maior. Quantas pessoas foram ao Museu Nacional? Poucas, comparado às que a igreja de Paris recebeu. Isso posto, sim, o brasileiro doa pouco. Já doou menos, mas muita coisa precisa ser melhorada. Um estudo do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social mostrou que em 2015 os brasileiros doaram 13,7 bilhões de reais. Detalhe: proporcionalmente, o rico doa menos que o pobre. O Nordeste foi a região com maior concentração das doações. Quem tem menor poder aquisitivo doa mais. Há alguns anos, eu e o empresário Elie Horn (fundador da construtora Cyrela) fizemos uma série de reuniões com pessoas de alto poder aquisitivo para que assinassem um manifesto, igual ao do The Giving Pledge, fundado por Bill Gates e Warren Buf­fett, como forma de incentivá-­las a doar 20% de sua fortuna.

Os senhores conseguiram convencer alguém? Não. Algumas pessoas justificaram já fazer doações, mas esse acordo não prosperou por uma série de motivos. Muita gente diz ter receio de ficar sujeita à falta de segurança. Teme o sequestro de parentes. Eu considero a alegação uma desculpa, pois a sociedade sabe quem são as pessoas ricas, algumas com empresas de capital aberto e rostos conhecidos. Também há o caráter cultural: o brasileiro tem vergonha. Em 2013, o Masp estava quebrado. Foi feita uma força-tarefa para salvá-lo, com doações que iam de 200 000 a 500 000 reais. Ao todo, foram levantados 20 milhões de reais. Hoje o Masp está saudável, com ótimas exposições e comprando novas telas para o seu acervo. Como o caso da Notre-Dame, eu tive a curiosidade de entrar no site do Masp e constatar o que previa: não há lá o nome dos doadores. Tem gente que acha coisa de novo-rico ou de artista expor uma doação significativa, eu vejo como uma forma de incentivar outras pessoas a fazer o mesmo.

“Há quem alegue não conseguir escolher uma ONG para a qual doar dinheiro, com medo de que ela não seja idônea. Eu digo: ‘Escolha com o mesmo rigor usado para contratar o CEO da sua empresa’”

A corrupção endêmica do país seria um desincentivo a doar? Também avalio como uma desculpa. Há quem alegue não conseguir escolher uma ONG para a qual doar dinheiro, com medo de que ela não seja idônea. Eu digo: “Escolha com o mesmo rigor usado para contratar o CEO da sua empresa”. Também é comum perguntarem se é possível abater uma doação do imposto de renda. Bom, se abate do imposto não é uma doação. Os brasileiros estão entre os recordistas de doações para os Médicos sem Fronteiras, entidade que não atua no Brasil. Isso tem duas razões: a propaganda deles é boa e o público doa a quem tem credibilidade. Muita gente acha razão para não doar, mas deve ocorrer o contrário. Tem muita causa legal precisando de apoio.

Afinal, o que é a filantropia? Há quem não goste da palavra filantropia por associá-la ao assistencialismo. Trata-se de um equívoco. Filantropia significa amor ao ser humano, à humanidade. Esse amor vai além da caridade, embora tenha começado com ela, na Idade Média, pelo cristianismo. Hoje, a pergunta que fazemos é: “Onde investir dinheiro e tempo de forma a obter um maior impacto social?”. É quase uma visão utilitarista do recurso a ser empregado. Muitos avaliam aplicar onde há mais necessidade. A Fundação Bill e Melinda Gates investe na África para solucionar a questão da malária. Querem achar a vacina para essa doença, o que salvaria a vida de milhões de pessoas. Agora, e quem vive na África, no mesmo contexto social, mas não sofre de malária? Uma única entidade não consegue abarcar tudo, mas o engajamento da sociedade civil transforma como um todo. Um bom cidadão é aquele que cuida do seu entorno.

Como o senhor avalia o assistencialismo? Apesar de eu não fazer uma filantropia assistencialista, vejo mérito. O Brasil é tão desigual que há pessoas passando fome; então, se não se der comida a essas pessoas, elas podem morrer. O assistencialismo é necessário para solucionar um problema imediato. Você pode ensinar a pescar, mas, enquanto a pessoa não aprende, precisa dar o peixe. O Bolsa Família é importante, mas precisa ter estratégia de saída. O programa não é filantropia, mas ação de governo. O cobertor é muito curto no Brasil, o governo é incapaz de resolver tudo. A sociedade precisa se organizar.

Qual é a diferença entre a filantropia no Brasil e a praticada nos Estados Unidos? Temos um estilo parecido com o da Europa: pensamos que o Estado deve prover tudo. Nos Estados Unidos, a colonização predominante foi protestante e prega que aquilo que recebemos se dá em função de méritos, sendo fundamental compartilhar com a comunidade. O católico sente culpa por ser rico. Também há o caráter histórico. Na Europa sempre existiu guerra entre nações, que foram reconstruídas pelos estados. Nos Estados Unidos, as guerras se deram de forma interna, o que fez com que as comunidades precisassem ser fortes. Lá, existe uma enormidade de fundações voltadas para a escola, a igreja, o bairro. Elas nascem com a ideia de retribuir e colaborar com o entorno. Já na Europa, as organizações filantrópicas operam em torno de causas, como o racismo.

Como avalia o imposto sobre herança dos Estados Unidos? Vejo como uma forma de o governo direcionar um dinheiro considerável para a criação de fundações. Ao colocar uma taxa de 40%, elevada, para o sujeito adquirir o patrimônio de seus pais, o Estado indica aos interessados que eles devem se movimentar. É preciso criar a fundação ainda em vida para não pagar nenhuma taxa sobre a herança. Não adianta os filhos terem essa ideia após a morte dos pais. No Brasil, as pessoas se queixam de que se paga imposto para doar dinheiro. É verdade até certo ponto. Cada estado tem seu imposto sobre transmissão causa mortis e doação de quaisquer bens ou direitos. No caso de São Paulo, é de 4%. Muito pouco se comparado ao dos Estados Unidos. Quando uma instituição é isenta de imposto, caso das Santas Casas, não se paga imposto. Mas há muitas entidades que pagam imposto ao receber doação, o que vejo como uma deturpação da lei.

“Há aqueles que não têm quase nada e, mesmo assim, doam. Conheci um motoboy que compra brinquedos e os embrulha antes de arremessá-los em casas da periferia”

Quando a filantropia entrou na sua vida? Deixei de ser uma pessoa de coisas para ser uma pessoa de causas. Há quinze anos, eu atuava em duas frentes: na minha clínica particular e em um hospital privado, que estava mal financeiramente. Em paralelo, fazia trabalho voluntário como professor de curso de alfabetização para adultos. Quando deixei o segundo emprego, pensei em tirar um sabático para cuidar da alma, estudar música e filosofia. Esse sabático durou apenas dois meses. A minha irmã (Maria Alice) me convidou para formar uma fundação familiar com foco em saúde, com o nome de nossa mãe. Então resolvi cursar pós-graduação em economia da saúde na Unifesp. Há dez anos, decidi fazer da filantropia meu trabalho integral. Reuni meus três filhos em casa para consultá-los sobre criar uma fundação com o meu nome. Fiz isso porque usaria dinheiro da herança deles.

O senhor tem fortuna particular avaliada em 1 bilhão de reais. Chegou a doar 20%, como pediu aos amigos abonados? (Longo silêncio) Doei mais. Há dez anos, comprei o Hospital Sabará, em São Paulo, voltado para o público infantil. Existem duas espécies de fundação: a que não tem recurso próprio e, portanto, precisa de doação, e a que tem recursos próprios, meu caso. Todo o dinheiro gerado pelo hospital é usado para a filantropia. O orçamento deste ano será de 360 milhões de reais. A fundação tem um fundo de 150 milhões, que eu coloquei lá trás. Embora realize doações a igrejas, museus, bolsa de estudos de alunos de medicina, o meu foco é em pesquisas, de forma a embasar novas políticas públicas para a saúde infantil. Neste momento, em parceria com as universidades Harvard, Maryland e Tulane, estamos fazendo uma pesquisa de cinco anos com crianças institucionalizadas do Brasil, ou seja, que vivem em abrigos. Esse trabalho replica um estudo feito na Romênia pelo pediatra Charles Nelson, nos anos 90. O estudo revelou que as crianças que viviam em creches, em tese perfeitas em termos de equipamentos, esqueceram do carinho. Ninguém pegava um bebê no colo. Criou­-se uma geração de malucos.

Por que o senhor investe na infância? Além de eu ser pediatra de formação, é sabido que o cérebro mais cresce em massa durante o período chamado de primeira infância — que vai do feto aos 6 anos de idade. Essa é a época em que mais podemos interferir para melhorar a vida de um ser humano, seja com saúde, educação ou assistência geral. Um serviço benfeito nessa época da vida perdura para sempre. No mês passado, lancei um programa em parceria com a ReadyNation, entidade americana que atua com esse foco. Fizemos um evento na Fiesp para nos unirmos e realizar ações concretas junto às empresas. Há desde instruções de simples implementação, como verificar a carteira de vacina dos filhos dos funcionários e dar cursos para falar da importância de ler um livro, até a construção de creches. Os empresários precisam se engajar.

É preciso ser rico para ajudar? Não. Há aqueles que não têm quase nada e, mesmo assim, doam. Conheci um motoboy de São Paulo que compra brinquedos e os embrulha antes de arremessá-los em casas da periferia da cidade. Doar vai além de dinheiro. Há doação de tempo, por exemplo. Escuto de algumas pessoas que eu doo porque tenho dinheiro. Tudo bem, e quem também tem dinheiro e não doa? Outros falam que sinto culpa por ser rico. Não ligo para o que dizem. Doar não é exclusividade de quem tem poder aquisitivo, mas, sim, de quem tem comprometimento com o próximo. Dado o dinheiro que tenho, levo uma vida até simples perto das pessoas que conheço. Eu ando sozinho de carro (um Smart). Se acredito em cidadania e sentimento de pertencer a um lugar, no caso ao meu país, não preciso me proteger andando com seguranças na cidade onde moro. Não faria o menor sentido.

 

Publicado em VEJA de 29 de maio de 2019, edição nº 2636

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