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O valor da paciência: investir sem pressa pode render um bom dinheiro

Entenda os riscos e oportunidades do mercado de ações, e veja o desempenho de empresas brasileiras ao longo dos anos

Nos últimos dois anos, o número de pessoas físicas na bolsa de valores deu um salto de mais de 20%, segundo dados da BM&F Bovespa. Desde a euforia da era Lula, quando os CPFs registrados chegaram a saltar mais de 50% em um ano, não se via tanta empolgação de investidores individuais em relação ao mercado de capitais.

“Como os juros caíram muito, aqueles que estavam razoavelmente confortáveis com uma rentabilidade de mais de 1% ao mês na renda fixa passaram a buscar outras coisas. E, quando a pessoa vê que a bolsa subiu bastante desde 2016, fala ‘puxa, eu quero isso!’, sem necessariamente levar em conta que rentabilidade passada não garante ganhos no futuro”, explica Michael Viriato, professor de finanças do Insper.  

Em busca de dinheiro rápido, muitos desses investidores de primeira viagem não ponderam os riscos envolvidos e acabam não suportando as oscilações características da renda variável. “A bolsa sobe no boato e cai no fato. Às vezes a pessoa física entra de maneira impulsiva, quando tudo está indo bem e segue recomendações de pessoas – ‘Ah, o fulano me indicou isso!’ – sem ter noção nenhuma de análise”, diz Glauco Legat, analista-chefe da corretora Spinelli.

São comuns no mercado anedotas de pessoas que venderam o carro ou o apartamento para comprar ativos de alto risco e terminaram sem nada. Aplicar a longo prazo em ações, porém, pode ser uma boa alternativa para objetivos como construir patrimônio ou montar um plano de aposentadoria, rendendo um bom dinheiro àqueles que conseguem esperar – seja na forma de dividendos, rendimentos que as empresas distribuem a seus acionistas, seja com a evolução da cotação do papel, que tende a acompanhar o lucro das companhias.

Existem várias estratégias, mas todas compartilham de uma característica: a paciência. Em vez de apostas ousadas, preconizam escolhas criteriosas. Para decidir o que comprar ou vender, não levam em consideração boatos e notícias, e sim análises de balanços das empresas. As dezenas de operações de compra e venda diárias dão lugar a poucas transações por ano. E, principalmente, em vez do enriquecimento instantâneo, pregam o crescimento gradual do patrimônio, com o reinvestimento do que se ganha ao longo dos anos. O ícone máximo desses investidores é Warren Buffet, octogenário que é a antítese da figura do Lobo de Wall Street.

Warren Buffett, presidente do conselho de administração da Berkshire Hathaway Warren Buffett, presidente do conselho de administração da Berkshire Hathaway

Warren Buffett, presidente do conselho de administração da Berkshire Hathaway (Michael Buckner/Getty Images/VEJA)

Considerado um dos maiores investidores da história, ele acumula fortuna estimada em 80 bilhões de dólares, segundo a Forbes. À frente do fundo Berkshire Hathaway, ele estuda as empresas por meses a fio antes de comprar uma ação e dificilmente vende um papel que tenha comprado, mesmo que ele esteja passando por forte desvalorização. Sua filosofia se baseia em alguns pilares: diversificar empresas e setores para diluir o risco, escolher companhias que tenham boa saúde financeira, histórico de resultados positivos e baixa exposição a mudanças regulatórias, ignorar flutuações diárias de cotações e esperar o tempo passar.

Apelidado de “Buffet brasileiro”, Luiz Barsi, 80 anos, é o maior investidor individual do Brasil. Também é conhecido pelos hábitos frugais para uma pessoa que tem tanto dinheiro: morador de um bairro de classe média na zona leste paulistana, ele anda de transporte público e mantém seu escritório no nada glamouroso centro de São Paulo.

Barsi segue a mesma linha de pensamento de Buffett, e prega que o investidor gire pouco sua carteira. “Como não há cultura de investimento no Brasil, o camarada fica sensibilizado em comprar e vender, que é o que a maioria das instituições estimulam, porque querem ganhar dinheiro com corretagem, emolumentos e outras taxas”, critica. “Não conheço ninguém que ficou rico especulando. Se o cidadão gosta de jogo de azar, tudo bem. Só que eu sei que ele não vai ganhar dinheiro.”

Ele defende que o investidor escolha setores perenes, faça investimentos regulares e reinvista os dividendos que receber, para potencializar ganhos com juros compostos. “Temos que procurar empresas, e elas existem, que se sobreponham às crises. Elas sofrem, mas vão se sobrepor sempre”, diz. “Sendo a situação boa ou ruim, ninguém vai deixar de beber água, tomar banho, fazer um telefonema, abastecer o carro”, afirma.

Luiz Barsi: “Não conheço ninguém que ficou rico especulando”Não conheço ninguém que ficou rico especulandoNão conheço ninguém que ficou rico especulandoNão conheço ninguém que ficou rico especulando

Luiz Barsi: “Não conheço ninguém que ficou rico especulando”Não conheço ninguém que ficou rico especulandoNão conheço ninguém que ficou rico especulandoNão conheço ninguém que ficou rico especulando (Germano Luders/Exame/Dedoc)

Como escolher essas companhias? Há várias estratégias de longo prazo, mas duas delas têm ganhado muita popularidade em fóruns de internet, encontros de pequenos investidores e canais do YouTube: o value investing (em português, “investimento de valor”) e o buy and hold (“comprar e segurar”).

A primeira, explica Glauco Legat, analista-chefe da Spinelli, se baseia em procurar ações que, por questões conjunturais, estejam baratas e possam vir a se valorizar no médio e longo prazo. “O investidor estima, por meio de análise fundamentalista, o valor intrínseco de uma companhia. Se esse valor for maior do que o que está sendo praticado no mercado, há uma margem de segurança e ele compra a ação”, explica.

Já o buy and hold consiste fazer aportes constantes, sem levar tanto em consideração o preço, em ações que tenham bons fundamentos – governança corporativa, marca forte, pouco risco da entrada de novos concorrentes, baixa exposição a mudanças de regulamentação, bom fluxo de caixa, pouco endividamento, entre outros –, e só vendê-las se eles se deteriorarem. É comum que adeptos da abordagem mantenham papéis cujo valor se multiplicou durante décadas, sem vendê-los para realizar lucros, por considerarem que o investimento continua promissor.

As duas estratégias exigem conhecimento e, é claro, têm riscos. No caso do value investing, pode ser que o mercado nunca venha a identificar valor em uma ação que o investidor considere boa. “É o value trap (armadilha de valor), quando uma empresa considerada barata nunca deixe de ser barata, porque o mercado não vê valor nela”, explica Legat. No caso do buy and hold, o risco é não perceber a deterioração dos fundamentos da empresa a tempo. “Se a pessoa seguir muito à risca, pode segurar o papel por tempo demais. A Eternit é um exemplo: por muito tempo foi uma empresa com bons fundamentos, mas que perdeu as vantagens comparativas.” Antes queridinha dos investidores por pagar dividendos generosos, a fabricante de telhas viu suas ações desabarem com a proibição de sua principal matéria-prima, o amianto, pelo STF.

O risco regulatório, aliás, é um dos principais argumentos contra o investimento em longo prazo na bolsa brasileira. A isso se somam a instabilidade jurídica e política, que fazem do Brasil um país onde as regras mudam com frequência. “Será que o Warren Buffet teria o mesmo sucesso se tivesse nascido aqui? Provavelmente não. Mas a bolsa brasileira ainda assim está entre as principais do mundo, e temos muito espaço para crescer”, afirma Legat. 

“Muitas pessoas qualificam o mercado de valores como inseguro. Mas se a gente for pegar a história vê que coisas consideradas seguras não eram bem assim. o Ruy Barbosa fez um encilhamento e cassou os valores das pessoas. Sarney também fez empréstimo compulsório e não pagou. Collor deixou todo mundo com uma mão na frente e outra atrás. Nosso país faz essas coisas e estamos sempre correndo risco de coisas parecidas acontecerem”, diz Luiz Barsi.

Como começar a investir

Investir em renda variável no longo prazo exige, além de inteligência emocional, domínio de análise fundamentalista. “Se uma gestora de recursos tem cinco, às vezes dez analistas, para cobrir tudo, um iniciante que trabalha e, nas horas vagas, tenta dar uma olhada, não irá conseguir fazer isso”, diz o professor Viriato. Por isso, ele recomenda a quem está iniciando que comece por meio de um fundo de ações com histórico de solidez e boa classificação de risco. “Escolher o papel para comprar é difícil, e entender o melhor momento para comprá-lo, mais ainda. O mais adequado seria iniciar via fundo e ir acompanhando, como forma de aprendizado, o que os administradores vão fazendo.”

Para quem quer comprar as ações diretamente, mas não tem disposição ou tempo para estudar as partes mais espinhosas, muitas corretoras oferecem serviços de recomendação de carteiras. Há, ainda, casas de análise independentes que também vendem relatórios por assinatura. O fundamental, nesse caso, é filtrar promessas de fórmulas milagrosas. “Se alguém prometer qualquer coisa acima de 50%, por qualquer período que seja, fuja. Essa fórmula não existe, e se alguém a tivesse criado, não seria barata”, alerta Viriato.

Há, ainda, uma série de cursos e livros aos quais o investidor pode recorrer para aprender a escolher empresas sozinho. “Não é preciso ter formação acadêmica específica”, afirma Legat, que indica o livro Valuation, de Aswath Damodaran. “Talvez seja um pouco mais denso para um iniciante, precisa de dedicação, mas tem muito material disponível sobre ele no YouTube para começar”, aconselha. Outro título recomendado é O Investidor Inteligente, de Benjamin Graham. O autor do livro, que é considerado uma bíblia pelo mercado, é o mentor de Warren Buffett e nome mais proeminente do value investing.

“Não é preciso ser um erudito para comprar ações, só precisa estar bem informado e bem assessorado”, defende Luiz Barsi, antes de concluir: “O mercado não é esse bicho-papão”.

Como empresas brasileiras evoluíram (ou não) ao longo dos anos

Os gráficos abaixo mostram a trajetória de ações ordinárias de companhias brasileiras após o Plano Real. Apesar das oscilações, algumas tiveram desempenho campeão. Já outras…

WEG: Se alguém tivesse investido 100 reais na fabricante de motores em 1995, teria 34 034 reais ao fim de 2017.

Ambev: Se alguém tivesse investido 100 reais na companhia de bebidas em 1995, teria 11 555 reais ao fim de 2017.

Itaú: Se alguém tivesse investido 100 reais no banco em 1995, teria 9 882 reais ao fim de 2017.

Bradesco: Se alguém tivesse investido 100 reais no banco em 1995, teria 5 502 reais ao fim de 2017.

Petrobras: Se alguém tivesse investido 100 reais na petroleira em 1995, teria 5 902 reais ao fim de 2017.

Eternit: Se alguém tivesse investido 100 reais na indústria de telhas em 1995, teria 261 reais ao fim de 2017.

OGX: Se alguém tivesse investido 100 reais quando a petroleira abriu seu capital, em 2008, teria menos de 1 real ao fim de 2017.