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O tal do mercado

Por que e até que ponto o termômetro da política influencia a oscilação das bolsas e do câmbio — e quais os equívocos que se cometem nesse assunto

Por Tony Volpon* - 26 out 2018, 07h00

Temos visto no Brasil uma forte alta nos mercados financeiros nas últimas semanas. Desde o meio de setembro, o índice Bovespa subiu ao redor de 15%, e isso em um período de forte volatilidade nas bolsas globais, incluindo uma queda acentuada da bolsa americana em 10 de outubro. Quanto desse otimismo pode ser explicado pelo processo eleitoral em curso? E, de forma geral, qual a influência das eleições nos mercados financeiros e na economia?

Para responder a essas perguntas, é preciso desfazer alguns equívocos que, infelizmente, se tornaram lugares-comuns.

O primeiro é a percepção de que a política opera separadamente da economia. Esse pressuposto induz à convicção — errada — de que os mercados “reagem” automaticamente a tudo o que é decidido em Brasília. O processo, na verdade, é muito mais complexo. O mercado reage não somente às decisões políticas, mas também às pressões da sociedade, já impactada pelo cenário político. São, portanto, três forças que se inter-relacionam: sociedade, mercado e política. No caso brasileiro, essa relação se intensifica em decorrência de nossa enorme fragilidade fiscal, que implica a rolagem contínua de uma montanha de dívida que está chegando a 80% do PIB.

Outro erro de avaliação é a “supervalorização” do que acontece em Brasília em detrimento dos fatores externos. O que explica esse equívoco é o fato de nossa economia ser relativamente fechada, considerando que exportamos e importamos muito pouco. Ocorre que, apesar de termos uma economia relativamente fechada, nossa conta financeira — que são as entradas e saídas de dinheiro via mercado financeiro — é aberta. Por isso, o que acontece lá fora nos impacta bastante, especialmente as oscilações do dólar e da bolsa de valores.

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É ponto pacífico que estamos enfrentando o processo eleitoral mais turbulento desde a redemocratização. A isso temos de adicionar outro fator: o presidente eleito vai enfrentar a pior situação fiscal de qualquer governo eleito desde a redemocratização. Nossa dívida bruta, próxima de 80% do PIB, torna-se mais assustadora quando pensamos que, nos países emergentes, o patamar médio é de 40% — metade do porcentual brasileiro. O fluxo de endividamento, que determina o crescimento do estoque da dívida, também se encontra em patamares alarmantes. Nosso déficit nominal está ao redor de 7,5% do PIB, enquanto a média de outros emergentes gira em torno de 2,5%. Nosso déficit primário está um pouco abaixo de 1,5% do PIB, quando, segundo as estimativas mais otimistas, para estabilizar o crescimento do nosso endividamento, é necessário um déficit de até 1%.

Finalmente, há a carga tributária, ao redor de 35% do PIB, quando a média de países latinos com economia de mercado é de 15% do PIB. Entre especialistas, observa-se razoável consenso de que qualquer aumento da carga tributária aqui levaria a uma queda do PIB, o que não ajudaria a estabilizar as contas públicas. O Brasil tem, portanto, uma dívida grande que cresce rapidamente e que não mais será domada com o aumento da receita tributária, expediente usado por todos os governos desde o lançamento do Plano Real. Diante dessa realidade, uma pergunta se faz fundamental: com tanta fragilidade fiscal e incertezas políticas, por que ainda não tivemos uma crise financeira? Por que o mercado reage com otimismo à subida de um candidato e à queda de outro?

Acredito que há fatores estruturais e conjunturais que explicam isso. Estruturalmente, o Brasil tem uma dívida enorme, mas muito “bem” financiada. Temos uma pequena parcela da dívida em moedas estrangeiras, e cerca de 90% da dívida local é financiada por investidores brasileiros. Esse padrão “local” de financiamento gera estabilidade na rolagem da dívida: basta comparar os problemas que o Brasil encarou neste ano com os problemas que teve a Argentina. Lá, onde a presença de investidores estrangeiros e de dívida denominada em dólares é muito maior, a crise representou um impacto bem mais agudo.

Apesar de tudo, o que os agentes financeiros sinalizam é a crença na estabilização da questão fiscal

Já o fator conjuntural se refere à questão propriamente política e à eleição deste ano. Mercados financeiros são “máquinas” coletivas de previsão. Com isso, quero dizer que uma das principais funções dos mercados financeiros é “triturar” todas as informações disponíveis, de modo que o resultado desse processo reflita nos preços de hoje o que se considera que vai acontecer amanhã.

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Evidentemente, o mercado muitas vezes “erra” — há múltiplos exemplos de demonstração de otimismo e pessimismo exagerados. Mas, apesar desses erros, não há melhor maneira conhecida para determinar o valor correto dos preços dos ativos. Historicamente, todas as tentativas de fixar preços por meio de decisões centralizadas redundaram em fracasso. Assim, se os mercados brasileiros têm melhorado de patamar recentemente, ou estão refletindo otimismo, a explicação se encontra na crença de que haverá um encaminhamento positivo para a questão fiscal nacional nos próximos anos.

Seria isso o endosso de uma ou outra candidatura? Não necessariamente. Como já disse, o que “sai” de Brasília é em parte reflexo da influência da sociedade e dos mercados. E, neste momento, o que os mercados indicam estar acontecendo é que a sociedade brasileira sinaliza que chegou a hora de acabar com a fragilidade fiscal crônica e demonstra preferência por um discurso mais liberal. A despeito das dificuldades políticas de encaminhar reformas e da impopularidade de qualquer corte de gasto, o que o mercado vê, hoje, é a perspectiva de estabilização da questão fiscal nos próximos anos.

Estaria o tal mercado sendo otimista demais? Sim, existe esse risco. Mas há poucos mecanismos mais eficientes que ele para antecipar preços e movimentos. Portanto, o movimento dos mercados continua sendo a alternativa mais fidedigna para quem quer aferir a realidade.

Precisamos ficar atentos ao futuro. Com o fim das eleições e o início da transição de governo, a bolsa, o câmbio, tudo tende a retornar à normalidade. Isso significa que a economia voltará a sentir mais o peso dos fatores externos, o que pode ser uma notícia não muito amigável para o Brasil, e para nenhum país emergente. Hoje, a economia americana mostra sinais de superaquecimento, ao mesmo tempo em que a chinesa se desacelera. No caso chinês, a queda de dinamismo pode ser explicada em parte pela “guerra comercial” entre as duas superpotências econômicas. Essa divergência abre um leque de riscos à economia mundial. E o Brasil não está preparado para o pior.

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*Tony Volpon é economista-chefe do Banco UBS no Brasil

Publicado em VEJA de 31 de outubro de 2018, edição nº 2606

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