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O rei da sucata: Brasil registra salto em exportações de alumínio reciclado

O fenômeno é impulsionado pela demanda crescente da Ásia e pela necessidade urgente de reduzir emissões

Por Leticia Yamakami Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 20 set 2025, 08h00 •
  • O mundo está de olho nas nossas latinhas. Campeão em reciclagem de embalagens de alumínio para bebidas — e também de outros produtos feitos com o metal — há mais de duas décadas, o Brasil se tornou mais recentemente um disputado fornecedor desse tipo de sucata para as indústrias de outros países. Nos últimos dois anos, as exportações brasileiras de alumínio secundário, ou seja, reaproveitado, cresceram 150%. Pelos critérios da Câmara de Comércio Exterior do governo federal, trata-se de um “surto” de exportação. Em 2024, foram vendidas para o exterior 52 700 toneladas de sucata de alumínio, totalizando 88,5 milhões de dólares. O fenômeno se explica por três fatores: a alta demanda global pelo insumo, o preço mais baixo do alumínio secundário em comparação com o primário, produzido “do zero”, e a necessidade de muitos países de reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

    Os principais clientes são China, Coreia do Sul, Índia e Estados Unidos, que utilizam o alumínio principalmente na indústria de transportes e na construção civil. No Brasil, a reciclagem do material serve principalmente para reabastecer o ciclo das embalagens. A China, que de 2022 a 2024 aumentou em impressionantes 1 356% a importação de sucata de alumínio do Brasil, precisa dela para sua crescente produção de carros e trens. O país planeja ter 50 000 quilômetros de ferrovias de alta velocidade até o fim deste ano, com trens de alumínio. Para dispor de mais dessa matéria-­prima sem aumentar a pegada de carbono, o governo de Pequim ampliou sua meta de reciclagem e impôs limites às exportações da sucata.

    arte reciclagem

    Nada mais natural do que buscar o insumo no Brasil, que recupera cerca de 97% de todas as latinhas e quase 55% dos produtos de alumínio em geral — mais do que qualquer outro país. A reciclagem de latinhas é um sucesso devido à sua alta taxa de consumo e ao seu curto ciclo de vida, de apenas sessenta dias, tempo entre a compra da embalagem, a utilização, a coleta, a reciclagem e o novo envasamento. Mais da metade de todo o alumínio consumido no Brasil provém da reciclagem, índice acima da média mundial, que não passa de um terço.

    A eficiência da reciclagem no Brasil remonta aos investimentos feitos por motivos econômicos na década de 1990. “O Brasil se tornou um líder mundial em economia circular de latinhas antes mesmo de ter uma política nacional de reciclagem”, diz Janaina Donas, presidente-executiva da Associação Brasileira do Alumínio. A Política Nacional de Resíduos Sólidos, que prevê a redução na geração de resíduos por meio de práticas sustentáveis, foi instituída em 2010, duas décadas depois do início da cadeia de reciclagem de latas, que vai do catador e da coleta seletiva até a indústria.

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    APETITE - Fabricação de trens em Shijiazhuang: demanda alta pelo produto
    APETITE - Fabricação de trens em Shijiazhuang: demanda alta pelo produto (Yang Shiyao/Xinhua/AFP)

    Uma latinha pode ser reciclada indefinidamente. Na produção da lata recuperada, gasta-se apenas 5% da energia necessária para fazer uma embalagem nova. Renato Paquet, secretário-executivo da Recicla Latas, entidade gestora da cadeia das latinhas, explica que a economia se dá porque a bauxita, matéria-prima do metal, requer muita eletricidade para ser transformada em alumina, composto intermediário do produto. Além disso, os recursos minerais também são poupados no processo. Por fim, o uso de ferramentas relativamente baratas, como o forno de reciclagem, na produção da latinha recuperada também reduz seu custo. “Para mercados que buscam a descarbonização e pretendem vencer as barreiras climáticas de seus produtos, o alumínio brasileiro é excelente”, diz Paquet.

    O aumento da exportação do alumínio secundário, contudo, preocupa a indústria nacional que depende do insumo. Para quem vende a sucata, o que vale é a lógica do mercado. “Os compradores externos chegam a pagar 10% a mais pelo material”, estima o especialista em comércio exterior Jackson Campos. Com dificuldade para concorrer com os preços que importadores chineses, entre outros, estão dispostos a pagar pela sucata, o setor de alumínio nacional atua tentando colocar entraves, para que o produto permaneça por aqui, com o argumento de que é preciso evitar “desequilíbrios” na oferta do insumo. Há, inclusive, um projeto de lei em tramitação no Senado para determinar que a venda de resíduos sólidos metálicos para outros países só possa acontecer se toda a necessidade interna tiver sido atendida. O Brasil é rei de uma sucata cobiçada por muitos.

    Publicado em VEJA de 19 de setembro de 2025, edição nº 2962

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