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O que a escalada tarifária entre EUA e Europa ensina ao Brasil

Como bem sabem os produtores de bebidas da Europa, setores distintos da economia são tragados com facilidade para o buraco negro do protecionismo

Por Diogo Schelp Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 13 mar 2025, 12h02 • Atualizado em 13 mar 2025, 14h45
  • A ameaça feita por Donald Trump de impor 200% de tarifas de importação sobre bebidas alcoólicas da Europa, nesta quinta-feira 13, era uma tragédia anunciada para os produtores europeus — e um exemplo didático de como a tentativa de responder ao protecionismo do presidente americano com a mesma moeda provoca um efeito dominó desastroso para o comércio externo como um todo. A ameaça de Trump foi uma reação à decisão da União Europeia de taxar em 50% uma série de produtos americanos tradicionais, incluindo uísque bourbon, roupas e motocicletas, o que, por sua vez, foi uma resposta às tarifas de 25% sobre importação de aço e alumínio nos Estados Unidos.

    Associações do setor de bebidas já haviam alertado no dia anterior que a retaliação da União Europeia transformaria os engarrafados europeus em alvo de Trump — com prejuízos maiores do que para os concorrentes americanos. Os Estados Unidos são o maior cliente externo dos destilados europeus. Enquanto a venda de uísque americano na Europa, no ano passado, totalizou 699 milhões de dólares, a exportação de destilados europeus para o mercado americano chegou a 2,9 bilhões de dólares. Os produtores de vinhos e espumantes da França, da Espanha e da Itália também estavam convencidos de que seriam punidos por tabela, tanto que os governos desses países até tentaram, em vão, convencer a Comissão Europeia a deixar as bebidas americanas de fora da lista de retaliação.

    Dito e feito: na postagem em que anunciou a supertarifa de 200% sobre bebidas alcoólicas europeias, Trump mencionou especificamente os vinhos e espumantes da França e comemorou que isso seria ótimo para os produtores americanos. Sob outro ponto de vista, o efeito mais imediato é que os consumidores dos Estados Unidos vão acabar pagando mais caro também pelos rótulos nacionais.

    O efeito da estratégia da União Europeia de usar o princípio da reciprocidade ao reagir ao aumento das tarifas americanas pode servir de norte a outros países que enfrentam o mesmo dilema, como o Brasil. As tarifas de 25% sobre aço e alumínio não eram direcionadas especificamente para a Europa, mas a todos os exportadores desses itens, entre os quais o Brasil, que foi um dos mais prejudicados.

    Os europeus calibraram suas tarifas para atingir um volume equivalente de exportações americanas — 26 bilhões de dólares, contra os 28 bilhões de dólares que serão impactados pela taxação do aço e do alumínio por parte dos americanos. Mas, mesmo respondendo com proporcionalidade, os europeus entregaram a Trump a justificativa que ele queria para dobrar a aposta. Sua estratégia, como já tem ficado claro na guerra tarifária com Canadá e México, é a de medir musculatura comercial com o adversário até fazê-lo recuar. É um jogo em que os dois lados perdem, mas no qual Trump está disposto a ir mais longe, convencido de que no longo prazo sairá ganhando.

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    A estratégia brasileira, por enquanto, tem sido a de não entrar na queda de braço comercial com Trump, mas de aguardar e tentar abrir canais de negociação com o governo americano, acreditando que em algum momento as tarifas afetarão as empresas dos Estados Unidos na forma de preços mais altos para as matérias-primas de que precisam para produzir. Na sexta-feira 14, haverá uma nova reunião entre autoridades do Brasil e dos Estados Unidos para tentar resolver o impasse.

    O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse na quarta-feira 12 que o Brasil não vai retaliar de imediato a entrada em vigor das tarifas americanas sobre aço e alumínio, por orientação do presidente Lula. O foco, por ora, é tentar ao menos negociar cotas isentas da sobretaxa para esses itens. Outra opção, a de recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC), poderia ter valor simbólico e para embasar futuras retaliações, mas seria inócua do ponto de vista prático e arrisca-se a servir de desculpa para Trump avançar com suas tarifas sobre outros itens da pauta de exportação brasileira.

    Como bem sabem os produtores de bebidas da Europa, em uma escalada tarifária é muito fácil que setores completamente distintos da economia sejam tragados para o buraco negro do protecionismo.

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