O povo iraniano ‘é pacífico’, mas o regime dos aiatolás, não, diz especialista
Doutor em psicologia e especialista em culturas destaca o legado persa do Irã
Quando se fala em Irã, muita gente imagina apenas o regime dos aiatolás, as tensões com o Ocidente ou as manchetes sobre conflitos no Oriente Médio. Mas há uma camada muito mais profunda nessa história: a herança da Pérsia, uma das civilizações mais antigas e influentes do mundo.
Alma Persa
O doutor em psicologia clínica e cultura Sam Cyrous, descendente de persas, lembra que a identidade persa não cabe nas fronteiras atuais do Irã. Trata-se de uma cultura milenar, formada ao longo de milhares de anos por diferentes povos e etnias. “O povo persa é multifacetado”, explicou. Curdos, balúchis e outros grupos ajudaram a construir o que hoje se entende como essa grande família cultural.
Marcas de uma herança
Essa herança também deixou marcas importantes no desenvolvimento da humanidade. Cyrous destaca que a influência persa aparece em áreas como astronomia, medicina e filosofia, além de uma tradição literária marcada por poetas que exaltam valores como empatia e humanidade. “Os persas, em teoria, somos empáticos, cuidadosos e pacíficos”, afirmou.
Identidade
Essa identidade cultural, segundo ele, contrasta com a imagem política que hoje domina o país. O regime islâmico que governa o Irã há quase cinco décadas, diz Cyrous, representa uma parcela mais radical que se apropriou do poder e impôs restrições severas à população. Na avaliação dele, grande parte da sociedade não se sente representada por essa estrutura.
Religião
Um sinal dessa distância aparece até na religião. Segundo o pesquisador, cerca de 80% das mesquitas estariam vazias nos últimos anos, o que indicaria um afastamento crescente da população em relação ao modelo religioso adotado pelo regime. Na prática, ele estima que apenas entre 17% e 25% da população seja claramente favorável ao sistema político atual.
Tensão política
Apesar da tensão política, Cyrous acredita que a natureza da sociedade iraniana tende mais à convivência do que ao confronto interno. Para ele, uma guerra civil é pouco provável. O desejo mais comum entre os iranianos, diz, é simples — e poderoso: liberdade. “O meu desejo é que as pessoas possam respirar e que o Irã volte a fazer parte da comunidade internacional”, resumiu.





