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O novo choque do petróleo

A commodity foi negociada a um valor negativo e levou o mundo a perguntar se a baixa demanda é episódica ou início de um novo ciclo energético

Por Alessandra Kianek, Felipe Mendes - Atualizado em 24 Apr 2020, 10h40 - Publicado em 24 Apr 2020, 06h00

Até a semana passada não se conhecia na história da economia um produto com valor real que tivesse sido negociado a um preço negativo. Isso mudou. E o fenômeno aconteceu justamente com a matéria-prima mais importante para a produção de energia no planeta, o petróleo. Na segunda-feira 20, um barril do outrora chamado “ouro negro” valia menos 37 dólares no mercado futuro dos Estados Unidos. É preciso reconhecer que tal preço era cobrado por aquilo que se chama no mercado financeiro de derivativo — um papel derivado do bem real, e não propriamente o bem em si —, mas, ainda assim, esse dia ficará marcado na história. Aqueles que ainda duvidavam do tamanho da crise econômica que ronda o planeta finalmente ganharam uma evidência à altura da catástrofe desenhada pela pandemia do novo coronavírus e seu impacto no consumo global. Ficou claro que não só empresas podem quebrar e pessoas perderem o emprego mas também nações inteiras que dependem do petróleo correm o risco de entrar em colapso.

Os chamados petroestados, o conjunto de países que dependem quase que completamente da produção de petróleo, estão em alerta. Venezuela, Nigéria, Irã, Iraque, Arábia Saudita e, no limite, Rússia são os principais expoentes desse grupo. Os dois últimos, curiosamente, são os protagonistas do desastre. Ao verem na pandemia a oportunidade de atacar com violência o desenvolvimento do setor de combustíveis alternativos e da indústria americana de processamento de xisto para fins energéticos, comandaram um acordo de corte de produção ínfimo perto da queda de consumo da commodity — correspondente a apenas um terço da necessidade real. Isso fez com que o mundo nunca tivesse tanto petróleo à disposição em um momento em que o consumo foi drasticamente reduzido pelo isolamento social. O volume é tão grande que não há nem mesmo lugar para guardar tamanho estoque. Tal peculiaridade criou um desequilíbrio brutal, em que investidores que possuíam contratos de petróleo para ser entregue em maio decidiram pagar aos compradores para não ter de gastar com a locação de tanques ou petroleiros para depositar o produto, numa operação que ultrapassaria o valor da própria commodity. No mercado de derivativos é assim: quando o molho começa a ficar mais caro que o peixe usado no ensopado, dá-se início a uma corrida desenfreada para se desfazer dos investimentos. Nesses casos, empresas inteiras podem ir para o buraco. “A situação atual é uma das piores da história da indústria petrolífera, já que os bloqueios devido à pandemia de coronavírus dizimaram a demanda global de petróleo”, afirma Muhammed Ghulam, sócio do banco de investimento americano Raymond James Financial.

A estrutura financeira que sustenta a indústria petroleira movimenta trilhões de dólares, e essa foi uma rachadura profunda em um de seus principais pilares. O óleo que resvalou no valor negativo é o extraído nos campos do Texas, nos Estados Unidos, e negociado por investidores locais. Contudo, é o preço de referência para toda a cadeia americana. Apesar de os EUA não terem vocação exportadora — justamente por serem também o maior consumidor —, o valor cobrado dentro de suas fronteiras influencia as cotações em outras partes do mundo. Com isso, toda a cadeia global foi sugada na espiral descendente de preços do intrincado mercado financeiro americano. Em Londres, onde é comercializado o petróleo dos países exportadores, o barril do tipo Brent caiu para 20 dólares, um valor que ainda não havia sido visto desde o início deste século. Todas essas forças — queda do consumo devido ao novo coronavírus, aumento da oferta de fontes energéticas como biocombustíveis e xisto e a queda de braço geopolítica que envolve Arábia Saudita, Rússia e Estados Unidos — resultaram em preços baixíssimos, que vão durar muito mais tempo do que a própria crise causada pelo vírus. “Mesmo que, no pós-crise, a demanda global suba rapidamente, não voltaremos a ver o petróleo cotado a 60 dólares o barril. O tempo necessário para ajustar os estoques fará com que os preços fiquem entre 30 e 40 dólares”, avalia Mauricio Cárdenas, professor da Universidade Columbia, nos Estados Unidos.

À DERIVA – Roberto Castello Branco, presidente da Petrobras: os planos de recuperação da estatal terão de ser reavaliados ante o impacto que a epidemia da Covid-19 provocará no mercado global André Motta de Souza/Agência Petrobras/Divulgação

No dia seguinte ao colapso das cotações, o presidente Donald Trump informou, pelo Twitter, que empresas produtoras de óleo e gás de xisto — as responsáveis pela atual independência energética dos Estados Unidos — terão acesso a fundos destinados ao combate à pandemia. “Nós nunca decepcionaremos a grande indústria americana de óleo e gás”, publicou Trump na rede social. O problema, porém, não se resolverá abrindo os cofres para empresas do setor. Grande parte da produção de petróleo dos Estados Unidos seguirá pouco competitiva, mesmo com o preço de 30 dólares (ou mais) por barril. “É dolorosamente claro que o setor passará por uma consolidação sem precedentes, com muitos pequenos produtores de petróleo simplesmente saindo do negócio e até as maiores operações limitando a produção”, diz Paul Bledsoe, presidente da consultoria energética Bledsoe & Associates.

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A debacle desta semana traz à tona uma questão de dimensão maior sobre o futuro da indústria petrolífera: a necessidade global do combustível fóssil chegou ao seu limite? Especialistas no assunto acreditam que sim. “Não há dúvida de que a curva da demanda do petróleo foi achatada”, afirma o economista Rodrigo Zeidan, professor da New York University Shanghai e da Fundação Dom Cabral, valendo-se de uma imagem popular em tempos de pandemia. Mesmo que países emergentes como Índia e China se recuperem rapidamente da crise e cresçam em um ritmo bastante acelerado, dificilmente conseguirão, sozinhos, absorver e equilibrar a demanda global. Neste mês, a Opep cortou sua projeção de demanda global pelo petróleo para 2020 e também já avisou que, se a situação de disseminação da Covid-19 persistir, mais reduções estarão a caminho. Pela nova estimativa, a demanda global total de petróleo é projetada em 92,8 milhões de barris por dia para este ano, com a expectativa de que o consumo no segundo semestre seja maior do que nos primeiros seis meses do ano.

Neste momento, o Brasil encontra-se numa posição delicada. A Petrobras e os estados produtores sofrem com a perda de receitas. Pelo lado da estatal, há o adiamento dos planos de investimento e de venda de ativos, como as refinarias que estavam para ser privatizadas este ano. Para os estados, e para o Rio de Janeiro especificamente, está prevista uma queda brutal de arrecadação com os royalties do petróleo. “As empresas que poderiam investir no Brasil, claramente, vão ter de repensar sua estratégia num momento como este”, diz Décio Oddone, ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo.

No entanto, nem tudo é terra arrasada. Há uma oportunidade no horizonte, mas que desde 2010 foi praticamente abandonada por aqui: a exportação de biocombustíveis e os acordos de cooperação tecnológica. A crise pode sinalizar ao resto do mundo uma profunda necessidade de revisão da matriz energética. Analistas acreditam que o pico de demanda de petróleo, previsto para acontecer em trinta anos, tenha sido, na verdade, antecipado de uma forma assustadora. “A sociedade já vinha caminhando para diminuir o uso de combustível fóssil na economia mundial antes mesmo desta crise”, afirmou o economista Helder Queiroz, ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e professor da UFRJ. Estudos internacionais cravam que a demanda não voltará mais para a casa de 100 milhões de barris por dia, mas para algo próximo de 80 milhões de barris. A tendência, daí para a frente, é recuar mais ao longo dos anos devido aos incentivos que os países tendem a dar a fontes alternativas. Desta vez não tanto em razão do apelo ambientalista. Mas simplesmente pela necessidade real de independência energética.

Publicado em VEJA de 29 de abril de 2020, edição nº 2684

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