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O drama do continente

Índice de pobreza extrema atinge pior nível em dez anos na América Latina. E a principal causa para desempenho tão sofrível é a crise econômica do Brasil

A América Latina gozou de um alvissareiro início de século XXI: entre 2002 e 2014, a região conseguiu aliar crescimento econômico consistente com diminuição da pobreza. A tendência continua positiva na maior parte dos países, mas um estudo apresentado na semana passada pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), ligada à ONU, mostra que algumas nações têm ficado para trás. A Venezuela e a Guatemala passam por dificuldades. E o Brasil, que abriga cerca de um terço da população da região, viu mais de 3 milhões de pessoas cair no estrato mais baixo de renda entre 2015 e 2017, o que elevou o índice de pobreza extrema da América Latina para 10,2%, seu pior nível em uma década. O tamanho e a importância do país fazem com que o drama brasileiro seja também o drama de toda a região.

O estudo, batizado de Panorama Social da América Latina 2018, aponta a crise econômica como a grande culpada pelo aumento da pobreza no país, notadamente pelo agravamento do desemprego e pela interrupção do aumento real do salário mínimo. Uma situação que ainda pode piorar. Laís Abramo, diretora da Divisão de Desenvolvimento Social da Cepal, teme que os cortes em despesas importantes na área social intensifiquem a tendência. “Os serviços públicos e as políticas de proteção social tiveram o papel de impedir que o aumento da pobreza fosse ainda mais acentuado”, explica a pesquisadora.

Políticas públicas como o aumento do salário mínimo, programas de transferência de renda como o Bolsa Família e qualificação profissional por meio de educação gratuita impulsionaram o último ciclo de desenvolvimento social no Brasil, segundo a Cepal. No entanto, os bons ventos econômicos cessaram. Kaizô Beltrão, professor da Fundação Getulio Vargas, acredita que a crise cerceou as ações do governo e acabou dificultando o investimento no social, justamente no momento em que mais gente perdeu o emprego. “Tornar a crescer a partir de 2019 é importante para que se volte a investir nos mecanismos de distribuição de renda, saúde e educação”, diz. Laís Abramo reconhece a importância de ter uma economia em crescimento, mas teme que ela venha acompanhada de uma concentração ainda maior da renda.

A prova de que o crescimento tem relação direta com a taxa geral de pobreza é a significativa ascensão social em países que mantêm a pujança econômica, como Chile, Colômbia e Paraguai, que até ajudaram a compensar o mau resultado no Brasil. De uma maneira ou de outra, o presidente Bolsonaro precisa colocar a economia brasileira nos trilhos. Além do Brasil, a América Latina inteira torce por isso.

Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2019, edição nº 2618

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