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Como o agro sente os efeitos dos ataques contra o Irã

Os custos sobem, o frete pressiona e o cenário pede cautela

Por Veruska Costa Donato 4 mar 2026, 13h25 • Atualizado em 4 mar 2026, 13h33
  • Os conflitos no Oriente Médio voltaram a mexer no tabuleiro do agro global — e não é força de expressão. Felipe Serigatti, doutor em Economia e coordenador do Mestrado em Agronegócio da FGV , explica que o impacto começa pelos insumos. 

    Fertilizantes mais caros

    A alta do petróleo encarece o gás natural, essencial para a produção de ureia, e o enxofre, insumo-chave dos fosfatados. “Você vai pensar no mercado de fertilizantes… o gás natural para sintetizar ureia… e de uma elevação no preço da ureia. Mas não é só isso. Você vai ter também ali na região o enxofre… elevação forte no seu preço”, detalha. Em bom português: produzir fica mais caro antes mesmo de plantar.

    Efeito dominó

    Serigatti lembra que o Oriente Médio não é o maior produtor final de fertilizantes, mas fornece matérias-primas estratégicas. Quando a região entra em turbulência, o efeito se espalha rapidamente pelos preços globais. E aí entra uma diferença importante: o produtor brasileiro, em geral, já comprou boa parte dos insumos para o ciclo atual, o que garante alguma proteção no curto prazo. Já o agricultor norte-americano pode enfrentar um início de safra mais pressionado. “Encarar o início de ciclo agora com esse choque de custos… não é nada confortável para eles”, afirma.

    Frete sobe 

    A pressão não para na porteira. Quando o petróleo sobe, o diesel acompanha — e o frete marítimo sente imediatamente. “Ao elevar o preço do petróleo, do óleo diesel, isso encarece também o custo do frete marítimo… o frete pode ficar caro para todo o mundo”, diz o economista. Para um país exportador como o Brasil, qualquer centavo a mais no transporte mexe na competitividade.

    Incerteza na equação 

    E há ainda a questão do mercado consumidor. O Oriente Médio é um grande comprador de proteína animal e outros produtos agropecuários brasileiros. Instabilidade política, risco logístico ou dificuldades financeiras na região podem afetar o fluxo comercial. “Talvez chegar até o Oriente Médio fique mais custoso”, alerta Serigatti. Não significa cancelamento imediato de vendas, mas adiciona incerteza a uma equação que já é complexa.

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    Cautela em vez de pânico

    Apesar disso, o tom do especialista é de cautela — não de pânico. “Até o momento demanda cautela, mas longe de pânico… os embarques vão continuar acontecendo, os contratos já são firmados”, pondera. Ou seja, o mercado ajusta preços, recalcula rotas, mas segue funcionando. O agro aprendeu a operar em ambiente volátil.

    Brasil exportador

    Há ainda um diferencial relevante: o Brasil é exportador líquido de petróleo. Isso cria uma espécie de colchão macroeconômico, ao contrário de economias fortemente dependentes de energia importada. “O Brasil é exportador líquido de energia… está longe de ser o mais afetado”, ressalta. Ainda assim, março começou com o “tabuleiro sendo chacoalhado”, como ele define. As peças ainda estão em movimento — e, no agro, quem acompanha de perto consegue reagir antes que o custo pese demais no bolso.

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