“Nunca seremos donos de academia”, diz presidente do Wellhub no Brasil
Ricardo Guerra diz que o objetivo primário da plataforma de bem-estar é que os estabelecimentos cresçam e tenham incentivos para abrir mais unidades
Criado há 13 anos no Brasil para facilitar e flexibilizar o acesso a mais de uma academia, por exemplo para quem viaja com frequência, o Wellhub (antigo Gympass) se transformou em uma das maiores plataformas de bem-estar corporativo do mundo. A empresa conecta funcionários das empresas patrocinadoras a serviços de fitness, meditação, terapia, nutrição e sono através de uma única assinatura, oferecendo uma alternativa aos tradicionais programas de reembolso de academia, que historicamente apresentavam baixo engajamento.
O modelo de negócio funciona através de um sistema de pagamento por check-in: as academias recebem valores acordados cada vez que um colaborador utiliza suas instalações, eliminando o custo de aquisição de clientes para os estabelecimentos parceiros. No Brasil, a plataforma registra uma taxa média de utilização de 35% entre os funcionários das empresas clientes, contrastando com os cerca de 5% da população brasileira que possui contratos em academias.
Esta semana, o Wellhub anunciou a aquisição do Urban Sports Club, maior plataforma europeia de esportes e bem-estar, em um acordo de 600 milhões de dólares. A fusão consolidou a empresa como o maior serviço de bem-estar corporativo do mundo, expandindo sua presença na Europa e oferecendo aos colaboradores acesso a mais de 50 modalidades esportivas. Com a fusão, o Wellhub passa a estar presente em 18 países, atendendo 39.000 empresas e conectando cinco milhões de colaboradores a 97.000 estabelecimentos e parceiros de bem-estar.
Em agosto, a empresa lançou as Soluções Financeiras by Wellhub, disponibilizando um fundo de crédito de R$ 100 milhões para academias, estúdios e fornecedores de bem-estar no Brasil. O programa oferece financiamento com condições diferenciadas, utilizando os recebíveis do Wellhub como garantia e baseando aprovações no desempenho real dos negócios, em parceria com Galapagos Capital, OpenCo e QI Tech.
Na entrevista a seguir, Ricardo Guerra, presidente do Wellhub no Brasil, detalha a estratégia de crescimento da empresa, apresenta dados sobre o impacto dos programas corporativos de bem-estar e explica como o Wellhub pretende consolidar sua posição em um mercado global avaliado em centenas de bilhões de dólares.
Como o Wellhub passou de empresa nascida no Brasil a uma atuação internacional?
O Wellhub começou há 13 anos no Brasil com uma vontade muito grande de facilitar o acesso das pessoas ao bem-estar. Nosso fundador, Cesar Carvalho, viajava muito quando trabalhava na consultoria McKinsey e tinha dificuldade de acessar academias nessas viagens. Ele descobriu que deveria existir uma maneira mais fácil para poder usar as academias.
Desde o princípio, o grande desafio era: como fazer mais pessoas terem acesso ao bem-estar? O setor de academias não tinha tido nenhuma inovação até então, ao contrário do que já havia acontecido com transporte público, aluguel de quartos, streaming e outros mercados.
Por outro lado, as empresas enfrentam um desafio crescente com questões como ansiedade, depressão, diabetes, hipertensão, sedentarismo e obesidade. Tudo isso aumenta a necessidade de cuidar dos colaboradores, porque esses problemas impactam diretamente na produtividade.
Como as empresas tentavam resolver isso?
Antes do Wellhub, as poucas empresas que investiam em bem-estar tinham programas de reembolso de academia, que eram complexos e não estimulavam a adesão. Benefícios de bem-estar tradicionalmente tinham apenas 5% a 10% de engajamento dos funcionários, quando bem-sucedidos.
Dentro das empresas, encontramos que é possível promover uma mudança cultural transformando organizações em culturas de bem-estar, chegando a ter 40%, 50%, 60% ou até 70% de pessoas utilizando o Wellhub.
Em média, qual é a taxa de aproveitamento do benefício?
Hoje, a média de uso das academias por funcionário de empresas que têm o Wellhub no Brasil é de 35%. Para comparar, a população brasileira total com contratos em academias é de apenas 5% a 6%.
Conseguimos que nossos clientes entreguem mais bem-estar do que países como Suécia e Norte da Europa. É interessante porque somos uma empresa que começou no Brasil e agora ensinamos isso lá fora.
Quais são as principais novidades da empresa?
Recentemente anunciamos o oferecimento de crédito para academias. Um dos nossos objetivos é criar um ecossistema saudável — nosso valor é o “win-win-win” (em que empresas, funcionários e academias ganham). Queremos que a empresa tenha os benefícios de ter sua base feliz, os colaboradores saudáveis e, obviamente, que as academias, nossos principais parceiros, cresçam.
O Wellhub nunca será dono de nenhuma academia. Nosso objetivo primário é que as academias cresçam, se tornem mais saudáveis e tenham incentivos para abrir mais unidades. Hoje temos uma rede em 2.000 cidades no Brasil, bem capilarizada, e 90% da nossa rede é formada por academias e estúdios de pequeno e médio porte.
Como funciona o sistema de crédito?
Trabalhamos para colocar à disposição desses parceiros um fundo de até 100 milhões de reais para ajudar a desbloquear o crescimento das academias, dos estúdios e centros de treinamento. É uma ferramenta que visa a reduzir barreiras, acelerar crescimento e dar facilidade, já que sabemos que acesso a crédito é um desafio histórico no Brasil.
Quando pensamos em ciclo, o Wellhub funciona num modelo onde um alimenta o outro: quanto mais parceiros tenho, mais colaboradores da mesma empresa conseguem entrar numa jornada, porque consigo me espalhar mais. Mais usuários significa que consigo mandar mais pessoas para as academias, criando um ciclo virtuoso.
Como funciona o modelo de pagamento para as academias?
As academias têm um valor combinado conosco. À medida que mandamos mais pessoas, a academia vai ganhando mais recursos por ter essas visitas. O valor depende do que a academia oferece e quanto ela cobra no mercado. Temos diferentes níveis, pelos quais as academias entram de acordo com seu valor de mercado, sempre alinhado ao preço praticado por elas.
Como vocês garantem a qualidade das academias?
Não as visitamos fisicamente, mas fazemos uma validação completa. Primeiro verificamos se a academia está de acordo com a legislação, documentações e tudo mais. Se ela tiver um site, fazemos uma verificação adicional.
À medida que começamos a enviar usuários, temos um sistema de pontuação no aplicativo, como os que existem nos apps de hotéis ou mobilidade. O próprio usuário pesquisa academias na sua cidade e bairro, quase como se fosse escolher uma academia nova. A maioria dos nossos parceiros está em outras plataformas de busca, então os usuários conseguem acessar avaliações através da nossa ferramenta e fazer suas próprias escolhas.
Vocês medem o impacto dos planos na produtividade dos colaboradores?
Sim, já medimos com vários clientes. Quando olhamos a evolução de populações diferentes, descobrimos que os custos de saúde são de 15% a 25% menores entre quem usa do que entre quem não usa o Wellhub. Também registramos 30% a 35% menos falta e menor rotatividade entre usuários ativos.
Recentemente fizemos a pesquisa “ROI do Bem-Estar 2025”, pela qual entrevistamos CEOs mundiais. Nada menos que 82% deles dizem que programas de bem-estar têm retorno, e 56% investem especificamente para aumentar o engajamento das suas equipes.
Um estudo maior que fizemos verificou que usuários com frequência maior no programa tiveram redução de 1,8% no sinistro e custo de saúde, período contra período.
Como a pandemia impactou o Wellhub?
A pandemia nos forçou a inovar e nos adaptar quando as academias fecharam. Começamos a falar muito de saúde mental — como ajudar as pessoas a meditar, dormir bem, tratar da ansiedade, além da academia.
Criamos um produto com uma série de aplicativos cobrindo várias frentes de bem-estar: como dormir melhor, saúde feminina e outros produtos. Nos tornamos uma plataforma de bem-estar corporativo mais ampla.
Mais recentemente, há dois anos, começamos a trabalhar com o Wellz, uma ferramenta de terapia. Nossa especialidade é gerar engajamento, e conseguimos que 20% da população das empresas façam nossa jornada de terapia e saúde mental — um percentual muito alto para esse tipo de utilização.
É interessante ver que quem faz exercício acessa mais terapia, e quem faz terapia acessa mais bem-estar. Isso ajuda a organização a construir essa mudança cultural do bem-estar.
Qual o momento atual da empresa?
Este ano crescemos mais de 50% no Brasil, que ainda é nosso principal e maior mercado. Fora do Brasil, os outros países estão crescendo mais de 100% ao ano, com novos clientes e crescimento da base dentro dos clientes atuais.
Continuamos inovando em bem-estar. Queremos ajudar as empresas e as pessoas a estarem cada vez mais saudáveis, fazer o mercado de academia crescer, se desenvolver, gerando emprego e mais oportunidades.
Um dado impressionante: no mercado geral, 10 a cada 100 academias fecham em até 5 anos. No Wellhub, apenas 1 a cada 100. Conseguimos fazer o negócio ficar aberto 10 vezes melhor do que quem não está conosco.





