Nova largada: como a Fórmula 1 aquece o mercado de carros de luxo
Mudanças no regulamento, mais equipes disputando e números promissores de receita e audiência mexem com o setor
Quanto mais promissor é um filão de negócios, mais empresas tratam de se posicionar para lucrar com ele. Não é diferente na Fórmula 1, que, pela primeira vez em uma década, volta a ter onze equipes competindo — reflexo do sucesso financeiro e de público sob a gestão da Liberty Media, empresa que adquiriu o campeonato em 2017 por 8 bilhões de dólares e, no ano passado, faturou quase 4 bilhões com ele. No Grande Prêmio da Austrália, no último domingo, 8, duas marcas estrearam na F1: a Cadillac, do grupo americano GM, e a alemã Audi, que tem o brasileiro Gabriel Bortoleto entre os pilotos. A temporada se destaca, também, pelo retorno da Honda e da Ford como fabricantes de motores, animados com o novo regulamento técnico da maior vitrine do automobilismo.
As mudanças nas especificações deram aos carros, menores e mais leves, uma engenharia de eletrificação mais otimizada. Desde 2014, eles já contam com um sistema de dois motores, um elétrico e outro a combustão. O regulamento atual amplia a parte elétrica dos veículos, que agora têm potência equiparada à dos antigos bólidos 100% a combustão. A F1 renovou, assim, seu status de laboratório para soluções que podem ser implementadas em carros comerciais no futuro.
Com essa perspectiva, a Honda, fora das pistas desde 2022, passa a desenvolver os motores para a escuderia Aston Martin. Foi com carros da McLaren, com a potência fornecida pela marca japonesa, que Ayrton Senna conquistou três títulos mundiais, em 1988, 1990 e 1991. Já a americana Ford, cujos motores estiveram na F1 de 1967 a 2004, firmou uma parceria com o time da Red Bull para, enfim, retornar ao esporte. E a estreante Audi estampa dois carros após ter comprado a suíça Sauber, no início de 2025. Estima-se que a transação saiu por cerca de 600 milhões de euros, o equivalente a 3,5 bilhões de reais. “O momento atual oferece as condições mais favoráveis para entrar na competição em décadas”, disse a equipe da Audi em nota enviada a VEJA.
Além da oportunidade para o desenvolvimento tecnológico, o ganho de audiência da F1 também é apontado como uma atração. Dos novos fãs da F1 (que é acompanhada por mais de 800 milhões de pessoas), 43% têm menos de 35 anos, indicando o sucesso do marketing da organização. Tanto é assim que, três dias antes de estrear no GP da Austrália, a Cadillac anunciou que vai vender carros oficialmente no Brasil, um dos países com maior número de apaixonados pela Fórmula 1. “Os dois movimentos fazem parte de uma mesma estratégia global”, diz Fabio Rua, vice-presidente da GM para a América do Sul.
Atualmente, cinco marcas concentram mais de 86% do mercado de carros de luxo no país, segundo a consultoria K.Lume, especializada no segmento. “É um cenário interessante para a Cadillac, mas eles vão brigar com gente grande”, diz Milad Kalume Neto, sócio da consultoria. BMW, Mercedes, Volvo, Porsche e Audi lideram as vendas de luxo no Brasil hoje.
As novas regras para os carros agradaram às montadoras e casam bem com suas estratégias comerciais, mas são polêmicas entre os pilotos, que reclamam da dificuldade para gerenciar a energia da bateria elétrica. “É ruim, mas temos que conviver com isso”, chegou a afirmar Lando Norris, atual campeão mundial. A fase de adaptação é difícil e vale até para os melhores condutores. Mas nenhum deles pode desprezar a corrida atrás do dinheiro.
Publicado em VEJA de 13 de março de 2026, edição nº 2986






