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Mesmo desempregados, mulheres trabalham o triplo na casa do que os homens, mostra estudo

Levantamento mostra que, mesmo quando as jornadas no emprego são parecidas, as mulheres gastam bem mais tempo nas tarefas domésticas do que os parceiros

Por Juliana Elias Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 12 mar 2026, 08h07 • Atualizado em 12 mar 2026, 09h25
  • Ainda é e está longe de deixar de ser regra que os homens tenham jornadas mais longas e também salários maiores do que as mulheres no mercado de trabalho, enquanto as tarefas domésticas acabam recaindo mais sobre elas e, em grande medida, as afastando dos empregos de período integral e com as melhores remunerações. Entretanto, mesmo quando ambos estão desempregados e, portanto, com o tempo integral igualmente livre para as demais atividades, as mulheres continuam trabalhando muito mais nos cuidados da casa e da família do que os homens.

    Além disso, quanto menor a jornada de trabalho externo da mulher, maior o seu tempo dedicado ao trabalho da casa, que passa das 20 horas semanais. O mesmo, porém, não acontece com os homens, que dedicam menos de 10 horas por semana para as tarefas do lar e pouco mudam esse comportamento, independentemente de seu emprego lhe tomar mais ou menos tempo.

    É o que revelam novos números de um estudo feito pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia da Desigualdade (Made) da Universidade de São Paulo (USP). O levantamento, intitulado “Escala 7×0” em referência à jornada invisível feminina sem nenhum dia de descanso, foi feito a partir dos dados da Pnad Contínua, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE. Ele contabilizou as horas médias por semana dedicadas tanto ao trabalho remunerado quanto ao chamado trabalho não remunerado, em que entram os cuidados à família e à casa.

    Menos trabalho pago, mais trabalho total

    Os dados mostram que, na média geral, as mulheres, de fato, trabalham muito menos horas fora do que os homens, mas, quando entram na conta as horas dos trabalhos domésticos, a jornada total delas acaba sendo maior. Isso acontece justamente porque elas acabam mais afastadas do mercado de trabalho, e o número de mulheres com jornadas curtas ou nenhum trabalho remunerado é muito maior do que o dos homens, o que puxa para baixo as médias de horas remuneradas delas.

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    Na média, os homens cumprem 41,4 horas de trabalho remunerado por semana, enquanto as mulheres têm 36,7 horas semanais. É 11% menos em trabalho pago para elas. Por outro lado, elas cumprem 21,3 horas semanais em trabalhos domésticos, ante 8,8 horas entre os homens. O resultado é que, colocando tudo junto, as mulheres acabam trabalhando oito horas a mais por semana, ou 16% mais do que os homens: são 58,1 horas para elas e 50,3 horas para eles.

    Trabalho igual fora e desigual dentro

    A novidade da pesquisa feita pelo Made é que o estudo separou esses dados por grupos de perfil de emprego semelhante. Por exemplo: mulheres e homens que trabalham mais de 40 horas por semana foram analisados em separado, bem como homens e mulheres que não têm trabalho nenhum foram contabilizados juntos, em outro grupo.

    Com isso, as médias de horas semanais remuneradas de cada grupo passam a ficar bem mais parecidas, e os resultados revelam uma nova informação: as mulheres trabalham mais em casa não só porque trabalham menos fora. Mesmo quando homens e mulheres já têm jornadas parecidas de trabalho externo, a carga das tarefas domésticas continua bem maior para as mulheres.

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    Dois desempregados, tarefas diferentes

    No grupo das pessoas que não têm nenhum emprego, por exemplo, embora o total de horas remuneradas seja igualmente zero para ambos, a jornada média de trabalho doméstico das mulheres é de 26,7 horas semanais, ou 26 horas e 42 minutos por semana. É o triplo da dos homens: 9 horas na semana toda. Isso significa que eles dedicam 1h17 por dia para as tarefas domésticas (considerados os sete dias da semana), enquanto, no caso delas, são quase 4 horas – 3h48 por dia.

    O recorte considerou tanto os que são formalmente considerados desocupados pelo IBGE, que são aqueles sem emprego mas à procura de um, quanto os que estão fora da força de trabalho, que são os que não trabalham por opção.

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    No grupo dos que têm jornadas remuneradas superiores a 40 horas por semana, o padrão também se repete. Nesse recorte, o tempo de trabalho pago das mulheres é de 44,4 horas e, dos homens, 45,6 horas. Já as tarefas domésticas rendem 19,5 horas adicionais para elas e apenas 8,7 horas para eles. Quer dizer, as profissionais trabalham 1 hora a menos fora, mas mais de 10 horas a mais dentro de casa. Com isso, as jornadas totais de trabalho por semana, remunerado ou não, são de 63,8 horas para as mulheres e 54,3 horas para os homens.

    Jornada 8 x 0

    “Supondo a jornada diária padrão de 8 horas prevista na CLT, para a carga de 63,8 horas teríamos uma jornada de 8 dias de trabalho. Para essas mulheres, falta um dia na semana para que sua carga total de trabalho possa ser realizada”, aponta o relatório do Made, que é assinado pelas pesquisadoras Clara Saliba, Luiza Pires, Débora Nunes e Laís Assenço Paulino.

    “Para as mulheres, uma menor jornada de trabalho remunerado é compensada com a elevação das horas despendidas em trabalho doméstico e de cuidados”, acrescenta a análise. “Já para os homens, não há diferença significativa na média de horas dedicadas ao cuidado não remunerado entre as diferentes faixas de jornada remunerada. Ou seja, independentemente de trabalharem mais ou menos horas no mercado, os homens mantêm estável sua carga de trabalho dos cuidados.”

    O trabalho não remunerado inclui tanto o que é definido como cuidado direto – literalmente cuidar de uma pessoa auxiliando na sua alimentação, movimentação ou higiene, por exemplo – e também o cuidado indireto, que são as tarefas domésticas que atendem também às outras pessoas, como cozinhar, limpar ou fazer a manutenção.

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