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O campo quer andar sozinho

Máquinas autônomas ganham espaço na lavoura e elevam a produtividade, mas o custo alto e os entraves na legislação impedem sua adoção em larga escala

Se nos centros urbanos os veí­culos autônomos não ocupam sequer o papel de coadjuvantes — sua presença ainda se situa na esfera expe­rimental —, no campo eles já aparecem como protagonistas de uma nova era, marcada pelo aumento da produtividade. Equipadas com câmeras, sensores e radares, as máquinas agrícolas autônomas podem ser controladas remotamente e têm capacidade de mapear o espaço à sua volta e traçar a melhor rota no desempenho de suas funções sem atingir obstáculos. Os modelos mais utilizados atualmente são aqueles em que o condutor, apesar de estar dentro da máquina, só interfere na operação quando se faz absolutamente necessário. As atividades são monitoradas por uma unidade de controle, que realiza a análise dos dados recolhidos durante o trabalho e toma decisões não só focadas na maior produtividade, como também visando ao menor consumo de combustível.

É só o começo. Em uma palavra: presente. Já há, no entanto, protótipos de máquinas agrícolas autônomas ainda mais avançadas sendo testados mundo afora para tentar abreviar o futuro. Na Case IH, por exemplo, fabricante de máquinas da CNH Industrial, os tratores do modelo Steiger, com autonomia integral, acumulam mais de 900 horas em provas, realizadas na Plot House Farms, sua base de experiências localizada na Califórnia (EUA). No Centro Europeu de Tecnologia e Inovação da John Deere, empresa americana que também fabrica equipamentos para uso no campo, foi desenvolvido o projeto GridCon, que criou o trator elétrico cuja fonte de energia não vem de baterias, e sim de um cabo, com cerca de 1 quilômetro de extensão, conectado diretamente à rede da fazenda. Com isso, o veículo ganha em autonomia, deixando para trás o transtorno das recargas frequentes — o fluxo de energia é constante.

Tanta tecnologia, porém, tem esbarrado em alguns problemas para que as máquinas agrícolas autônomas possam ser adotadas em grande escala. Um deles é o custo. “O preço desses engenhos deve atrasar seu uso em escala comercial em até dez anos”, alerta Silvio Campos, diretor de marketing de produto da Case IH, que no Brasil se alinha aos principais fabricantes de veículos para a lavoura. “A aquisição dessas máquinas não será para qualquer um”, acrescenta. Os tratores tradicionais já possuem custo elevado — entre 650 000 e 1 milhão de reais. Ninguém duvida que o preço dos que têm independência total vá superar muitas vezes esses valores.

Para além da necessidade de qualificação da mão de obra que vai ficar no comando desses sofisticados veículos, outro fator vem tornando mais difícil a expansão da frota, por assim dizer, de equipamentos rurais autônomos: a legislação. Do mesmo modo que ocorre em relação aos veículos similares que atuarão em massa brevemente nas ruas e avenidas das metrópoles, em todo o planeta se discute, por exemplo, de quem é a responsabilidade por eventuais acidentes causados pelas máquinas autônomas — do proprietário, do fabricante, do programador do sistema, do encarregado por seu controle indireto? A interrogação segue no ar.

Enquanto governos e juristas discorrem sobre essa questão em vários países, no Brasil há pelo menos um estorvo mais rudimentar para que os equipamentos autônomos encham os campos: a falta de conectividade no meio rural. Não adianta possuir tecnologia de ponta sem ter internet de alta velocidade para usá-la. O relatório “Índice de prontidão para o uso de veículos autônomos 2019”, feito pela KPMG, mostra que o país foi considerado o pior para receber esse tipo de máquina — amargou a última posição no ranking analisado (25º lugar), atrás de Rússia, Índia e México. No quesito cobertura 4G, o Brasil teve a pior nota: zero. Cientes dessa realidade, oito grandes companhias, entre elas Bayer, CNH Industrial e Nokia, puseram de pé o projeto ConectarAgro, cujo objetivo foi levar a conexão 4G na faixa 700 MHz, frequência que percorre maiores distâncias e, portanto, possibilita custos menores para a instalação de antenas. Com o mesmo propósito, a John Deere, em conjunto com a Trópico, de produtos de tecnologias de informação e comunicação, lançou a iniciativa Conectividade Rural. “Sistemas e máquinas que conversam entre si e aprendem com os dados coletados serão capazes de prever falhas. Essa previsibilidade permite manutenções preventivas e evita que o maquinário fique parado em tempos críticos do ano”, afirma Nick Block, diretor do grupo de soluções inteligentes da John Deere.

De olho na nova fase de desenvolvimento rural no país — que, apesar de entravada, será incontornável —, a Usina São Martinho, a maior processadora de cana-de-açúcar do globo, investiu pesado em inovação na sua principal unidade, situada em Pradópolis, no interior de São Paulo. Foram 60 milhões de reais para levar rede de internet privada aos canaviais e fazer a integração em tempo real entre a máquina e a central de comando. A partir dessa conexão, a inteligência artificial (IA) assume papéis essenciais no aumento de eficiência produtiva: os equipamentos estudam as informações recebidas e são capazes de identificar padrões que o cérebro humano tem dificuldade de apreender sem o auxílio de máquinas. É o caminho para evitar desperdício de sementes, saber o momento e o local exatos para o plantio e até mesmo identificar áreas infestadas por pragas por meio de georreferenciamento em tempo real. “Essas mudanças têm o objetivo de promover economia de 2 reais por tonelada de cana ao ano, o que significa poupar cerca de 50 milhões de reais anuais”, afirma Fabio Venturelli, presidente do grupo.

No futuro, o trabalho na lavoura, em especial o repetitivo, será feito por veículos autônomos e robôs. Sim, empregos e funções deixarão de existir; entretanto, a tecnologia deve melhorar a qualidade de vida do agricultor, com o desafio de requalificá-lo — para que seu protagonismo se dê, por assim dizer, em outros campos.

Publicado em VEJA de 18 de setembro de 2019, edição nº 2652