Economista comenta fala de Lula sobre ‘diferentes categorias’ no fim da escala 6×1
Para Carla Beni 'negociar é bonito no discurso'
A discussão sobre o fim da escala 6×1 ganha novos contornos. Ontem, durante a II Conferência Nacional do Trabalho, em São Paulo, o presidente Lula defendeu a mudança, mas com acordo entre trabalhadores e empresários, e respeitando a diferença entre as categorias “Mesmo que você aprove uma jornada de trabalho, seja de quantas horas for, depois você vai ter que ter um acordo, levando em conta a especificidade de cada categoria”, afirmou. Para Lula há diferenças principalmente quando se trata de uma empresa menor “Você não pode tratar a mesma jornada de trabalho para um cara que tem uma oficina mecânica e que trabalha com dois sobrinhos do lado dele com o trabalho na Petrobras”, exemplificou Lula.
Jornada x escala
Para Carla Beni, economista e professora (FGV), é preciso tirar o rótulo chamativo para entender o que realmente está em jogo. “O tema é redução de jornada. Esse é o assunto. O fim da escala seis para um é uma frase de impacto que é muito mais fácil para adesão, muito mais fácil… é mais midiático”, explica. Em outras palavras, não se trata apenas de mexer na escala semanal, mas de rever a carga horária de 44 horas — qualquer redução abaixo disso, ainda que não chegue a 36 horas, já representaria um avanço relevante na qualidade de vida.
‘Negociar é bonito no discurso’
A economista também questiona a ideia de que a mudança deva ocorrer exclusivamente por negociação direta entre patrões e empregados. Para ela, a própria necessidade de uma PEC mostra que o discurso da “livre negociação” não funciona na base da pirâmide. “Negociar é muito bonito no discurso, mas na prática isso não funciona. Os poderes são diferentes, a pressão é diferente. O trabalhador não tem o mesmo poder que o patrão”, afirma. E é justamente o trabalhador menos qualificado, presente em serviços, hotelaria e agro, quem mais enfrenta a escala 6×1 — e quem menos força tem para barganhar.
Qualidade de vida
Carla chama atenção para o custo social dessa rotina. Um único dia de folga por semana, diz ela, não é apenas uma questão de cansaço físico. “Não é possível que você só tenha um dia para conviver com a sua família. Então há um desmonte todo social, justamente das classes menos favorecidas.” O argumento ganha contornos mais amplos quando ela define o momento como uma “luta de classes”. Pode soar forte, mas, na visão da economista, o embate é estrutural: trata-se de disputa por tempo, renda e qualidade de vida.
Janela de oportunidade
Apesar do tom mais ideológico que o debate assumiu, Carla avalia que o cenário econômico abre uma janela rara de oportunidade. Com desemprego em patamar historicamente mais baixo e dados positivos do Caged, o trabalhador estaria em posição mais favorável. “Se for para aprovar algo agora, é a hora correta de se fazer isso”, defende. Segundo ela, experiências de empresas que já reduziram jornada não indicam perda de produtividade e, em alguns casos, até facilitam contratações.
Pressão das ruas
O governo tem adotado discurso moderado, atento à reação do setor produtivo. Mas a pressão social cresce e o tema deve avançar no Congresso. Para além dos números frios, o debate toca em algo muito concreto: como equilibrar competitividade econômica e dignidade no trabalho. No fim das contas, a pergunta que fica é simples, ainda que a resposta seja complexa: quanto vale o tempo do trabalhador brasileiro? A escala 6×1 virou símbolo, mas o que está na mesa é a redefinição do pacto entre capital e trabalho — e isso, convenhamos, nunca é um assunto trivial.





