Itaú mantém estratégia conservadora para 2026 diante de juro alto e leve crescimento do desemprego
Banco deve continuar buscando clientes resilientes no 5° ano seguido de Selic em dois dígitos
O CEO do Itaú, Milton Maluhy Filho, manterá sua gestão conservadora e assertiva dos últimos anos em 2026. A decisão ocorre após a companhia identificar que a Selic deve permanecer em dois dígitos, cerca de 12,75% ao ano, e a taxa de desemprego deve subir de 5,4% para 5,7%. A medida, que parece comedida, é a mesma receita aplicada pela companhia nos últimos anos, que fez o banco surfar nesse cenário de juros altos e inflação elevada.
Ontem, o Itaú reportou lucro líquido recorrente de 12,31 bilhões de reais no quarto trimestre de 2025, alta de 13,2% na comparação com o mesmo período de 2024. A inadimplência acima de 90 dias do Itaú recuou 0,1 ponto porcentual na comparação anual e ficou em 1,9%, o menor patamar da série histórica.
Ainda assim, as Provisões para Devedores Duvidosos (PDD), recursos destinados a cobrir os calotes dos clientes, avançaram 8,7% na comparação anual e chegaram a 9,39 bilhões de reais. Essa variação ocorreu em linha com o crescimento da carteira, enquanto o indicador de custo do crédito sobre a carteira manteve-se estável na comparação anual.
Em 2025, as provisões somaram 36,6 bilhões de reais. Para 2026, o banco projeta que as provisões devem ficar entre 38,5 bilhões e 43,5 bilhões de reais, alta entre 5,19% e 18,5%. Durante a coletiva com jornalistas, o executivo foi questionado se esse aumento reflete alguma preocupação do banco com a elevação da inadimplência em suas carteiras.
Segundo Maluhy Filho, o crescimento do provisionamento vem em linha com a nova resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN), a norma nº 4.966. A medida determina que os bancos antecipem o provisionamento para perda esperada, e não apenas para perda ocorrida. Ou seja, antes os bancos só faziam provisões quando o calote do cliente acontecia. Agora, as empresas do setor financeiro devem provisionar conforme o perfil e o histórico do cliente. Vale lembrar que todo o setor está passando por essa mudança, que deve gerar um aumento nas provisões de forma sistêmica.
Outro ponto é que esse avanço das provisões segue em linha com o crescimento da carteira de crédito. O Itaú estima um avanço na carteira de crédito total entre 5,5% e 9,5% ao ano. Já na carteira de crédito no Brasil, o crescimento deve ficar entre 6,5% e 10,5%. “Desse modo, esperamos que a inadimplência fique estável e contida ao longo de 2026, dado que temos clientes resilientes”, afirma Maluhy Filho.
Projeções refletem cenário macroeconômico
O banco estima ainda um avanço da margem financeira com os clientes de 5% a 9%. A margem financeira com o mercado deve encerrar 2026 com incremento entre 2,5 bilhões e 5,5 bilhões de reais. A receita com prestação de serviços deve crescer entre 5% e 9% ao ano. Questionado se as projeções não seriam consideradas conservadoras e se o banco poderia revisar o guidance, o executivo comentou que a gestão segue a mesma dos anos anteriores, diante do cenário macroeconômico.
O Itaú espera uma alta no desemprego, com a taxa passando de 5,4% para 5,7%. A economia deve desacelerar, com o crescimento do PIB caindo de 2,3% na estimativa para 2025 para 1,9% na estimativa para 2026. Já a taxa básica de juros da economia, a Selic, deve recuar dos atuais 15% ao ano para 12,75% ao ano. De modo geral, haverá uma queda, mas o juro continuará em um patamar elevado para uma inflação que deve encerrar o ano em 4%.
Desse modo, o banco avalia o cenário como desafiador, visto que também haverá eleições, o que deve elevar a volatilidade do mercado, com provável disparada do dólar. “Diante desse cenário, não consideramos nossas projeções conservadoras e podemos fazer ajustes ao longo do ano”, afirmou Maluhy Filho.
Questionado por VEJA sobre quais setores o banco deve expandir a carteira diante desse cenário, o executivo disse que a companhia manterá a mesma estratégia de sucesso em 2026. A empresa deve crescer em todos os segmentos, sem distinção ou preferência. O único grande critério é que o cliente traga a combinação perfeita entre boa rentabilidade e resiliência. A ideia é manter a gestão conservadora na concessão de crédito, sem assumir grandes riscos — algo que o Itaú tem feito nos últimos anos com bons resultados.
Com essa estratégia, o Itaú pretende manter a sua rentabilidade em 2026, medida pelo Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE, na sigla em inglês), em patamares similares aos do último trimestre, que foi de 24,4%. Em suma, o banco vem mostrando bons resultados, com inadimplência sob controle e rentabilidade elevada. Entre os ditados populares, o que melhor se aplica ao Itaú é que em time que está ganhando não se mexe, estratégia que está sendo aplicada pela companhia em 2026.





