Ibovespa abre em alta após tarifaço de Trump, indicando que Brasil não será tão afetado
Para gestores, a alta do Ibovespa nesta manhã reflete a avaliação de que o saldo geral do tarifaço de Trump é positivo para o Brasil - pelo menos, até agora

O Ibovespa abriu em alta nesta quinta-feira 3, ainda digerindo o tarifaço determinado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre as importações de mais de 150 países, incluindo o Brasil. Como o anúncio ocorreu no fim da tarde desta quarta-feira 2, os efeitos sobre os mercados globais serão captados a partir de hoje. Na máxima do dia até as 11h, o principal índice da B3 alcançou os 132 448 pontos, equivalente a uma valorização de 0,96% sobre os 131.190 pontos com que fechou o pregão de ontem. Por volta das 11h, o Ibovespa subia 0,84%, marcando 132 297 pontos.
O desempenho é ainda mais impressionante, quando se observa que os papéis das duas principais empresas que compõem o índice operam em forte queda nesta manhã. No mesmo instante, as ações ordinárias da Petrobras (PETR3) caíam 2,96%, sendo cotadas a 39,61 reais. As ações preferenciais PETR4 recuavam 2,77% para 36,17 reais. As ordinárias da Vale (VALE3) perdiam 1,65% e eram negociadas por 55,99 reais.
Para gestores ouvidos pela VEJA, a alta desta manhã não chega a ser uma surpresa. “No caso brasileiro, temos um cenário um pouco diferente, principalmente por dois motivos: o Brasil recebeu o menor volume de tarifas, de 10%, o que poderia trazer atratividade para as empresas locais perante seus demais concorrentes globais em cenários de exportação para os EUA”, afirma Fernando Ferrer, sócio da Lifetime Investimentos e chefe da mesa de renda variável.
“Além disso, os investidores ainda estão bastante underweight na nossa Bolsa”, acrescenta. No jargão do mercado financeiro, “underweight” representa uma exposição abaixo da média a determinados ativos. “Com isso, estamos vendo um fluxo positivo comprador de Bolsa, o que tem feito o dólar ceder e a Bolsa subir neste momento.”
Já Victor Benndorf, fundador da Benndorf Research, explica que o Brasil vive a famosa situação do “copo meio cheio e meio vazio”. Segundo ele, “fomos taxados, mas comparado com alguns países asiáticos, nós estamos muito melhores, com a taxa muito menor.” Benndorf acrescenta que o Brasil “saiu bem na figura toda”.
“Tem gente falando que poderia até ser benéfico, devido a uma migração do fluxo de alguns países asiáticos para o mercado brasileiro, ou seja, nós estamos relativamente mais baratos do que outros pares.” Para Benndorf, alguns movimentos mais “técnicos” também explicam o saldo positivo do Ibovespa nesta manhã.
Um deles é a queda do dólar index, que reflete a leitura do mercado de que a economia americana sofrerá com as medidas protecionistas anunciadas ontem. Como a moeda americana tem impacto sobre a inflação brasileira, sua queda ajuda o trabalho do Banco Central a conter os preços. Isso permite supor que a taxa Selic atingirá seu topo em breve. Para Benndorf, o sinal de que esta é a interpretação do mercado está no tipo de ação que sobe mais hoje – os papéis de empresas cíclicas, isto é, aquelas que dependem mais dos ciclos econômicos que elevam ou freiam o consumo.
Já João Piccioni, estrategista-chefe da Empiricus Gestora, observa que o Ibovespa é beneficiado pela avaliação de que os mercados emergentes podem lucrar com o protecionismo americano. “A bolsa Brasileira está surfando um pouco essa onda de capital sendo encaminhado para países emergentes”, diz. Entre os exemplos, Piccioni cita a bolsa mexicana, que está subindo 4% hoje. Segundo ele, os destaques desta manhã são ações com beta mais elevado – uma medida de volatilidade que indica quanto um papel oscila, em relação a uma referência como o Ibovespa.
“Essa valorização obviamente está muito ligada à dinâmica de que nós não fomos afetados e que o capital de certa forma pode fluir para cá com alguma liberdade”, diz o gestor. “Então, acho que é uma leitura positiva para o Brasil.”