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‘Faraó dos Bitcoins’ admite manipulação do mercado de criptomoedas

Em depoimento, Glaidson Acácio dos Santos relata como grandes investidores poderiam combinar operações para pressionar o preço de criptomoedas

Por Felipe Erlich Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 7 set 2026, 11h52 | Atualizado em 7 set 2026, 11h56
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Glaidson Acácio dos Santos, que ficou conhecido como “Faraó dos Bitcoins”, afirmou à Justiça que utilizava seu peso no mercado de criptomoedas para influenciar a cotação de ativos. O relato faz parte de depoimentos inéditos dele e de sua mulher, Mirelis Yoseline Diaz Zerpa, obtidos pelo programa Fantástico, da TV Globo, e exibidos no domingo 6. No processo, Glaidson disse ocupar a posição de “baleia” — denominação atribuída a investidores que concentram grandes volumes de determinados criptoativos e, por isso, podem afetar seus preços. De acordo com seu relato, esses investidores poderiam atuar em conjunto para pressionar uma cotação para baixo e lucrar com a desvalorização.

A estratégia descrita por ele incluía operações alavancadas. Glaidson contou que podia procurar outros grandes investidores e combinar uma aposta na queda de determinada criptomoeda, ampliando a exposição à operação. O empresário apresentou essa dinâmica durante o depoimento à Justiça, no processo em que responde por acusações relacionadas à atuação da GAS Consultoria. A empresa é apontada pelo Ministério Público Federal como parte de uma organização criminosa que teria operado um esquema de pirâmide financeira apresentado aos clientes como investimento em criptomoedas. De acordo com as autoridades, a estrutura movimentou mais de 38 bilhões de reais e alcançou cerca de 77 mil vítimas ou credores.

“Como ‘baleia’, eu consigo, manipular outras criptomoedas. E entro em contato com outras ‘baleias’ e vamos falar o seguinte: ‘Ó, você aposta na queda, alavanca 10 vezes que nós vamos derreter o preço. Vamos despencar o preço de uma determinada criptomoeda. No mercado, uns riem, outros vendem lenços”, disse o Faraó dos Bitcoins.

A GAS atraía investidores com a promessa de rendimentos superiores aos disponíveis no mercado. A relação de credores elaborada no processo de falência reúne mais de 77 mil pessoas e empresas, que reivindicam quase 3 bilhões de reais. O grupo incluía desde empresas e personalidades conhecidas até investidores que recorreram a empréstimos para colocar dinheiro na companhia. Segundo a acusação, os resultados das operações com criptomoedas não seriam suficientes para bancar os retornos prometidos. O funcionamento da estrutura, portanto, dependeria da entrada de recursos de novos clientes para honrar compromissos assumidos anteriormente.

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Glaidson declarou ainda que mantém uma quantidade de criptomoedas capaz, segundo ele, de cobrir o valor reivindicado pelos credores. Os ativos estariam em uma carteira armazenada em um dispositivo sob guarda da Polícia Federal. Ele não informou o montante existente ali e afirmou que não se recordava da senha de acesso. O conteúdo dessa carteira permanece como uma das principais incógnitas do caso. Uma carteira de criptomoedas pode ser mantida em dispositivos sem conexão com a internet, conhecidos como cold wallets, cujo acesso depende das chaves ou senhas correspondentes.

Mirelis também prestou depoimento. Ela rejeitou a acusação de que participava da administração da carteira de clientes e afirmou que sua atuação na GAS estava concentrada no acompanhamento do mercado e na realização de operações com criptomoedas. O MPF, entretanto, sustenta que ela compartilhava com o marido o comando da organização. Depois da prisão de Glaidson, em 2021, Mirelis deixou o Brasil e foi para os Estados Unidos. Ela permaneceu foragida até ser detida pela imigração americana em 2024 e posteriormente enviada de volta ao Brasil. Os advogados dela sustentam que Mirelis não integrava a estrutura administrativa da empresa e que os saques realizados depois da prisão foram destinados à devolução de recursos a clientes.

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Glaidson está preso desde 2021. Além das acusações envolvendo a GAS, ele é investigado por suspeita de ter ordenado a morte de concorrentes em Cabo Frio, na Região dos Lagos, onde a empresa mantinha sua sede. A defesa de Glaidson afirma que ele é inocente e atribui a interrupção dos pagamentos da GAS a uma determinação judicial. Os advogados também questionam a relação de credores e os valores cobrados. O processo está em fase final. Caso sejam condenados, Glaidson, Mirelis e outros 15 réus acusados de integrar a organização podem receber penas que, somadas, ultrapassam 40 anos de prisão.

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