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Entenda como o agronegócio puxou o PIB para baixo

Setor recua 8%, maior queda desde o início da série histórica do IBGE para o terceiro trimestre, com fatores climáticos e sazonalidade do café e da soja

Por Luana Meneghetti Atualizado em 2 dez 2021, 14h16 - Publicado em 2 dez 2021, 13h37

O agronegócio é o principal setor exportador do país e um importante motor para a economia brasileira nos últimos anos. No ano passado, período crítico da pandemia, o setor saiu ileso aos efeitos da crise sanitária com safras recordes, sendo o principal responsável pelo superávit da balança comercial e ganhando participação no resultado total do PIB.

Mas desde o segundo trimestre deste ano, o desempenho do agronegócio tem influenciado negativamente para o resultado do PIB. Mesmo com o governo enchendo a boca para falar que o dólar alto é “bom para estimular investimentos” e que favorece as exportações brasileiras, o câmbio não foi suficiente para salvar o setor da baixa. No segundo trimestre deste ano, o agronegócio já apresentava a maior queda dentre os setores compostos pelo PIB, de 2,8%, e seguiu a tendência neste terceiro trimestre com queda de 8%, a maior desde o início da série histórica do IBGE para o terceiro trimestre. Com isso, o PIB recuou 0,1% tanto no segundo quanto no terceiro trimestre, colocando o país na chamada recessão técnica, termo que define dois trimestres consecutivos de queda na atividade.

Para os especialistas ouvidos por VEJA, as quedas do agronegócio estão atreladas aos fatores climáticos, com geadas e secas, esta última bastante impactada pela crise hídrica.  Segundo Vinícius Buriche, analista macroeconômico da Inside Research, as geadas afetaram partes ativas da agricultura brasileira, a região Sul e Sudeste, o que pode ter arrefecido a produção agrícola. “É natural que dificuldades na cadeia de produção ocorridas majoritariamente no segundo trimestre possam ter levado à produção do terceiro trimestre a níveis extremamente baixos”, diz.

Segundo Nicole Rennó, pesquisadora da área de macroeconomia do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, os fatores climáticos derrubaram a produtividade de culturas importantes para o PIB, como o milho (-16%), a cana-de açúcar (-7,6%), o algodão (-17,5%), e o café (-22,4%), que já está em ano de bienalidade negativa. A bienalidade acontece quando as plantas de café possuem alta produtividade em uma safra e queda no próxima, como no caso deste ano, devido a necessária recomposição da plantação.

Segundo a pesquisadora, a soja impediu maiores estragos no resultado do agronegócio. O Brasil passou a ser o maior produtor na safra 2020/21, com a 37,4% da produção total, seguido pelos Estados Unidos (28,4%), segundo o Ipea.  E é também o maior exportador do grão, de todos os produtos do agronegócio exportados, a soja responde sozinha por 34,2% do total comercializado em valor, que corresponde a 34,5 bilhões de dólares. Na safra 2020/21, o Brasil produziu 135,409 milhões de toneladas, enquanto os Estados Unidos, segundo maior produtor, produziram 112,549 milhões de toneladas do grão. Embora o bom desempenho da soja tenha segurado uma queda ainda maior, o fato de a colheita se concentrar nos dois primeiros trimestres do ano também pode ter impactado no recuo do setor no terceiro período.

O agronegócio alcançou participação de 26,1% do PIB brasileiro, segundo dados do Cepea em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Dada a sua importância para toda a economia, as últimas quedas consecutivas do agronegócio preocupam em momento que o Brasil entra em recessão técnica.

Diferente dos dados oficiais do IBGE, o PIB do agronegócio contado pelo Cepea engloba todo o segmento e as evoluções de volume e dos preços reais, enquanto o IBGE considera o volume produzido “dentro da porteira”. Na análise do Cepea, a parcela de contribuição do agronegócio para o PIB brasileiro passou de 18,7% em 2014 para 26,6% no ano passado. Pelo IBGE, essa importância também aumentou, mas de 4,9% em 2019 para 6,8% em 2020.

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