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Em um cenário de juros altos e incertezas no Brasil, empresas miram as bolsas dos EUA

Elas buscam visibilidade e acesso a investidores globais

Por Carolina Ferraz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 18 jan 2026, 08h00 • Atualizado em 19 jan 2026, 09h51
  • O horizonte econômico nebuloso e os juros altos colocaram o mercado de ações no Brasil em modo defensivo. Com o investidor doméstico mais avesso a risco, a janela de aberturas de capital na B3, a bolsa de valores de São Paulo, permanece fechada, sem sinais concretos de que deverá reabrir. Nesse quadro, cresce o número de empresas nacionais que passam a levar seus planos para os Estados Unidos. De modo geral, elas procuram mais liquidez e tentam se aproximar de uma base de investidores maior, capaz de sustentar projetos de crescimento no longo prazo. Nas últimas semanas, a lista de candidatos a desbravar o mercado americano ganhou nomes de peso: dois bancos (PicPay e Agibank) e a Abra, holding controladora da companhia aérea Gol, revelaram que pretendem realizar ofertas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês), em Wall Street, o coração financeiro de Nova York.

    Uma das iniciativas mais avançadas é a do PicPay. Controlado pela J&F, o banco digital presidido por Eduardo Chedid protocolou há alguns dias o registro para abrir capital na Nasdaq, a bolsa americana de tecnologia, mirando captar até 500 milhões de dólares em uma oferta primária — trata-se de dinheiro novo no caixa, com diluição das fatias dos atuais acionistas. A operação já nasce com um investidor-âncora: a gestora americana Bicycle sinalizou a intenção de aportar 75 milhões de dólares na empresa. Seguindo a mesma trilha, o Agibank também acelerou seus projetos. Na quarta-feira 14, a fintech formalizou o pedido para listar suas ações na Bolsa de Nova York (NYSE). A operação tem os bancos americanos Goldman Sachs, Morgan Stanley e Citigroup como coordenadores.

    A diferença entre os mercados do Brasil e dos Estados Unidos ajuda a entender esse movimento. A NYSE e a Nasdaq concentram, juntas, mais de 5 000 companhias listadas, enquanto na bolsa brasileira são apenas 414. Em geral, quanto mais amplo o mercado, maior é a capacidade de absorver novas captações, sustentar liquidez no pós-oferta e formar preço com mais eficiência. “Nos Estados Unidos, a empresa tem acesso a investidores do mundo inteiro”, afirma André Algranti, diretor de novos negócios da Avenue, corretora brasileira especializada em investimentos no exterior. “O país concentra praticamente metade do mercado de renda variável global. Então, quando uma empresa faz uma oferta por lá, está pescando em um mercado muito mais significativo.”

    Nos últimos anos, alguns casos emblemáticos ajudaram a pavimentar esse caminho. A empresa de alimentos JBS e os bancos Inter e Nubank escolheram listar suas ações fora do país por razões que combinam expansão internacional e busca de uma precificação alinhada a pares globais. No caso da JBS, a empresa fez uma dupla listagem: manteve negociação no Brasil e passou a operar também na Bolsa de Nova York. Segundo a companhia, a estratégia procura ajustar a estrutura societária ao perfil global do negócio. O Inter migrou sua base acionária para os Estados Unidos em 2022 como parte de seu plano de crescimento no mercado americano. E agora PicPay e Agibank entram nessa prateleira ao preparar o IPO no exterior, também em linha com estratégias de internacionalização.

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    AMBIÇÃO GLOBAL - Chedid, CEO do PicPay: dinheiro novo no caixa
    AMBIÇÃO GLOBAL - Chedid, CEO do PicPay: dinheiro novo no caixa (Claudio Gatti/.)

    A projeção lá fora, de fato, importa. Uma listagem em Wall Street tende a ampliar a visibilidade das empresas e facilitar o acesso a investidores que já conhecem o setor e comparam a companhia com concorrentes globais. Para Bruno Saraiva, co-lider do banco de investimentos no Brasil e chefe de mercado de capitais para América Latina do Bank of America, essa característica do mercado americano pesa na decisão: “Para companhias que têm uma tese clara de crescimento, estar listada nos Estados Unidos facilita o acesso a investidores que já conhecem bem o negócio”.

    Nada disso, porém, significa que o Brasil tenha ficado à margem do mercado de capitais de forma definitiva. Embora o último IPO na B3 tenha ocorrido em 2021, o país já viveu ciclos recentes de forte atividade, com dezenas de aberturas de capital em pouco tempo. Com mais previsibilidade econômica, juros em queda e um custo de capital mais baixo, a bolsa brasileira tende a voltar ao radar das empresas. Até lá, Wall Street deverá seguir como a rota preferencial para vários negócios que estão em busca da maior vitrine do mundo.

    Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978

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