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Em recuperação judicial, Odebrecht tenta se reerguer

A empresa ensaia os primeiros passos pós-Lava-Jato e se esforça para convencer credores de seu plano, mas brigas familiares atrapalham

Uma comemoração inusitada tomou a sede da construtora Odebrecht há duas semanas em São Paulo. Na terça-feira 1º, executivos da empresa exultaram com a conquista do contrato em uma licitação para a duplicação de uma rodovia no Paraná. O que chama atenção na euforia é o valor desse contrato, 90,6 milhões de reais, aquilo que no mundo das grandes empreiteiras é chamado pejorativamente de “obra de banheiro”. Nos tempos áureos pré­-Lava-Jato, a Odebrecht cravava faturamentos anuais na casa dos 130 bilhões de reais, erguia estádios, metrôs e hidrelétricas em 28 países e desprezava contratos inferiores a 300 milhões de reais. Para uma empresa paralisada em uma crise proporcional a seu tamanho, a rodovia paranaense, entretanto, foi uma suada vitória.

A principal razão para o ocaso da companhia, atualmente em recuperação judicial, é notória: seus executivos e o presidente, Marcelo Odebrecht, foram presos por envolvimento em corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Problemas com a Justiça de diversos países levaram ao pagamento de multas altíssimas, o que catapultou sua dívida com credores, hoje em 51 bilhões de reais. Paralelamente, uma miríade de problemas de gestão somava-se à roubalheira, entre eles projetos alavancados além de sua capacidade financeira e de alto risco — como a Arena Corinthians, em São Paulo, e a hidrelétrica de Santo Antônio, em Rondônia, que somaram bilhões de reais em prejuízos.

A resposta aos problemas é radical. A Atvos, braço voltado para o açúcar e o etanol, também em recuperação judicial, terá o controle entregue aos credores. A Odebrecht Energia e a OTP (concessionária de rodovias, ferrovias e portos) serão liquidadas. O grupo também pretende acabar com a incorporadora OR, responsável pelo infame negócio da Vila Olímpica do Rio de Janeiro, erguida para os Jogos de 2016. “O plano de recuperação da empresa prevê a concentração de todos os esforços e investimentos na construtora, a origem do conglomerado. Quanto a isso há um consenso”, disse a VEJA um membro da família.

A união se desfaz quando o assunto é a Braskem, petroquímica em que a Odebrecht detém uma participação de 38,3%, em sociedade com a Petrobras e acionistas minoritários. Lucrativa, ela é uma das esperanças dos bancos e credores de rever parte de seu dinheiro, pois a empresa foi usada como garantia de empréstimos. Mas também é uma alternativa de gerar recursos para diminuir o sufoco do grupo. Em junho, a Braskem quase foi vendida à holandesa LyondellBasell, que injetaria 20 bilhões de reais no grupo Odebrecht. Os mercados brasileiro e holandês, porém, viram o negócio com maus olhos, e ambas as companhias despencaram na bolsa. A operação foi abortada em meio à disputa judicial em torno de um incidente em uma mina de sal-gema em Alagoas. Em fevereiro, a atividade de extração do minério provocou danos em prédios nas proximidades. Até que apareça outro comprador, a estratégia é diminuir ao máximo os investimentos para espremer quanto der os lucros da companhia — a única fonte de renda do grupo enquanto a construtora não embala.

PAI E FILHO – Emílio e Marcelo Odebrecht, em 2011: ruptura traumática

PAI E FILHO – Emílio e Marcelo Odebrecht, em 2011: ruptura traumática (Germano Lüders/.)

A mente por trás do projeto de recuperação da Odebrecht é o patriarca Emílio, que rompeu com o filho Marcelo depois de sua prisão. A colaboração de Emílio com a Justiça e as mudanças feitas por ele azedaram de vez a relação entre os dois. Uma vez livre e de tornozeleira eletrônica, Marcelo voltou a exercer influência entre seus aliados no grupo, como forma de manter seus interesses. Emílio e Marcelo nunca foram muito próximos. Foi o pai de Emílio — e fundador da companhia —, Norberto, quem cultivou o afeto e as habilidades empresariais do neto. Atualmente os quatro tios (responsáveis por nomear o presidente do conselho do grupo) e os três irmãos de Marcelo apoiam as determinações de Emílio. O patriarca até já lavrou em cartório quem será seu sucessor no comando: Maurício Odebrecht, irmão mais moço de Marcelo. Mas o primogênito não desiste. No início de setembro, no primeiro dia após o fim de sua prisão domiciliar, ele visitou a sede do grupo e mandou uma carta aos parentes, na qual criticou o estado da empresa e pediu para reassumir as rédeas do negócio. “Emílio ficou lívido com a petulância”, relatou a VEJA um executivo próximo a ele. “Ele jamais vai permitir a volta de Marcelo, seja pelas críticas ao que foi feito em sua ausência, seja pela sua recusa em admitir qualquer parcela de culpa no declínio da companhia.”

Para sair do buraco, a Odebrecht enfrenta dois grandes desafios. O primeiro é achar outra forma de financiar suas obras, já que a fonte do BNDES secou. Bancos privados e agências de fomento internacionais, como o Banco Mundial, não querem chegar perto da má reputação da companhia. O segundo obstáculo é a economia brasileira, que anda de lado e inibe investimentos em infraestrutura. A organização corre contra o tempo. Em novembro haverá uma reunião para aprovar o plano de recuperação judicial, mas ninguém acredita que se resolva algo ali. Os donos da Odebrecht sabem, no entanto, que o mercado aos poucos absorve a possibilidade de o grupo quebrar. Se eles perderem tempo em disputas de poder, o grupo não voltará à superfície.

Publicado em VEJA de 16 de outubro de 2019, edição nº 2656