Em busca de proteção: O retorno do ouro às carteiras dos investidores
O metal é uma aposta estratégica para 2026, em meio a conflitos geopolíticos, bancos centrais mexpansionistas e dúvidas sobre o dólar como reserva de valor
O ouro ocupou um papel central na estratégia de proteção dos investidores em 2025 por diversos fatores. O primeiro foi o acirramento das tensões geopolíticas envolvendo os principais atores globais — Estados Unidos, China, Rússia e Irã —, que mediram forças em conflitos regionais relevantes, como a invasão da Ucrânia e a guerra de Israel contra o grupo terrorista Hamas na Palestina. Em outra frente, cresceram as preocupações do mercado com a economia americana, pressionada por sinais de desaceleração, pelo impacto do tarifaço promovido pelo presidente Donald Trump sobre a inflação e pelo aprofundamento da crise fiscal. O quadro complexo dificultou o trabalho dos analistas de avaliar os futuros movimentos do Federal Reserve. Com isso, muitos investidores globais partiram em busca de oportunidades em outros países, levando a um enfraquecimento do dólar e dos títulos públicos americanos como ativos que compõem as reservas internacionais de outras nações. “O mundo ficou mais imprevisível”, afirma William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue. “Isso aumenta a demanda pelo ouro como proteção.” Com a maior procura, o metal acumulou uma valorização de mais de 60% até o início de dezembro, cotado ao redor de 4 260 dólares por onça troy, medida equivalente a 31,1 gramas.
No Brasil, a valorização também foi puxada pelo câmbio. Mesmo em momentos de fortalecimento do real frente ao dólar, a cotação internacional elevada manteve o ativo em patamares historicamente elevados também na moeda brasileira. O fenômeno atraiu investidores locais e, com eles, o interesse de grandes empresas em explorar esse mercado. Os exemplos mais eloquentes de 2025 vieram da B3, a dona da bolsa. Em julho, a B3 lançou o contrato futuro de ouro para atrair os investidores pessoa física. Três meses depois, criou o Índice Futuro de Ouro para servir de referência para as transações. “Enxergamos uma demanda crescente pelo metal, diante do cenário global de instabilidade política e econômica”, diz Bianca Maria, gerente de produtos da B3. Com isso, os brasileiros ganharam mais uma forma de investir em ouro. A compra física de barras, moedas ou joias ainda é vista como uma alternativa clássica de proteção patrimonial, mas envolve custos com o armazenamento e a segurança, além de apresentar menor liquidez — ou seja, é mais difícil transformar joias e barras em dinheiro vivo. Já os instrumentos financeiros lastreados no metal, como fundos, ETFs e contratos futuros, são mais fáceis de operar e contam com liquidez diária. Por isso, são os meios mais utilizados pelos investidores.
Para 2026, os analistas preveem que a cotação do metal seguirá em alta, embora em ritmo mais modesto. Novos cortes de juros nos Estados Unidos tendem a enfraquecer ainda mais o dólar, mantendo o ambiente favorável para o ouro como reserva de valor de governos em todo o planeta. Um relatório recente do banco Goldman Sachs assinado pelos analistas Lina Thomas e Daan Struyven estimou que o metal pode encerrar 2026 cotado a 4 900 dólares. A projeção representa uma alta potencial de 15% sobre o nível atual. Segundo o Goldman, a valorização será sustentada pelos bancos centrais, que continuarão comprando ouro para suas reservas, pelas pessoas físicas e por grandes investidores de longo prazo como os fundos de pensão. Já em um cenário de maior estabilidade econômica global e refluxo das tensões geopolíticas, o metal tende a passar por períodos de acomodação ao longo do próximo ano, com ajustes técnicos no preço e realização de lucros. A avaliação é compartilhada por analistas brasileiros. “Vivemos em um ambiente muito mais volátil e incerto do que no passado, o que favorece o ouro”, afirma Renato Eid, superintendente de estratégias indexadas do Itaú Asset. Símbolo consagrado de riqueza há milhares de anos, o ouro seguirá provando seu valor em 2026.
Publicado em VEJA, dezembro de 2025, edição VEJA Negócios nº 21





