Assine VEJA por R$2,00/semana
Continua após publicidade

Dólar: reformas e privatizações são as armas para conter o câmbio

Somente a agenda econômica com vento em popa permitirá que o Brasil volte ao radar de investidores externos — o que daria fôlego ao real

Por Victor Irajá Atualizado em 28 fev 2020, 00h11 - Publicado em 27 fev 2020, 13h45

No dia em que o brasileiro assistiu ao dólar decolar para 4,50 reais, as perspectivas não são as melhores. A partir desta quinta-feira, 27, é imaturo pensar em um cenário no qual a moeda americana volte para os patamares próximos de 4 reais. Depois da festa do Carnaval e das notícias vindas da Europa, principalmente da Itália, o mercado brasileiro sucumbiu, junto dos internacionais, com o espraiar do coronavírus no continente europeu. A confirmação do primeiro caso da doença no Brasil, na noite da terça-feira de Carnaval, impulsionou o pânico no mercado brasileiro. Mas a culpa do dólar nas alturas não é só da cepa viral batizada de Covid-19.

Desde o início do governo de Jair Bolsonaro, a política expressa do presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, e endossada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, é de espremer as taxas de juros aos menores patamares possíveis e aprender a conviver com o câmbio mais alto. O ciclo de cortes assumido pelo BC forçou o mercado a precificar a moeda americana para algo entre 4,15 e 4,20 reais. Era uma escolha. E foram por água abaixo as previsões, pouco fundamentadas em evidências, feitas por economistas ainda em 2018, de que o dólar pudesse cair para um patamar próximo de 3,50 reais. Com o dólar valendo mais, Guedes queria atrair capital para investimentos a longo prazo, como de infraestrutura, depois de a Lava Jato ferir de morte as empreiteiras brasileiras — com razão, ressalte-se.

O ministro Paulo Guedes: declarações desastradas e escolha por um câmbio mais alto / (Jorge William/Agência O Globo)

A disparada do dólar começou em agosto de 2019. O mercado tentava digerir os dados fracos da economia brasileira, o início do processo de impeachment de Donald Trump — que foi enterrado pelo Senado americano neste ano — e o desfecho da guerra comercial travada entre China e Estados Unidos. Para controlar a volatilidade da moeda americana — mas sem influenciar sobremaneira a sua tendência de alta, irrefreável — o Banco Central voltou a utilizar uma tática que não era vista desde 2009, época do estouro da bolha imobiliária nos EUA: a realização de leilões diários de dólar à vista. Em resumo, o BC passou trocar os dólares das reservas internacionais por reais para tentar aumentar a oferta da moeda estrangeira dentro do país.

Continua após a publicidade

O vírus pegou todo mundo de surpresa no começo deste ano, mas a inércia do governo em apresentar reformas que desanuviem as contas públicas e simplifiquem o sistema tributário são entraves para que o brasileiro volte a ver a moeda americana em níveis minimamente confortáveis, tanto para as empresas quanto para os cidadãos. O atraso em apresentar privatizações robustas também permite que o cenário só se deteriore — e afaste as verdinhas da nossa economia. O remédio para essa gripe, portanto, passa pelo governo — e, consequentemente, pelo Congresso Nacional. A aprovação da reforma administrativa permitiria que o governo tivesse dinheiro em caixa para investir e fazer a economia girar, enquanto a simplificação tributária é essencial para tirar o Estado do cangote das empresas e fazer o país atrativo — e conquistar cada vez mais o capital estrangeiro.

Quanto ao estresse dos maiores mercados ao redor do mundo, há pouco o que se fazer do Brasil — mas, internamente, sim. O brasileiro deseja voltar a sentir-se minimamente confortável com as cotações do dólar e, por isso, deveria pressionar o governo para que envie seus projetos de reformas e privatizações. Já o Congresso, com a boa vontade que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ainda parece ter pela agenda econômica, precisa acelerar a tramitação dos projetos. Por fim, o presidente Jair Bolsonaro deve, imediatamente, parar de bater cabeça com o Parlamento e de flertar com o autoritarismo. Nas últimas semanas, o clima entre os dois poderes esquentou com a comparação de funcionários públicos a parasitas, as mudanças em cargos de articulação política e a belicosidade de Bolsonaro durante os dias de folia. O envio de um vídeo por parte de Bolsonaro convocando a população para protestos contra o Congresso só tornaram mais difícil a relação por parte dos parlamentares com a agenda indócil engendrada por Guedes. No fim das contas, é a sociedade, que não tem nada a ver com a guerra de egos, que padece.

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto: BC até tentou segurar o dólar, mas sem sucesso / (Raphael Ribeiro/BCB/Divulgação)

Somente a agenda econômica com vento em popa permitirá que o Brasil volte a ser um mercado interessante para os investidores externos — o que atrairia dólares para nossa economia e permitiria o respiro da moeda brasileira. De fato, hoje o Banco Central pouco pode fazer. “A redução de mais ou menos 0,25% da Selic pouco impacta o cenário hoje”, avalia o gerente de câmbio da corretora Treviso, Reginaldo Galhardo. A instituição agiu ao ver o que avaliou como uma pequena distorção no mercado, depois que Guedes se meteu onde não deveria para comentar o câmbio — e ainda foi extremamente preconceituoso com as empregadas domésticas. Os leilões na semana em que o ministro falou besteira ajudaram a segurar momentaneamente a alta da moeda americana. Mas tudo se acabou na quarta-feira. “A gente não esperava que tanta novidade acontecesse em tão pouco tempo”, diz Ernani Reis, da Capital Research.

Com a piora no cenário global por causa da epidemia de coronavírus, o Banco Central até tentou, de novo, segurar o voo do dólar com novos leilões de dólar para o mercado, mas de forma tímida. “Com o governo afirmando e reafirmando que não estava preocupado com a alta do dólar, a moeda foi subindo, sem que o Banco Central fizesse grande esforço para contê-la. Agora o dólar está testando os limites de atuação do Banco Central e a política do governo de menos intervenções no câmbio”, afirma Reis.

Os novos patamares para o câmbio? “Não vejo o dólar voltando a valer 4,15 reais, não. Se continuar a tendência de alta, é questão de tempo para que bata 5 reais”, diz Galhardo. Com o compromisso de avanço da agenda, porém, a moeda pode voltar a se estabilizar em 4,30 reais — a cotação dos sonhos de Guedes. Tomara.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Domine o fato. Confie na fonte.

10 grandes marcas em uma única assinatura digital

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 2,00/semana*

ou
Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 39,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$96, equivalente a R$2 por semana.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.