Dólar cai com força nesta quinta-feira em resposta ao tarifaço de Trump, e o real pode se dar bem
Percepção de que as tarifas recíprocas adotadas por Trump isolarão os Estados Unidos do resto do mundo pressiona a moeda americana; Brasil pode ganhar

O dólar opera em forte queda no Brasil e em outros países nesta quinta-feira, 3, em reação ao tarifaço sobre as importações determinado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na tarde de ontem. Por volta das 11h, o dólar comercial recuava 1,47%, sendo cotado a 5,616 reais para venda e 5,615 para compra. Na mínima do dia até o momento, a moeda americana chegou a ser negociada por 5,607 reais para venda. Na máxima, alcançou 5,644 reais.
O Ibovespa abre o dia em alta, na contramão dos mercados globais. Por volta das 10h40, a alta chegou a ser de quase 1%, mas nos minutos seguintes, a bolsa brasileira moderou a alta. Às 11h, o índice subia 0,65%, aos 132 mil pontos.
Moeda
A desvalorização do dólar é generalizada ao redor do mundo. O índice DXY, que acompanha a variação do dólar em relação a uma cesta com as principais moedas do mundo, recuava 2,08% no mesmo instante, para os 101,65 pontos. Segundo o jornal britânico Financial Times, a queda expressa as preocupações de investidores e analistas com o impacto das tarifas recíprocas anunciadas ontem por Trump sobre a própria economia americana, bem como sobre a força das instituições dos Estados Unidos.
Do lado econômico, segundo o FT, o fantasma que assombra o mercado é o risco de o protecionismo trumpista jogar o país e o mundo em uma estagflação, isto é, uma situação em que a economia fica estagnada e a inflação sobe. Do lado político, a falta de transparência da Casa Branca acerca dos critérios para determinar a tarifa mínima que cada país pagará para vender seus produtos nos Estados Unidos mina a confiança dos investidores. “A abordagem da administração americana para calcular as tarifas levanta sérias preocupações sobre sua credibilidade política e mina o dólar”, afirmou, ao FT, George Saravelos, analista do Deutsche Bank.
A queda do dólar também pode indicar que os operadores de mercado enxergam um crescente isolamento dos Estados Unidos, à medida que Trump eleva barreiras comerciais neste segundo mandato. “Se o impacto das tarifas for extenso, criando incertezas e desaceleração da economia americana, ao passo em que os Estados Unidos se isolem do resto do mundo, a tendência é observar a continuidade do movimento de depreciação do dólar”, afirma André Valério, economista sênior do Banco Inter. “A reação do mercado aponta que a visão é de que as tarifas colocarão a economia americana em direção à recessão.”
Valério acrescenta que o real “deve sofrer pouco” com a nova conjuntura americana. Entre os motivos, estão o fato de que o impacto das tarifas recíprocas sobre a balança comercial brasileira deve ser pequeno e localizado em alguns setores. Além disso, o economista do Inter acredita que o Brasil pode conquistar novos mercados para seus produtos, caso a União Europeia e a China retaliem os americanos. Por fim, a competitividade das nossas mercadorias nos Estados Unidos pode até crescer, já que o Brasil foi taxado em 10% — o menor patamar anunciado ontem por Trump. A China, por exemplo, pagará 34% de tarifa mínima, e a União Europeia, 20%.