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Do petróleo aos biocombustíveis: a expansão da bp no Brasil

A britânica bp aumenta a aposta no etanol brasileiro para a transição energética. E vai investir também em biometano

Por Bárbara Nór
18 abr 2025, 17h07 • Atualizado em 18 abr 2025, 17h07
  • No fim de 2024, a britânica bp decidiu comprar a metade que pertencia à americana Bunge na sociedade BP Bunge, uma das maiores produtoras de biocombustíveis do país. O negócio, que custou 1,4 bilhão de dólares, tornou os ingleses controladores de 100% da empresa, agora chamada bp bioenergy.

    Com a aquisição, a companhia passou de 200 para 9.000 funcionários no Brasil e aumentou sua produção global de etanol. Hoje, ela já tem capacidade para produzir 51.000 barris por dia de etanol equivalente, considerando a produção de etanol, açúcar e bioeletricidade — e pretende aumentar esse volume. Neste ano, a empresa aprovou a expansão de uma de suas usinas em Tocantins, com um investimento de aproximadamente 530 milhões de reais para ampliar a capacidade de produção. Outro investimento envolve um projeto de irrigação, que, desde 2020, já recebeu 140 milhões de reais e, de 2026 a 2030, deve receber mais 250 milhões de reais.

    Além do crescimento, a ideia é diversificar os usos do etanol para impulsionar a transição energética, diz Andres Guevara, presidente da bp Brasil. Ex-presidente da subsidiária na Espanha, o executivo chegou ao Brasil em setembro do ano passado para comandar o negócio. Veja mais na entrevista a seguir.

    Por que a bp decidiu intensificar sua atuação com o etanol no Brasil e adquirir a totalidade da BP Bunge depois de tantos anos atuando com joint-ventures no país?

    A bp tem quase 120 anos de idade, e a maior parte de sua existência foi como uma empresa internacional de petróleo. Esse é o nosso DNA. Mas, desde 2020, estamos nos transformando em uma empresa integrada de energia. Isso tem a ver com a transição energética. As fontes vão continuar se diversificando e, nesse sentido, as energias de baixo carbono se tornam ainda mais relevantes para nossa estratégia.

    A bp já tinha sido uma das primeiras petroleiras a entrar no negócio de etanol. Criamos uma joint-venture no Brasil em 2008, quando ainda não era operada diretamente pela bp. Em 2011, compramos o parceiro e criamos nosso primeiro negócio de etanol aqui. Em 2019, criamos a BP Bunge — nós entramos com três usinas e eles com oito. Agora, com a aquisição, temos 11 usinas e somos um dos principais players do Brasil, com 31 milhões de toneladas de moagem de cana. Então, esse é um passo fundamental para a nossa transição e para produzir a energia de que a sociedade precisa, mas com menor pegada de carbono, de forma competitiva e confiável.

    E qual a vantagem de apostar no etanol frente a outras opções de baixo carbono?

    O etanol e o negócio [original] da bp bioenergy formam uma plataforma muito relevante para expandir e diversificar além dos negócios atuais. Hoje, temos três produtos no Brasil: o etanol para uso na mistura com gasolina ou como combustível puro; a eletricidade que geramos com o bagaço resultante do processo de moagem da cana; e, claro, o açúcar.

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    Mas há também o biogás e o biometano, nos quais vamos começar a investir neste ano. A ideia é utilizar a vinhaça, um subproduto do processamento da cana, que é utilizado como fertilizante, mas que também gera metano, que podemos capturar e usar como combustível.

    Outro exemplo são os combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) e o etanol de segunda geração, ou seja, produzido a partir do bagaço, e não do caldo de cana. Temos um Centro de Tecnologia em San Diego, na Califórnia, onde estamos pesquisando enzimas para reduzir o custo de produção do etanol de segunda geração.

    E como tem sido lidar com um combustível como o etanol, considerando que a maior experiência da BP é com o petróleo?

    Por um lado, o mercado de etanol é muito similar ao da gasolina. São produtos diferentes, mas o uso entendemos muito bem, porque vendemos mobilidade. Isso é uma vantagem, pois lidamos com processos e cadeias de valor complexas e extensas, com as quais já temos experiência. Essas cadeias são integradas por uma equipe de trading e fornecimento, com acesso a mercados internacionais e nacionais.

    O que é uma novidade para a bp é a parte agrícola, o início da cadeia produtiva. Esse segmento é diferente do resto dos nossos negócios porque envolve riscos climáticos. Nas energias renováveis, se não há sol, não há produção.

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    Com essa aquisição, temos uma equipe altamente qualificada, que conhece profundamente essa parte e será essencial para o desenvolvimento de outros biocombustíveis no futuro. 

    Quais são essas outras rotas de produção de biocombustíveis a partir da agricultura?

    Uma das rotas envolve coprocessamento — ou seja, processamos em uma refinaria de petróleo uma matéria-prima de origem biológica, misturando-a com combustível fóssil. Já realizamos esse processo em nossas refinarias pelo mundo. Normalmente, compramos essa matéria-prima de terceiros, mas agora poderemos ter mais controle sobre ela, aplicando nossa experiência no setor agrícola.

    Outra tecnologia em desenvolvimento por diversas empresas é a produção de biocombustíveis a partir de resíduos agrícolas, como óleos usados, o que podemos começar a explorar.

    A terceira rota está relacionada ao etanol para uso na aviação, uma das razões pelas quais adquirimos a joint-venture. Esse tema é extremamente relevante no Brasil, principalmente com a aprovação da Lei do Combustível do Futuro, sancionada em outubro do ano passado, que incentiva a produção e o consumo de biocombustíveis, como o SAF (combustível sustentável de aviação) e o biometano.

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    O sr. mencionou que ainda este ano a empresa vai investir no biometano. Como será a comercialização desse gás?

    Os projetos de biogás acontecem nas próprias usinas, onde está a matéria-prima, como a vinhaça. No entanto, a rede de transporte de gás natural no Brasil está concentrada na costa, enquanto a maioria das usinas está no interior do país.

    Assim, cada usina terá diferentes alternativas de comercialização. Por exemplo, uma usina em área remota poderá usar o gás para gerar sua própria energia, ou terá que transportá-lo por longas distâncias até mercados consumidores. Já usinas próximas de polos industriais poderão vender diretamente para indústrias que necessitam desse gás em seus processos produtivos.

    Em alguns casos, pode-se construir dutos para transportar o biogás diretamente ao consumidor final. Em outros, pode-se injetar o gás na malha nacional de transporte.

    Nosso objetivo principal é usar esse gás para substituir o diesel, contribuindo para a redução da pegada de carbono. Mas, para uma transição energética bem-sucedida, precisamos estimular tanto a oferta quanto a demanda por esses novos combustíveis.

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