Decisão do Fed tem desafio de equilibrar realidade e euforia do mercado
Analistas estimam tom mais firme de Jerome Powell para alinhar precificação de ativos com política monetária e conter possíveis efeitos inflacionários
Nesta quarta-feira, 1º, Jerome Powell, presidente do Federal Reserve Bank, comunicará a sua decisão de juros, o que impacta no dólar e nos títulos do Tesouro Direto, considerados os ativos mais seguros do mundo. A expectativa de grande parte do mercado é que os juros subirão 0,25 ponto percentual, indo de 4,5% para 4,75%. Porém, o que mais se espera é o tom do comunicado e a mensagem de Powell sobre as próximas decisões de política monetária.
Nesse sentido, os analistas estimam um discurso duro por parte do presidente do Fed, de maneira que a precificação dos ativos pelo mercado fique menos otimista e mais condizente com os seus comunicados. “O mercado está precificando uma reviravolta, um cavalo de pau nos juros, quando os membros oficiais de política monetária estão muito duros no discurso. Amanhã o Powell vai precisar recalibrar o mercado”, diz Alex Lima, estrategista-chefe da Guide Investimentos.
Atualmente, a curva de juros projeta que até o final deste ano haverá um corte de 0,50 ponto percentual na taxa de juros dos Estados Unidos, o que vai em sentido totalmente oposto ao discurso dos membros de Comitê de Política Monetária americano (FOMC, na sigla em inglês). Alguns membros do colegiado inclusive apontam que os juros ficarão muito próximo de 5% até metade do ano que vem.
Como exemplo do otimismo do mercado, desde o começo do ano o SP500, índice que reúne as ações das 500 maiores empresas da bolsa americana, acumula alta acima de 6,5%. Essa expectativa positiva desalinhada com a política do Fed desagrada as autoridades monetárias justamente pelos efeitos contrários que podem causar nos preços do país. “Quando a bolsa fica muito valorizada, as pessoas tem mais propensão a gastar, o que prejudica a batalha contra a inflação”, diz Lima.
Stephan F. Kautz, economista-chefe da EQI Asset, lembra que a inflação americana permanece alta e a recuperação do mercado de trabalho robusta, o que contribui para uma política de juros hawkish. Ele estima que a inflação só cairá entre abril e maio e por isso o Fed deve trazer mais altas, bem como uma taxa terminal de juros de 5,25% pelo menos em maio, o que deve se manter até o final do ano para que a inflação convirja para a meta.
As últimas sinalizações do Fed contribuem para esse cenário, uma vez que a instituição tem publicado diversos textos com estudos sobre o que ocorreu na década de 70, quando os EUA enfrentaram uma forte inflação e tiveram de dar um forte choque de juros. Na época, no entanto, atribuiu-se a alta ao fato de o comitê ter cortado imediatamente os juros ao verificar uma desaceleração na atividade econômica. “Dessa vez o Fed quer mostrar que aprendeu com o passado e que vai esperar mais tempo para que a inflação realmente caia”, diz Kautz.







