Crise no Oriente Médio abre janela de exportações para o petróleo brasileiro
A commodity brasileira pode se tornar alternativa para países dependentes do Estreito de Ormuz, mas alta do barril amplia riscos inflacionários
Quando os mercados fecharam na sexta-feira, 27, o Brent avançava 2,45%, cotado a US$ 72,48, uma alta que interpretada como uma oscilação pontual, parte da rotina volátil dos mercados de commodities. No sábado, porém, o ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã adicionou um elemento geopolítico relevante à equação. Ao reabrirem amanhã, as bolsas deverão refletir uma tendência de alta já contratada nos preços do petróleo, impulsionada não apenas pelo conflito, mas também pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, a passagem marítima estratégica entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã pela qual transita cerca de 20% do petróleo consumido no mundo.
Em um cenário de interrupção das exportações iranianas, e eventual redução dos fluxos provenientes de outros produtores do Oriente Médio, os grandes importadores seriam forçados a redesenhar suas rotas de abastecimento. Nesse rearranjo, o Brasil surge como alternativa plausível. Segundo Adriano Pires, economista e sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), o petróleo brasileiro pode conquistar espaço em refinarias que hoje dependem fortemente do Golfo Pérsico. “O Brasil hoje é um grande exportador de petróleo. O petróleo se tornou o principal item da balança comercial”, afirma.
A posição atual contrasta de forma contundente com o passado. Nos anos 1970, em meio aos choques do petróleo, o país importava cerca de 80% do que consumia, tornando-se altamente vulnerável às crises geopolíticas. Hoje, graças à expansão da produção, sobretudo com o pré-sal, o Brasil alcançou autossuficiência relativa e passou a operar com excedente exportável. Essa nova configuração não elimina os efeitos inflacionários de um barril mais caro, mas funciona como um amortecedor externo: em vez de vítima passiva da turbulência no Golfo, o país pode, ao menos parcialmente, transformar instabilidade internacional em ganho comercial.
Para a Petrobras, a equação também parece favorável. “Para toda petroleira, petróleo caro é bom”, resume Pires. A receita em dólar cresce, a geração de caixa aumenta e a capacidade de investimento se expande, ao menos no papel. A bonança, contudo, tem condicionantes. Para a Petrobras colher integralmente os frutos de um barril mais caro, o governo precisaria permitir o repasse da alta internacional aos preços da gasolina e do diesel. Se o repasse for contido por razões políticas, a estatal pode ver suas margens comprimidas, repetindo dilemas do passado.
E há o efeito macroeconômico. Petróleo caro é, para o consumidor, sinônimo de inflação. O diesel move a frota de caminhões que transporta alimentos, insumos industriais e bens de consumo pelo país. Um reajuste nas bombas se espalha pela cadeia produtiva, pressionando índices de preços e corroendo renda.
O risco político não é trivial. Em fevereiro de 2022, quando o barril ultrapassou US$ 100 no contexto da guerra entre Rússia e Ucrânia, o Brasil vivia ano eleitoral. A alta dos combustíveis se tornou um dos temas centrais do debate público. Caso o Brent volte à casa dos três dígitos, o governo Lula poderá enfrentar turbulência semelhante às vésperas de novo ciclo eleitoral. Há, porém, uma diferença estrutural em relação a 2022. Naquele momento, a alta combinava dois vetores: restrição geopolítica envolvendo a Rússia, gigante global de petróleo e gás, e um mercado em que a oferta crescia menos que a demanda, num mundo que saía da pandemia.
Agora, argumenta Pires, o pano de fundo é distinto. “Hoje você tem a oferta crescendo três vezes mais que a demanda”, diz. Em outras palavras, há um “colchão de amortecimento”: capacidade adicional, sobretudo entre membros da Opep, que pode ser acionada se os preços dispararem. Isso sugere que, se o impasse geopolítico for resolvido rapidamente, o barril poderia recuar para a faixa de US$ 60 com relativa velocidade, segundo Pires.
Apesar do Brasil estar longe do risco de um desabastecimento de petróleo, o episódio reacende um debate estratégico: a necessidade de diversificar fronteiras exploratórias. A produção do pré-sal, concentrada na Bacia de Santos, deve atingir maturidade nas próximas décadas. “Sem novas áreas, o país corre o risco de voltar à condição de importador líquido”, reabrindo a vulnerabilidade externa”, diz Pires.
Nesse contexto, a chamada Margem Equatorial, faixa que se estende do Amapá ao Rio Grande do Norte, ganha relevância. Há expectativa de volumes expressivos que poderiam substituir, no médio prazo, o declínio natural do pré-sal. Para Pires, a crise no Oriente Médio “mostra a importância de explorar a margem equatorial”. Não fazê-lo, diz, pode comprometer a balança comercial e recolocar o Brasil na rota da dependência.





