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Conta de luz pode ficar mais cara em 2026; entenda os motivos

Projeções de consultorias e bancos indicam alta entre 5,1% e 7,95%, ou até 12%, no IPCA, devido ao clima mais seco provocado pelo El Niño

Por Luana Zanobia Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 23 fev 2026, 17h39 • Atualizado em 23 fev 2026, 18h11
  • Em um país que se orgulha de ter uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo, a conta de luz volta a ameaçar o orçamento doméstico. Depois de ter sido o principal vetor de pressão sobre a inflação no ano passado, a energia elétrica deve encerrar 2026 novamente acima do Índice de Preços  ao Consumidor (IPCA), a inflação oficial do país. Projeções de consultorias e bancos indicam alta entre 5,1% e 7,95%, ou até 12% em um cenário climático adverso.

    O Brasil ainda depende majoritariamente de hidrelétricas, cuja produção varia conforme o nível dos reservatórios. Apesar de um início de ano relativamente favorável, com armazenamento em torno de 54,8% no Sudeste/Centro-Oeste e níveis superiores a 60% no Norte e Nordeste, segundo dados oficiais, analistas alertam que o quadro pode se deteriorar rapidamente com a chegada do período seco.

    A possível transição de La Niña para El Niño adiciona incerteza. O fenômeno tende a reduzir as chuvas no Norte e Nordeste,essionando os reservatórios e exigindo maior acionamento de usinas termelétricas, mais caras e intensivas em combustíveis fósseis.

    É aí que entram as bandeiras tarifárias — verde, amarela e vermelha (patamares 1 e 2). Elas funcionam como um sinal de preço em tempo real. Quando o sistema recorre a fontes mais custosas, a tarifa sobe automaticamente. A projeção-base de mercado considera bandeira amarela no fim do ano. Se o sistema terminar sob bandeira vermelha patamar 2, a conta pode avançar perto de dois dígitos.

    No ano passado, entre junho e novembro, o consumidor conviveu com bandeiras vermelhas. A energia residencial subiu 12,31%, se tornando o item de maior impacto individual no IPCA, que fechou em 4,26%.

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     Subsídios: o custo invisível

    Se o clima é o gatilho imediato, os subsídios são a pressão estrutural. Em 2026, estão previstos R$ 47,8 bilhões em encargos setoriais. 17,7% a mais que em 2025, financiados sobretudo pela Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), um fundo que embute na tarifa os descontos concedidos a grupos específicos, como famílias de baixa renda, produtores rurais e irrigantes.

    O desenho é socialmente defensável, mas economicamente opaco. Ao diluir políticas públicas na conta de luz, o sistema transforma a tarifa em instrumento fiscal indireto. O resultado é uma trajetória persistente de alta acima da inflação. Segundo levantamento da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel), nos últimos 15 anos a conta de luz subiu 177%, ante inflação de 122%. Mesmo medidas pontuais de alívio, como o uso de bônus da Usina de Itaipu para conceder descontos, têm efeito temporário. No agregado, o custo do megawatt-hora atingiu R$ 786,76, o maior desde 2011, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL).

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     Excesso de oferta, desperdício de energia

    Além disso, há um descompasso entre oferta e demanda. O Brasil ampliou fortemente sua capacidade de geração, sobretudo em eólica e solar. Contudo, a expansão da transmissão e o crescimento do consumo não acompanharam o mesmo ritmo. Para preservar a estabilidade do sistema, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) frequentemente interrompe a produção de parques solares e eólicos. No ano passado, cerca de 20% da energia renovável potencial foi descartada, segundo estimativas privadas, gerando perdas bilionárias aos empreendedores.

    O país enfrenta simultaneamente três distorções: paga caro para acionar térmicas quando falta água; paga para subsidiar consumidores específicos; e paga indiretamente pelo desperdício de energia limpa que não consegue escoar.

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