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Como o Brasil se tornou país livre de febre aftosa e o que ganhamos com isso

Foram seis décadas de combate à doença, numa demonstração de como uma política pública contínua, independente de ideologias, pode dar frutos no longo prazo

Por Diogo Schelp Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 6 jun 2025, 12h49 • Atualizado em 6 jun 2025, 15h24
  • O Brasil recebeu nesta sexta-feira, 6, o status de país livre de febre aftosa sem a necessidade de vacinação, um reconhecimento concedido pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), em cerimônia realizada em Paris, na França. A decisão da entidade havia sido tomada no último dia 29 de maio. A certificação foi entregue ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado do ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, e de diversas autoridades e representantes de associações do setor agropecuário. “É um dia de agradecimento ao esforço dos produtores de gado no Brasil. O certificado é o reconhecimento da robustez e confiabilidade do nosso sistema de inspeção agropecuária. Está comprovado que a aftosa não circula e cabe a nós não deixarmos voltar a circular em nosso território”, disse Lula em discurso.

    A aftosa causa febre alta e aftas e diversas partes do corpo dos animais e o vírus que a provoca é altamente contagioso, mas não afeta humanos. Foram seis décadas de combate à doença no rebanho bovino brasileiro, numa demonstração de como uma política pública que atravessa governos de diferentes matizes ideológicos e partidários pode dar frutos no longo prazo. A erradicação da febre aftosa no Brasil é resultado de um esforço coletivo que envolveu campanhas de vacinação em massa, vigilância sanitária rigorosa, controle nas fronteiras e de transporte dos animais e colaboração entre governo federal, estados, municípios, entidades setoriais, produtores rurais e organismos internacionais. Os primeiros registros da doença no país datam de 1895, mas foi a partir das décadas de 1960 e 1970 que as campanhas de vacinação ganharam força. O cenário começou a mudar nos anos 1990, com a instituição do Plano Nacional de Erradicação e Prevenção da Febre Aftosa (PNEFA), aliado à criação de zonas livres da doença.

    O programa obrigou os produtores rurais a vacinar bovinos e bubalinos (búfalos) anualmente ou semestralmente, dependendo do rebanho. Para comprovar a vacinação, os produtores iam às agências de fiscalização estaduais com a nota fiscal da compra do imunizante referente ao número de cabeças de gado que possuíam. Além disso, periodicamente os órgãos de fiscalização sorteavam propriedades para fazer testes com o intuito de confirmar a vacinação e a ausência da doença.

    A partir dos anos 2000, diversos estados brasileiros conseguiram eliminar a aftosa. Os últimos focos da enfermidade foram registrados em 2006, nos estados do Mato Grosso do Sul e Paraná. O protocolo internacional exige que um país interrompa a vacinação e não apresente casos durante, pelo menos, doze meses antes de solicitar o reconhecimento oficial. O Brasil atendeu a esse critério, encerrando a vacinação em abril de 2024, e, desde então, não houve registro de novos casos, pavimentando o caminho para a certificação global. Os primeiros estados a obter o reconhecimento de rebanhos livres da doença sem vacinação foram Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Acre, Rondônia e Mato Grosso, em maio do ano passado. Agora, todo o Brasil comprova o cumprimento da regra.

    “Com esse certificado, o Brasil abre mercados externos muito exigentes, que não compram carne bovina de países que ainda têm febre aftosa ou que a controlam com vacinação”, diz o médico veterinário Emanuel Faleiros, mestre em Ciência Animal e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Entre os novos compradores potenciais da carne brasileira estão Japão, Coreia do Sul e Indonésia, entre outros. Além disso, alguns países para os quais o Brasil já exporta pagam um prêmio sobre a carne originária de zonas livres de aftosa sem vacinação. Ou seja, a carne brasileira passa a ser ainda mais valorizada com o reconhecimento do status elevado de controle sanitário, como ocorre com os nossos concorrentes australianos e americanos. O Brasil já é o maior exportador de carne bovina do mundo, enviando seu produto para 160 países.

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    Outra vantagem do novo status é que os produtores brasileiros deixam de arcar com os custos da vacinação obrigatória, o que representa uma economia estimada entre 500 milhões e 800 milhões de reais ao ano, incluindo gastos com aquisição, distribuição e fiscalização dos imunizantes.

    Na cerimônia em Paris, o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, destacou que a certificação terá impactos positivos diretos nas regiões produtoras, promovendo geração de renda e fortalecendo economias locais. O ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, ressaltou que o desafio, agora, é manter o rigor do sistema sanitário, pois a conquista só se sustenta com vigilância permanente e parcerias contínuas entre setor público e privado.

    Se, de um lado, a suspensão da vacinação confirma a erradicação da doença em território brasileiro, de outro ela não ocorre sem riscos. O Brasil passa a depender exclusivamente da eficiência do sistema de vigilância e do rápido controle em caso de eventual reaparecimento do vírus. O desafio é ainda maior nas regiões fronteiriças, onde o trânsito de animais com países vizinhos é intenso e exige controle constante. Torna-se essencial manter investimentos em vigilância ativa, treinamento de pessoal e capacidade de resposta emergencial para que a conquista comercial não venha acompanhada de retrocessos sanitários ou prejuízos à cadeia produtiva. “A manutenção do sistema de defesa agropecuária é fundamental”, diz Faleiros. “Não podemos de maneira alguma baixar a guarda.”

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