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Como a volatilidade dos preços de combustíveis pode afetar a retomada

Petrobras reajusta gasolina pela quarta vez em maio; recuperação internacional do petróleo deve manter crescimento, apesar de ainda não refletir nas bombas

Por Diego Gimenes - Atualizado em 26 May 2020, 11h55 - Publicado em 26 May 2020, 11h45

O mercado internacional de petróleo vive altos e baixos em meio à pandemia de coronavírus. Ainda no mês de abril, o contrato futuro de maio da commodity do tipo West Texas Intermediate (WTI) chegou a ser negociado por -37,63 dólares o barril — pela primeira vez na história foi negociada a uma cotação negativa. Como efeito, os combustíveis caíram no Brasil. A Petrobras reduziu agressivamente os preços e precisou fazer um ajuste contábil que gerou o maior prejuízo já visto em uma empresa brasileira, de 48,5 bilhões de reais, no primeiro trimestre deste ano. Os valores mais baixos chegaram às bombas de combustível e geraram deflação entre abril e maio. Contudo, pouco mais de um mês depois, o petróleo internacional começa a apresentar uma recuperação, dos preço — e, num intervalo de duas semanas, a estatal elevou em mais de 35% os valores negociados nas refinarias. Devido ao estoque alto dos postos de combustíveis, os novos preços tendem a chegar às bombas entre o fim deste mês e o início do próximo. Essa volatilidade prejudica toda a economia brasileira. Governos estaduais que dependem das cotações para sabem o quanto vão arrecadar de royalties e de ICMS. Porém, o cenário é pior quando se pensa na cadeia logística nacional. Este é um barril de pólvora que é preciso ser cuidado para que não exploda, justamente no pior momento da crise causada pela pandemia do novo coronavírus.

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Aumentos de preços nos combustíveis encarecem os custos logísticos e, por consequência, geram aumentos nos preços dos produtos, desde os mais básicos. Porém, mais nefasta que tais variações nos preços dos combustíveis é a volatilidade. “Entende-se que variações de preços nos combustíveis podem fugir ao controle até mesmo das autoridades, mas todos devemos nos preocupar em encontrar uma fórmula que garanta uma mínima previsibilidade, sem as oscilações semanais”, avaliou a JSL, empresa de logística e transportes. A política de constantes reajustes de preços praticada pela Petrobras não é unanimidade e incomoda principalmente as grandes empresas de transporte, que com as constantes alterações, não conseguem prever seus custos a médio e longo prazo. “Uma mudança pode ser interessante para o consumidor de diesel, mas não para a população brasileira em geral, isso porque para cada um que for fazer a equação o resultado será diferente. O preço anda com o mercado internacional, tem que deixar uma regra clara de como se regula esse preço. Todas as companhias aéreas brasileiras e internacionais trabalham oscilando com o mercado internacional, por exemplo”, analisa Thadeu Silva, chefe da área de óleo e gás da consultoria INTL FCStone.

A política de preços adotada pela Petrobras desde 2017 repassa ao preço dos combustíveis nas refinarias a variação entre a cotação internacional do petróleo e do dólar. Em tese, se o valor sobe no exterior, os combustíveis tendem a subir no mercado doméstico. “No ponto de vista do mercado, o preço no Brasil tem se alinhado com o preço internacional. Existem dois níveis de paridade de valores, um é o do consumidor final, que está alinhado com mercado internacional. O outro nível é o do revendedor, do distribuidor, esse preço fica em atraso para o mercado internacional e a janela para importar fica negativa porque esse revendedor está preocupado com aqueles centavos. Então, em geral, o preço segue a linha internacional, mas em curto prazo tem retardos que podem deixar a margem de revenda negativa”, pondera Thadeu.

Apesar da expressiva valorização da moeda americana em relação à brasileira em 2020, o que se viu na prática foi uma drástica redução dos preços dos combustíveis no Brasil, em especial da gasolina, que reduziu cerca de 35%. O diesel teve queda na casa dos 40%. Os cortes evidenciam que a crise que atingiu o preço do petróleo internacional suprimiu a alta do dólar no país, mas com os recentes reajustes, a tendência é que esse cenário se inverta. “O que compõe o preço do combustível é o câmbio e os preços no mercado internacional. Encontra-se um dilema porque os importadores reclamam que a variação internacional não é seguida à risca, e por outro lado o consumidor reclama que o combustível segue demais o mercado internacional. Cada lado da moeda tem suas razões. A alta do dólar ainda não apareceu nessa conta porque até então a queda do petróleo era superior à valorização da moeda americana”, comenta Thadeu.

Vale ressaltar que o repasse dos reajustes anunciados pela Petrobras nos preços das refinarias aos consumidores finais não é imediato e depende de algumas questões, como a revenda, os estoques e a margem de distribuição, além dos impostos. Prova disso é que a primeira quinzena de maio registrou um novo recuo no preço médio da gasolina nos postos, como revela o levantamento do Índice de Preços Ticket Log (IPTL), que conta com 18 mil postos credenciados. O litro é vendido em média a 3,985, o menor valor registrado desde agosto de 2017, quando era vendido a 3,896. O cenário também foi de baixa para o preço do diesel, que fechou com a média de 3,244, recuo de 7,34%, em relação ao fechamento de abril, quando o litro foi vendido a 3,501. O combustível, que lidera o consumo em todo o território nacional, apresentou o seu menor valor médio desde 2017, quando registrou o valor de 3,247, em janeiro daquele ano.

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