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As armadilhas no horizonte

A agenda de 2020 exige competência, juízo, diálogo e tolerância

Por Murillo de Aragão Atualizado em 3 jan 2020, 10h27 - Publicado em 3 jan 2020, 06h00

O novo ano apresenta boas perspectivas para o Brasil. O futuro, porém, é imprevisível, e as tendências positivas correm o risco de desatinar e seguir o caminho radicalmente oposto. O que pode dar errado? Comecemos pela geopolítica, com poderio para interferir no cenário interno. O ano de 2020 se inicia com expectativas de crescimento contraditórias ao redor do mundo, e o desaquecimento global tem potencial relevante para impactar nossas exportações.

Na América do Sul, as relações tensas com a Argentina ameaçam atrapalhar o comércio de produtos brasileiros, enquanto o latente agravamento da situação da Venezuela provoca o temor de que sejamos arrastados para um quadro de conflito regional. Lá fora, a disputa comercial entre os gigantes Estados Unidos e China tem tudo para nos atingir diretamente — seja para o bem, seja para o mal.

As pressões ambientalistas internacionais são um dos principais fatores para afastar investimentos e criar obstáculos às exportações. O mapa dos problemas externos é complexo e demanda cuidados na avaliação do mercado e do governo. Um cenário internacional confuso deve aumentar a aversão ao risco, tirando o Brasil do radar de investimentos.

“As pressões ambientalistas internacionais são um dos principais fatores para afastar investimentos”

No âmbito interno, é obrigatório observar a economia, vetor de contentamento (ou o oposto) para a população. As expectativas são positivas — crescimento do PIB acima de 2% —, mas ainda estão distantes daquilo de que necessitamos. Caso as políticas econômicas não funcionem, especialmente em relação à oferta de crédito, à desburocratização e ao programa de concessões e privatizações, haverá o risco de que os bons ventos se tornem frustrações.

A desestabilização da pauta social reside em possíveis mobilizações promovidas pela oposição radical. E, ainda, por greves — organizadas por caminhoneiros, petroleiros e, eventualmente, servidores públicos. Todas essas ameaças, acompanhadas de perto pelo governo, a princípio, tendem a ser localizadas, sem efeitos sistêmicos.

Aliada à discreta melhora na economia, a segurança pública enseja a continuidade de seus resultados animadores, reforçando o prestígio de seus responsáveis dentro do governo. Os desafios, portanto, serão crescentes à medida que o crime organizado se sentir encurralado. No campo judiciário, a Operação Lava-­Jato e outras investigações de combate à corrupção e a malfeitos continuarão a interferir nos cenários político e financeiro do país.

A retomada dos investimentos, ao lado de um cenário de inflação e juros baixos, nos permite almejar bons retornos durante 2020. A concretização das expectativas, contudo, demanda visão estratégica e competência por parte dos principais atores políticos. Em um ano de imensos desafios, as exigências vão aumentar. Principalmente aquelas que envolvem juízo, diálogo e tolerância.

Publicado em VEJA de 8 de janeiro de 2020, edição nº 2668

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