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Apenas juros acima de 12% controlariam a inflação, defende consultoria

Cálculos são da consultoria BRCG; sem responsabilidade fiscal, a solução está na subida de juros, o que pode impactar o crescimento

Por Carlos Valim, Felipe Mendes, Luana Meneghetti, Luisa Purchio, Victor Irajá 13 out 2021, 09h55

As previsões do mercado financeiro para a inflação de 2021 sobem consecutivamente pelas últimas 27 semanas, segundo o Boletim Focus, do Banco Central. Essa dinâmica indica uma dificuldade do controle das expectativas do mercado, problema que se estende também para 2022. As metas de inflação do BC para este ano e para o próximo são de 3,75% e 3,50%, respectivamente, com uma margem de tolerância de um 1,5 percentual para cima ou para baixo. Ou seja, a autoridade monetária pode perseguir um IPCA em até 5,25% e 5%, em 2021 e 2022. Segundo o último Focus, o mercado espera atualmente inflação a 8,59% e 4,17%, superando o teto da meta deste ano e cada vez mais se aproximando do de 2022.

O estouro da meta deste ano é uma má notícia, mas o mercado não tem colocado a falha na conta do BC, já que os choques inflacionários eram difíceis de prever.  No entanto, boa parte dos analistas  já começa a acreditar que, dado o ritmo de aumento de 1 ponto percentual por reunião do Comitê Política Econômica, o Copom, o órgão já estaria desistindo de atingir também a meta para 2022, o que obviamente os seus membros negam, afinal, se fizessem isso estariam jogando contra o controle das expectativas. Cada mudança na Selic tem impacto três trimestres para frente, e atualmente a taxa de juros está em 6,25%. Segundo as contas da consultoria BRCG, uma taxa de controle estaria no momento acima dos 12%, o que certamente causaria recessão em 2022, uma decisão extremamente dura para um país empobrecido pela pandemia, e que poderia ter impactos tremendos num ano eleitoral, apesar do Banco Central já ter conquistado a sua autonomia formal.

 “O choque primário inflacionário que aconteceu em todo o mundo não é um problema, desde que não ocorra a contaminação das expectativas”, diz o economista Livio Ribeiro, sócio da consultoria BRCG e pesquisador do FGV-Ibre. “O problema é que no Brasil está ocorrendo está contaminação. Sem entrar no mérito do motivo para isso, se foi a inércia inflacionária ou porque, nós, brasileiros sejamos loucos e temos medo da inflação e corremos para nos proteger, o fato é que o BC não pode fazer nada a não ser subir juros.”

A outra saída para evitar juros em níveis tão contracionistas para a economia, seria a diminuição dos riscos fiscais e políticos, como aborda VEJA desta semana. Sem eles, mais investidores estrangeiros — e mesmo exportadores brasileiros que têm preferido deixar o resultado de suas vendas em dólares no exterior — possam se sentir mais tranquilos para trazer dinheiro para o Brasil. Com isso, o real se desvalorizaria menos, ou até se valorizaria,  frente ao dólar, tornando os preços atrelados à moeda americana menos proibitivos, como acontece com os custos de alimentos e de combustíveis.

O problema é que o governo não tem deixado claro que vai seguir esta receita, à medida que busca formas de pagar um aumento do Bolsa Família, às vésperas da eleição presidencial, e que terá dificuldades de honrar as dívidas com precatórios que vencem em 2022. “A política fiscal não tem de ser contracionista para controlar a inflação, não é isso que a gente acha que deve ser feito neste momento. Não é uma questão de diminuir mais os gastos, mas de trazer uma credibilidade de que os gastos vão continuar contidos e de que a dívida em relação ao PIB vai continuar em uma trajetória declinante”, defende Solange Srour, economista-chefe do banco Credit Suisse. “Essa âncora fiscal, essa credibilidade é muito importante, porque quando as pessoas acreditam que o país é fiscalmente solvente, as expectativas de inflação ficam ancoradas. E também a credibilidade fiscal diminui o prêmio de risco, deixa o câmbio mais apreciado, e o câmbio é um fator importante para o controle da inflação.”

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Um dos aspectos mais preocupantes da inflação brasileira atual é precisamente que o dólar não caiu à medida que os preços internacionais da commodities subiam. Historicamente, sempre que o valor de alimentos e minérios sobem, entra mais dinheiro no Brasil, um grande exportador desses produtos, e o real se valoriza. Mas, desta vez, por conta da instabilidade local, aconteceu um choque duplo: as commodities subiram e o dólar também. Com isso, os alimentos e combustíveis ficaram ainda mais caros. “Isso aconteceu por dois motivos. Em primeiro lugar, os juros no Brasil ficaram muito baixos. A Selic ficou em torno de 2% por um período considerável e isso obviamente tem um reflexo negativo na moeda”, avalia Srour. “O outro motivo é exatamente que o Brasil saiu da pandemia com uma incerteza fiscal muito alta, sobre qual vai ser a política fiscal pós-pandemia. A gente começou a discutir acabar com o teto de gastos ou fazer alguns tipos de furos no teto de gastos, aumentar o gasto obrigatório.”

Ou seja, quanto ao preço internacional das commodities, incluindo o petróleo, não há nada o que fazer. Inclusive, um dos mais importantes economistas brasileiros, que pediu para não ser creditado nessa análise, avalia que é preciso avaliar se os bancos centrais de todo o mundo erraram ao deixarem suas taxas de juros no terreno negativo, isto é, abaixo da inflação, o que causou um excesso de dinheiro no planeta em busca de rentabilidades maiores. “É muito estranho que o preço de todas as commodities subiram ao mesmo tempo”, comenta.

Mas, se nesse campo, o governo não tem como atuar, ele pode diminuir os riscos fiscais e institucionais, ao mesmo tempo que o Banco Central suba gradualmente os juros. Afinal, nem todos acreditam que as metas já estejam perdidas. “Temos chance de voltar para meta do BC, de 3,5%, no ano que vem. Geralmente, essas projeções se mantêm altas devido às inflações correntes, porque gera efeito de inércia. Já tem uma expectativa de desinflação, mas por enquanto ainda está acima do centro da meta”, analisa o economista Marcelo Kfoury, professor e coordenador do Centro Macro-Brasil da FGV-EESP e que participou do início do Plano Real, que domou a hiperinflação nos anos 1990. “A inflação no próximo ano vai depender da crise hídrica, do regime de chuvas. Provavelmente, a gente sai dessa bandeira vermelha no próximo ano. Combustíveis e alimentos é mais difícil prever, mas não deve ter subida tão alta. A inflação vai ser metade do que será esse ano. Se isso acontecer, já será grande vitória econômica do BC.” A esperança é de que o Brasil possa fazer isso sem precisar enfrentar uma nova recessão.

O cenário negativo dos choques já tem dado amostras em alguns setores da economia. A indústria, por exemplo, registra três quedas seguidas, e o nível da produção, segundo o IBGE, voltou a ser menor que em fevereiro de 2020, o período pré-pandemia. “Os juros altos afetam o custo de captação para as montadoras, capital de giro para os fornecedores, para a rede de concessionárias, isso afeta toda a cadeia”, afirma Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores). “Outra questão está na ponta cliente final. No Brasil, aproximadamente, metade do volume que a indústria vende através das concessionárias é feito por meio de financiamento, que também encarece.”

Dessa forma, as grandes empresas sofrem para absorverem tantos choques, que ainda incluem o aumento dos preços dos fretes e o desabastecimento de insumos de produção, em falta em todo o mundo. A saída foi mudar as estratégias. “Estamos produzindo muitas peças localmente, o que faz parte do plano para se proteger da exposição cambial, mas também para contribuir com o desempenho da cadeia produtiva aqui”, diz Rafael Chang, CEO da Toyota no Brasil.

O horizonte não promete tempos tranquilos. “A inflação de custos faz com que você tenha de repassar o preço, mas, por outro lado, havia uma demanda reprimida na pandemia, o que absorveu uma parte desse aumento de preço”, diz o CEO da fabricante Multilaser, Alexandre Ostrowiecki. “Agora, com a normalização das entregas, você vai ter mais abastecimento, mas também um problema contrário, que será o esfriamento da demanda.”

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