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A trama se adensa

Ghosn, ex-presidente da Nissan, aparece no tribunal em Tóquio, alega inocência e sua família fala em complô da montadora para evitar a fusão com a Renault

Por Flávio Ismerim 11 jan 2019, 07h00

Ao entrar no Tribunal Distrital de Tóquio conduzido por dois guardas, o executivo brasileiro Carlos Ghosn trazia os pulsos algemados e a cintura envolta por uma corda. Foi a primeira vez que o ex-presidente da aliança automotiva Renault-Nissan-Mitsubishi deixou a cadeia desde o dia 19 de novembro, quando foi preso por sonegação fiscal — e sua figura causou espanto. Ghosn apresentava mechas grisalhas nos cabelos outrora negros e sulcos no rosto — está cerca de 10 quilos mais magro, segundo seu filho Anthony. De terno escuro, sem gravata, e sandálias de plástico verde, o acusado teve direito a falar por dez minutos e usou cada segundo não só para se defender de todas as alegações contra si, mas também para proteger seu legado como responsável por salvar três montadoras da bancarrota. “Sou inocente. Sempre agi com integridade e jamais fui acusado de nenhuma transgressão em minhas muitas décadas de carreira”, afirmou. A corte não se comoveu e manteve a prisão do executivo sob a alegação de que há elevado risco de fuga e ocultação de provas.

O caso tem atraído a atenção do mundo todo porque as regras do sistema judiciário japonês envolvem a situação em mistério: a audiência da última terça-feira 8 tinha por objetivo explicar ao réu, pela primeira vez e de forma oficial, a razão de sua prisão, cinquenta dias depois da detenção. A lei permite até três interrogatórios por dia, todos sem a presença de um advogado. O próprio time legal de Ghosn afirmou em entrevista coletiva que sua única chance de conseguir deixar a cadeia, sob fiança, seria admitir a culpa.

O caso também está quente no tribunal da opinião pública. Em entrevista ao jornal The New York Times, as duas filhas do executivo questionaram se todo o processo de investigação não seria uma manobra da Nissan com a intenção de evitar uma fusão com a Renault. Enquanto a montadora japonesa afastou imediatamente o brasileiro de suas funções como presidente do conselho e presidente da aliança, a Renault mantém Ghosn como CEO, e diplomatas franceses têm visitado o executivo na cadeia. Greg Kelly, braço-direito de Ghosn, que também foi preso mas ganhou liberdade no fim de dezembro sob fiança, faz coro e denuncia uma traição de alguns líderes da Nissan. O executivo brasileiro vinha se esforçando nos últimos anos para fortalecer a Aliança Renault­-Nissan-Mitsubishi, e fundi­-las numa só empresa.

A disputa dentro da montadora tem reflexos também no Brasil. Uma das acusações contra Ghosn é que ele teria comprado quatro imóveis de luxo para uso próprio com dinheiro da companhia, sendo um deles um apartamento na orla de Copacabana, no Rio de Janeiro, avaliado em 10 milhões de reais. Após a prisão do executivo, a Nissan pegou as chaves do imóvel, fez um inventário de tudo o que havia na propriedade e trocou a fechadura das portas. Caroline, filha de Carlos Ghosn, conseguiu entrar no apartamento acompanhada de oficiais de Justiça e de advogados da Nissan para retirar documentos e dinheiro, mas a disputa pelo direito ao uso do imóvel continua na Justiça brasileira.

Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2019, edição nº 2617

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