ASSINE VEJA NEGÓCIOS

A sociedade da performance e a saúde mental no trabalho

Psicanalista avalia a saída para a sobrecarga

Por Veruska Costa Donato 27 mar 2026, 16h10 • Atualizado em 27 mar 2026, 17h28
  • A saúde mental no ambiente de trabalho brasileiro deixou de ser um tema periférico para se tornar um sinal de alerta. Os números falam por si: dados do INSS de 2025 mostram a concessão de 546.250 licenças por saúde mental, sendo mais de 166 mil por transtornos de ansiedade e 126 mil por episódios depressivos. O volume não apenas impressiona, como coloca o Brasil acima da média global de estresse ocupacional, evidenciando que algo estrutural está pressionando os trabalhadores.

    Chefes e trabalhadores doentes

    Para o psicanalista e mentor de executivos Rogério Bragherolli, o problema atinge toda a hierarquia corporativa, mas com nuances diferentes. Na base da pirâmide, o medo é um dos principais motores do sofrimento. “A base da pirâmide sofre com muito medo de perder o emprego e de não se recolocar na mesma situação e também sofre por causa da pressão que as organizações hoje fazem, por maior eficiência, por maior resultado”, afirma. A cobrança por produtividade, combinada com a insegurança econômica, cria um ambiente de tensão permanente.

    Performance

    Na alta direção, a pressão muda de forma, mas não diminui. Executivos convivem com a chamada sociedade da performance, onde o erro parece não ter espaço. Bragherolli observa que muitos profissionais acabam esgotados ao tentar manter um padrão constante de excelência. “Essa necessidade da performance contínua é uma das coisas que vai colapsando a saúde física e mental, porque (…) a todo momento, você tem que estar performando. Você não pode errar, você não pode dizer que não sabe”, explica. O resultado são casos crescentes de burnout e afastamentos.

    Comparação

    Outro elemento que agrava o cenário é a comparação constante alimentada pelas redes sociais. O profissional passa a medir sua trajetória com base em versões idealizadas de sucesso. “Quando você entra nesse esquema de comparação, você acaba sempre ficando para baixo e isso deprime. E isso desanima o executivo e qualquer trabalhador sério”, diz o psicanalista. A sensação de nunca ser suficiente amplia a frustração e contribui para o desgaste emocional.

    Equilíbrio?

    Rogério também questiona a ideia tradicional de equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Para ele, o que existe hoje é uma integração, muitas vezes invasiva. “Eu não gosto dessa palavra equilíbrio. Hoje a gente vive de uma maneira que existe uma integração entre vida pessoal e vida profissional. E essa integração tem que ser harmoniosa”, afirma. A tecnologia reforça essa mistura: “Você está com o seu celular ligado a todo o tempo. Você atende telefonemas fora do horário, você começa a trabalhar de manhã, você às vezes passa o fim de semana”.

    Continua após a publicidade

    Encontrar a saída

    Diante desse cenário, o especialista defende que o objetivo não deve ser apenas suportar o trabalho, mas encontrar propósito. “A questão principal não é sobreviver à vida corporativa (…) mas sim você achar uma saída para que você possa prosperar sem perder a humanidade”, afirma. Ele acrescenta: “Vamos nos preocupar em ter um propósito, em tentar ser mais humano, tentar ser mais flexível (…) pedir ajuda, porque isso vai facilitar nossa vida e vai fazer a gente viver de uma maneira melhor”. Em um ambiente cada vez mais exigente, a saúde mental deixa de ser luxo e passa a ser condição para seguir produzindo — e vivendo bem.

     

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Domine o fato. Confie na fonte.

    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.

    OFERTA LIBERE O CONTEÚDO

    Digital Completo

    O mercado não espera — e você também não pode!
    Com a Veja Negócios Digital , você tem acesso imediato às tendências, análises, estratégias e bastidores que movem a economia e os grandes negócios.
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    MELHOR OFERTA

    Revista em Casa + Digital Completo

    Veja Negócios impressa todo mês na sua casa, além de todos os benefícios do plano Digital Completo
    De: R$ 26,90/mês
    A partir de R$ 9,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).