A lição de casa que o Brasil precisa fazer para colher benefícios do acordo Mercosul-UE
O esforço de adaptação não deverá vir apenas das empresas, mas também do poder público, que tem a responsabilidade de fazer reformas
O acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul — que, após chancela decisiva em Bruxelas, na Bélgica, no último dia 9, entrou na reta final de validações para ser implementado — representa uma oportunidade para modernizar o ambiente de negócios e elevar o patamar de qualidade das empresas do Brasil e de seus parceiros sul-americanos. Os benefícios vão além dos bilhões de dólares a mais em bens e serviços que vão cruzar o Atlântico. Como a redução das tarifas de importação entre os dois blocos será gradual, mesmo os setores mais vulneráveis à entrada de concorrentes terão tempo para se preparar para a nova realidade. O esforço de adaptação não deverá vir apenas das empresas, mas também do poder público, que tem a responsabilidade de fazer reformas para aproveitar ao máximo as benesses da abertura de mercado.
Depois da assinatura do acordo em Assunção, no Paraguai, prevista para sábado 17, com a participação de Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e de ministros dos países do Mercosul, ainda será necessário aguardar a ratificação pelo Parlamento Europeu, o que pode levar alguns meses, antes do início da redução provisória das barreiras comerciais. Fala-se “provisória” porque a etapa seguinte, de aprovação do tratado pelos Parlamentos de cada um dos 31 países envolvidos, pode demorar até três anos ou mais. Até lá, a implantação paulatina dos principais dispositivos do tratado vai transformar a integração entre os mercados em fato consumado. Do ponto de vista das empresas, dificilmente haverá um desejo de voltar atrás. “Alguns céticos acham que tudo ainda pode ir por água abaixo, mas eu acredito que o Parlamento vai levar o texto adiante”, diz Alexander Kulitz, ex-membro do Comitê de Assuntos Estrangeiros do Bundestag, o Legislativo alemão.
Segundo estimativa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), os efeitos econômicos da liberação das trocas serão sentidos ano após ano, conforme as tarifas vão sendo reduzidas e outras medidas, como a implantação de regras comuns para os negócios, entrarem em vigor. O Brasil tem potencial para colher um crescimento adicional de 0,08% no Produto Interno Bruto (PIB) do ano que vem, de 0,11% em 2028 e assim sucessivamente até chegar a um acréscimo de 0,46% em 2040. Alguns setores produtivos tendem a crescer mais, enquanto outros estão mais vulneráveis à abertura do mercado às importações vindas da Europa (veja o quadro na pág. 50). É o caso dos fabricantes de produtos como equipamentos elétricos ou remédios, que têm concorrentes fortes no Velho Continente. Para o agro brasileiro, as vantagens comparativas são mais evidentes e, mesmo com a UE definindo cotas para limitar o volume de determinados itens que podem ser exportados para lá e prometendo salvaguardas para evitar preços muito mais baixos que os dos competidores locais, a previsão é de crescimento da participação no mercado europeu.
Quem sai bem na largada são companhias que já têm presença em ambas as regiões e, com isso, podem ampliar seus negócios. Mas também haverá oportunidade para estreantes. “No entanto, quem quiser entrar na Europa vai precisar atender a um padrão de qualidade bastante rigoroso”, diz o consultor Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil. A UE costuma exigir uma série de certificados e comprovações sanitárias e ambientais, implicando custos extras, enquanto outros parceiros comerciais do Brasil, como os da Ásia, não têm as mesmas exigências. As minúcias regulatórias serviram para países como a França alegar que a abertura a produtos agrícolas do Mercosul seria danosa ao meio ambiente e desleal para os agricultores locais, que nas últimas semanas se dedicaram a protestar nas ruas contra o acordo. A verdade, porém, é que o Brasil já vende carnes, sucos de fruta e diversos outros produtos do campo para os europeus e precisa se empenhar para atender aos critérios locais de qualidade e sustentabilidade.
Um dos equívocos comuns a respeito do acordo com a UE é afirmar que só as commodities agrícolas vão se beneficiar, enquanto a indústria vai sofrer. Na realidade, o barateamento das exportações cria uma oportunidade para que produtores brasileiros apostem na agregação de valor, que envolve processos industriais. “O processamento de café no Brasil, por exemplo, pode ficar mais interessante com a chance de vender para os europeus”, diz Leandro Gilio, do centro de estudos Insper Agro Global. Além disso, já existem setores industriais brasileiros bem posicionados para ganhar com a abertura do mercado europeu, como o de calçados.
Com a possibilidade de exportar mais, a tendência é que as empresas vejam mais sentido em investir em novos equipamentos, instalações mais modernas, inovação e treinamento dos funcionários a fim de aumentar e melhorar a produção. Ou seja, um efeito positivo do acordo com a UE, mas difícil de medir, será o aumento da produtividade das empresas — entre outros motivos, porque a integração entre os dois blocos prevê a adoção de regras que dão mais estabilidade e previsibilidade aos fluxos comerciais. Espera-se que isso estimule também o governo federal a promover reformas que melhorem o ambiente de negócios e reduzam os custos de produzir no Brasil. Isso é essencial tanto para dar condições aos empresários daqui de competir com os europeus quanto para facilitar a entrada de investimentos vindos dos países da UE. Pela estimativa do Ipea, os investimentos no Brasil podem ter um incremento de 1,49% em 2040 na esteira do acordo entre os dois blocos. “Já se observa um aumento do interesse nos dois lados do oceano, pois investimentos que antes não se sustentavam passam a fazer sentido”, diz Marcelo Vitali, diretor da How2Go, consultoria espanhola especializada na internacionalização de empresas.
A iniciante reforma tributária é um exemplo do que precisa ser feito para dar competitividade aos brasileiros em um contexto de livre comércio para além da América do Sul. “Sem a reforma, abriríamos nosso mercado para a Europa, mas não teríamos condição de ocupar espaço lá”, diz José Augusto de Castro, presidente-executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil. Se a cumulatividade tributária realmente acabar e as exportações forem desoneradas, como promete o novo sistema, o país estará mais preparado para o comércio internacional. Mas uma série de outros gargalos persiste, como a taxa de juros elevada, a volatilidade da economia e a insegurança jurídica. A perspectiva cada vez mais realista de que o acordo entre UE-Mercosul comece a ser implementado já neste ano é uma ótima notícia, mas ainda há muita lição de casa a ser feita.
Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978







