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A Ford pisa no freio

A montadora anuncia o fechamento da fábrica no ABC paulista, palco de greves históricas nas décadas de 70 e 80. A medida é sinal de guinada da empresa

Por Flávio Ismerim 22 fev 2019, 07h00

Imagens do pátio da fábrica da Ford em São Bernardo do Campo, no Estado de São Paulo, estão gravadas na história brasileira — mesmo que a maioria das pessoas de fora do ABC paulista não se dê conta disso. Ali aconteceram algumas das mais importantes greves de metalúrgicos das décadas de 70 e 80, que trouxeram pela primeira vez o sindicalismo para o centro da política e apresentaram o ex-­presidente Lula ao Brasil. Por isso é tão emblemático o anúncio, feito na terça-feira 19, do fechamento da planta no bairro do Taboão, 52 anos depois de sua inauguração. O encerramento das atividades faz parte de um plano global de reestruturação financeira da empresa americana, que vem ficando para trás em relação a seus concorrentes europeus e asiáticos. Só na América do Sul, a Ford registrou um prejuízo de 678 milhões de dólares em 2018, e enxugar a operação é a única saída para tentar sair do vermelho. A companhia também vai encerrar a produção do modelo Fiesta e de todos os caminhões da marca, justamente o que saía da unidade do ABC. Mais de 4 300 empregos diretos e indiretos serão extintos, mas calcula-­se que o efeito na cadeia de fornecedores vá elevar o número total de vagas cortadas a 24 000.

Apesar de os próprios funcionários se mostrarem resignados, a ponto de uma greve convocada para quarta 20 ter tido pouquíssima aderência, o secretário da Fazenda de São Paulo e ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles mantém esperanças de reverter a decisão da Ford. Ele e sua equipe têm programadas reuniões com representantes da montadora para propor saídas alternativas para a crise. “Vamos conversar sobre essa reorganização mundial da empresa e ver o que nós poderemos fazer para manter uma fábrica funcionando”, diz Meirelles. A ideia de repetir o sucesso de uma negociação recente com a General Motors — em que o secretário alinhavou um acordo com setenta fornecedores da marca para a redução de margens e prometeu conceder, a partir de 2023, incentivos fiscais para que as fábricas da montadora que ficam em território paulista continuem a operar — foi descartada pela Ford em reunião, na quinta 21, com o governador João Doria, que pretende agora encontrar um comprador para a planta.

HISTÓRICO – Greve no pátio da Ford em São Bernardo do Campo, em 1984: berço do sindicalismo liderado por Lula Clovis Cranchi/Estadão Conteúdo

De fato, o anúncio do fechamento de uma fábrica desse porte é impactante, principalmente para os funcionários e seus familiares, mas não chega a surpreender quem acompanha de perto os movimentos da indústria. Os lucros da Ford caíram 52% no ano passado, e a empresa já tinha anunciado uma parceria global com a alemã Volkswagen para dividir custos na produção de picapes e SUVs. Se a empresa quer economizar em seus modelos mais lucrativos, era fácil prever que o Fiesta, apenas o 49º carro mais vendido no Brasil, e os caminhões, mercado em que a Ford ocupa um distante quarto lugar em vendas, sofreriam em breve. A planta de São Bernardo não recebia investimentos desde 2015. Enquanto isso, outras unidades da montadora, mais robustas, seguem a todo o vapor. A fábrica de Camaçari, na Bahia, tem trabalhado em três turnos e horas extras nos fins de semana para produzir o Ka, o terceiro modelo mais vendido do país. O parque de Taubaté é referência mundial na produção de motores para exportação. Já a unidade de São Bernardo do Campo vem operando em turno único, em que os empregados montam carros em três dias da semana e se dedicam a caminhões nos outros dois.

Estudada durante meses, a decisão da Ford passou ainda pela percepção de que a indústria automobilística está à beira de uma transformação. A parceria com a Volks permite corte de custos na produção de utilitários, mas sua maior razão de ser é o desenvolvimento conjunto de carros elétricos e, num passo adiante, de veículos autônomos. Hoje, empresas de tecnologia como Uber, Alphabet (dona do Google) e Tesla estão à frente nessa corrida, e as companhias tradicionais sabem que não têm tempo a perder. Nesse contexto, não faz sentido tentar salvar uma planta deficitária que muito em breve estará obsoleta. A Ford pisou no freio, mas é um freio de arrumação.

Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2019, edição nº 2623

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