A conta escondida na compra da telefonia fixa da Oi
Método pagou 60,1 milhões de reais pela operação, mas terá de garantir obrigações que podem superar o dobro desse valor
Os 60,1 milhões de reais oferecidos pela Método Telecom para comprar a operação de telefonia fixa da Oi contam apenas parte da história do negócio. Ao autorizar a transferência do controle da Oi Serviços Telefônicos, a Anatel colocou sobre a mesa uma conta potencialmente muito maior: a compradora terá de apresentar garantias suficientes para assegurar a manutenção dos serviços que ainda precisam ser prestados até o fim de 2028.
O valor definitivo ainda será calculado pela agência. Uma estimativa recente da área técnica apontava uma necessidade de cerca de 137 milhões de reais — mais que o dobro do preço pago pela Método pela empresa. Cálculos anteriores da própria Anatel chegaram a trabalhar com uma necessidade entre 130 milhões e 160 milhões de reais. A decisão final, porém, determinou que o tamanho da garantia seja recalculado de acordo com as obrigações que efetivamente restarem na data de fechamento da operação.
Isso não significa que a Método terá de desembolsar todo esse dinheiro. A empresa informou que pretende apresentar um seguro-garantia, instrumento que ainda precisará ser aprovado pela Anatel. O ponto é outro: junto com os ativos de telefonia fixa, a compradora assumirá compromissos que podem ter valor econômico muito superior ao preço da aquisição.
E a herança não está em boas condições. Em fiscalização divulgada nesta semana, a Anatel constatou indisponibilidade do serviço em mais de 72% das localidades atendidas por acessos individuais nas quais a Oi ainda tem obrigação de manter telefonia e em mais de 50% das atendidas por acessos coletivos. A agência determinou a regularização do serviço em 121 localidades, o conserto de 3.006 orelhões e a instalação de aparelhos em outras 52 localidades hoje sem atendimento de voz.
Em julho, ainda havia 6.370 localidades vinculadas às obrigações de manutenção. São regiões nas quais a Oi funciona como uma espécie de operadora de último recurso, porque não existe alternativa de serviço de voz disponível. Também fazem parte do pacote obrigações relacionadas aos números de emergência e utilidade pública, como 190, 192 e 193, além da interconexão de chamadas.
A Anatel aprovou a mudança de controle na quinta-feira, 3, mas impôs uma série de condições antes da conclusão do negócio. Além da garantia, a Método terá de assumir formalmente os compromissos regulatórios da Oi, assinar um aditivo ao acordo firmado com o governo e apresentar um plano para a transferência dos recursos de numeração.
Na prática, os 60,1 milhões de reais compram uma empresa que vem acompanhada de uma missão cara: recuperar parte de uma rede já deteriorada e mantê-la funcionando até 2028 em milhares de pontos onde, justamente por não haver concorrentes, desligar o telefone não é uma opção.







