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“A ata do Fed limitou a atuação de Roberto Campos Neto”, diz ex-BC

Tony Volpon, ex-diretor de assuntos internacionais, lembra que a última alta de juros com "quantitative tightening" nos EUA prejudicou muito o Brasil

Por Luisa Purchio Atualizado em 7 jan 2022, 00h40 - Publicado em 6 jan 2022, 17h12

Na quarta-feira, 5, o Federal Reserve Bank divulgou a ata da sua última reunião de política monetária, realizada em dezembro. No documento, o banco central americano confirmou a aceleração da retirada de estímulos monetários, estabelecendo que até março deste ano o programa de compra de títulos pode terminar, e apontou para três altas de juros em 2022 e em 2023. O que mais preocupou os investidores e derrubou as bolsas em todo o mundo, no entanto, foi a indicação de que o Fed vai acelerar o chamado “quantitative tightening” (QT), ou seja, implementar uma política de aperto monetário que consiste em se desfazer dos títulos já em 2022, e não em 2023.

Na prática, isso significa acelerar a retirada dos 9 trilhões de dólares que foram injetados em liquidez no mercado ao longo da crise. O mercado está precificando que isso ocorrerá entre junho e setembro deste ano, a um ritmo de a 50 bilhões a 75 bilhões por mês, muito superior ao que ocorreu em 2018, na primeira e única vez que esta ferramenta de política monetária ocorreu. Na ocasião, porém, o balanço de títulos do Banco Central encolheu não porque eles foram colocados à venda no mercado, mas porque o Fed pagava os juros dos títulos sem os revender, o que levou o volume a encolher gradualmente.

“A economia americana aguenta o que o Fed vai fazer, mas o problema somos nós, o Brasil. Não sei se vamos aguentar muito bem, vai depender de como vamos lidar com esta mudança, é um desafio a mais”, diz Tony Volpon, ex-diretor de assuntos internacionais do Banco Central e estrategista-chefe da gestora de fortunas Wealth High Governance (WHG), criada por ex-executivos do banco europeu Credit Suisse em parceria com a XP Investimentos.

“A combinação da alta de juros com o QT assusta bastante. O fato de que isso só aconteceu uma vez na história gera muita incerteza porque não temos histórico para ver os efeitos. A experiência de 2018 foi muito ruim para os emergentes e para o Brasil. Essa somatória de coisas em ano eleitoral, com todas as incertezas e volatilidades, assusta o mercado brasileiro”, diz ele.

Para Volpon, esses fatores certamente entrarão na análise do presidente do Banco Central do Brasil, Roberto Campos Neto, e sua equipe para decidir os rumos da Selic. “A mudança da política monetária do Fed limita o que o Banco Central pode fazer independentemente da queda da inflação doméstica, que diga-se de passagem eu acredito que vai se acomodar no segundo e no terceiro trimestre deste ano. Se isso ocorrer, o Roberto Campos terá de olhar para as medidas do Powell e ir devagar na queda da Selic para não depreciar muito a moeda brasileira”, diz.

O diferencial entre o juros no Brasil e nos Estados Unidos é importante na hora de os investidores internacionais escolherem para onde vão alocar os seus recursos. Se a rentabilidade nos Estados Unidos estiver interessante, não teria por que colocar recursos em títulos públicos brasileiros, que apresentam maior risco pela própria instabilidade econômica do país.

Ao contrário dos Estados Unidos, cujo forte crescimento econômico atual só seria interrompido por uma notícia ruim, no Brasil imperam as notícias econômicas ruins que, para cessarem, precisariam de uma notícia boa. Para Volpon, além da queda da inflação, ela pode vir principalmente com o resultado das eleições. “Se o mercado começar a gostar da perspectiva da eleição, isso impacta positivamente o grau de juros, impacta a bolsa positivamente também e tudo isso pode ajudar a economia a crescer.”

Economia americana em crescimento

Volpon acredita que a economia americana continuará crescendo mesmo com a mudança nos estímulos do Fed. Para esta análise, ele considerou o efeito das altas dos juros americanos que ocorreram nos últimos anos. “Quando a gente olha para a história, normalmente as bolsas e a economia americana só reagem de maneira negativa no fim do ciclo da alta de juros, quando se aproxima ou ultrapassa a taxa neutra. Isso aconteceu de 2003 a 2007 e de 2015 a 2018, só no final do aumento houve uma grande queda do mercado americano”, diz ele. “Estamos falando de um ciclo de aumento de juros muito gradual. Quando a gente faz cálculo de qual é a taxa neutra e qual é a inflação de longo prazo, a gente ainda está falando em chegar uma taxa zero e não negativa em termos reais em 2023, e neutra em 2024.”

O nível de rentabilidade das empresas está crescendo bastante e o mercado não ficaria tão incomodado com o aumento dos juros. “Quando eu olho para a economia americana nos seus fundamentos, tirando os excessos de especulação do mercado, vejo uma economia muito forte, com altas no mercado de trabalho, nos salários e na composição patrimonial das famílias”, diz ele, que diferencia a atual valorização excessiva das ações de determinadas empresas dos excessos de alavancagem e crise de crédito que geraram crises financeiras no passado.

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