O sucesso da gourmetização da antiga república estudantil
A coluna REAL STATE conferiu de perto uma moradia no padrão coliving, negócio imobiliário que está em alta nos Estados Unidos
Tive a oportunidade de vivenciar a experiência de morar em um imóvel no formato coliving. Esse modelo de negócio mistura a “gourmetização” da tradicional república estudantil com uma estratégia inteligente de otimização do investimento imobiliário.
O coliving consiste, em geral, em imóveis com múltiplos dormitórios ocupados por moradores distintos, que compartilham áreas comuns, como cozinha, living e lavanderia, de forma organizada e igualitária. A proposta combina privacidade individual com convivência coletiva, dentro de uma estrutura profissional de gestão.
No Brasil, algumas empresas já operam nesse sistema. A paulistana Yuca, por exemplo, adquire apartamentos e os reforma para otimizar o número de locações por unidade. Ainda assim, o modelo não se consolidou plenamente por aqui. O formato mais comum de compartilhamento é o de prédios inteiros administrados por uma única empresa como faz a Uliving em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. A empresa oferece estúdios ou unidades compactas, disponibilizando amplas áreas comuns voltadas a estudantes.
Nos Estados Unidos, porém, o coliving vem conquistando cada vez mais adeptos. Uma das razões é cultural: ao concluírem o ensino médio, muitos jovens deixam a casa dos pais para estudar em universidades, frequentemente em outras cidades. Como a locação tradicional representa um custo mensal elevado para o investimento da família, morar em dormitórios universitários ou em ambientes compartilhados torna-se uma alternativa financeiramente mais viável e socialmente estimulante.
O modelo, no entanto, não se limita ao público estudantil. Também atende profissionais em transição de carreira, pessoas em cursos de aperfeiçoamento, indivíduos em tratamento médico ou qualquer um que precise de moradia temporária com estrutura completa e menos burocracia do que um contrato convencional.
Apesar de ser uma locação provisória, o coliving possui características que o diferenciam tanto da hospedagem hoteleira quanto da locação residencial tradicional. Há prazo mínimo de permanência de um mês e o imóvel deve estar devidamente registrado para uso residencial. Outro ponto central é o processo de seleção: como envolve convivência, a empresa gestora avalia o perfil dos interessados para direcioná-los ao imóvel mais compatível em termos de estilo de vida e dinâmica social.
Uma das maiores empresas do setor nos Estados Unidos é a SharedEasy, presente nos estados de Nova York e Califórnia, com imóveis distribuídos por diversos bairros. Pelo site sharedeasy.club, a companhia apresenta as opções disponíveis e a média de valores, em torno de US$ 2 mil por mês. Ao demonstrar interesse, o candidato passa por uma entrevista com um consultor, que avalia seu perfil e indica a unidade mais adequada, buscando garantir uma experiência harmoniosa entre os moradores e a mais proveitosa possível para o novo ocupante.
Foi exatamente essa a minha vivência. Durante um período, morei em uma das unidades da Shared Easy em Williamsburg, no Brooklyn, em Nova York. O apartamento tinha dois pisos e cinco dormitórios. Convivi com três rapazes e uma moça, todos vindos de outros estados americanos, como Colorado e Califórnia, com média de 25 anos de idade. Estavam na cidade para estudar em universidades e escolas técnicas, com exceção da moradora mais velha, de 40 anos, que participava de um curso de aperfeiçoamento profissional.
Alguns já haviam experimentado o coliving antes. Outros, como foi o meu caso, estavam ali pela primeira vez. O resultado foi uma convivência tranquila e respeitosa, apesar das diferenças etárias e culturais. O apartamento e os dormitórios são entregues totalmente mobiliados e equipados, e sempre existe um funcionário disponível para suporte. Além disso, a empresa promove periodicamente eventos sociais, como brunches e jantares, para integrar moradores de diferentes unidades.
Despedi-me dessa experiência no dia 22 de janeiro, justamente quando começava a maior tempestade de neve a atingir os Estados Unidos nos últimos 30 anos. A prefeitura de Nova York decretou um lockdown preventivo diante da ventania, das temperaturas negativas e do alto acúmulo de neve nas ruas e estradas.
Naquele momento, refleti: se eu ou mesmo um filho estivesse ali durante dias de restrição e isolamento, esse formato de moradia traria mais tranquilidade do que a solidão de um quarto de hotel. Enfrentar adversidades em um ambiente estruturado, com companhia e suporte, transforma completamente a experiência. No fim, o coliving não vende apenas um quarto, oferece rede, pertencimento e, sobretudo, a sensação de não estar sozinho.





