FIDCs e debêntures tomam o comando da securitização
Instrumentos já concentram 73% das captações; estoque de direitos creditórios com aquisição de risco avança 18% em um ano
Uma troca de comando está redesenhando o mercado brasileiro de securitização. FIDCs e debêntures de securitização avançaram com força no primeiro semestre e já respondem por quase três quartos do volume captado pelos quatro principais instrumentos do segmento. CRIs e CRAs, até recentemente os protagonistas, perderam espaço.
Os quatro produtos movimentaram R$ 102,9 bilhões no primeiro semestre, crescimento de 8,5% sobre igual período de 2025. O avanço, porém, veio de apenas duas frentes: os FIDCs captaram R$ 53,1 bilhões, alta de 29,4%, enquanto as debêntures de securitização cresceram 46,1%, para R$ 22,4 bilhões. As emissões de CRIs recuaram 15,8%, para R$ 20,3 bilhões, e as de CRAs despencaram 50,4%, para R$ 7,1 bilhões, segundo a Anbima.
Com isso, FIDCs e debêntures de securitização passaram a representar 73,4% desse mercado. Dois anos antes, a participação conjunta era de 46,9%. “Esse crescimento também indica uma diversificação da arquitetura de crédito do país. Em vez de depender exclusivamente de uma única fonte de recursos, as companhias passam a combinar crédito bancário, emissões de dívida e estruturas baseadas em recebíveis”, afirma Flavia Palacios, diretora da Anbima.
Os dois instrumentos ocupam espaços diferentes. Os FIDCs chegaram a 559 operações no semestre, com tíquete médio próximo de R$ 95 milhões, enquanto as debêntures de securitização somaram 46 operações, com média de R$ 487 milhões. Um produto dá capilaridade ao mercado; o outro concentra cheques maiores, principalmente na securitização de empréstimos, financiamentos e recebíveis do setor financeiro.
“Por meio de estruturas como CRI, CRA, CR e FIDC, fluxos futuros são antecipados e convertidos em títulos, permitindo que empresas acessem recursos de forma imediata, sem precisar aguardar o ciclo completo desses ativos”, explica Palacios.
A expansão também aparece dentro das carteiras. Uma análise dos informes mensais dos FIDCs entregues à CVM mostra que o estoque de direitos creditórios com aquisição substancial dos riscos e benefícios chegou a R$ 444,1 bilhões em junho, 18,4% acima dos R$ 375,2 bilhões registrados um ano antes.
O saldo informado pelos administradores como créditos existentes inadimplentes subiu de R$ 37,3 bilhões para R$ 42,5 bilhões, avanço de 13,9%. Cresceu, portanto, menos que o estoque. A relação entre as duas rubricas recuou de 10% para 9,6%. O cálculo não equivale a uma taxa oficial de inadimplência ou de perda, porque parte de campos contábeis sujeitos a provisões, mas dimensiona a carga de ativos que exige acompanhamento, renegociação e cobrança.
“A expansão sustentável da securitização depende da confiança dos investidores e da compreensão adequada dos riscos e características de cada produto”, diz José Alexandre Freitas, CEO da Oliveira Trust.
A mudança de composição coincide com uma transformação regulatória. A Lei 14.430 criou um marco geral para a securitização, enquanto a Resolução 175 modernizou as regras dos fundos. Na outra ponta, o CMN restringiu os lastros elegíveis de CRIs e CRAs em 2024. Os números não permitem atribuir toda a migração às normas, mas mostram que o capital encontrou novos caminhos.
O desafio agora é evitar que a velocidade do crescimento atropele o conhecimento sobre as estruturas. “Muitos empresários não conhecem profundamente as responsabilidades, as garantias e os mecanismos de acompanhamento de uma operação de CRI”, afirma Marco Antônio Regino, vice-presidente de Mercado de Capitais da Trinus.







