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Mercado ex machina

É um erro achar que é só uma minoria de ricos que habita a Faria Lima

Por Murillo de Aragão 19 nov 2022, 08h00 | Atualizado em 4 jun 2024, 11h15

Outro dia, alguém, indignado, condenou a complacência da imprensa para com o mercado. Fiquei intrigado com a observação. Mas quem é o mercado? O que podemos explicar sobre ele? Qual a relação da imprensa com esse segmento? E, afinal, a imprensa não deve ser complacente com o mercado?

São muitas perguntas que, ao fim e ao cabo, demandariam uma resposta simples: é o mercado, estúpido. Como disse o jornalista Marcos de Vasconcellos: o mercado não fica triste nem feliz, apenas vende e compra. Somente o setor de investimentos, para fins de entendimento da crítica feita, é composto de quase 5 milhões de pessoas que colocam seu dinheiro em aplicações variadas em busca de rentabilizar o seu patrimônio.

Mas o mercado também é composto de quem aluga e compra imóveis, carros e outros bens. Envolve ainda, por exemplo, o ramo segurador e o comércio de commodities. Temos hoje, além do maior número de investidores na bolsa, mais de 300 fintechs e um processo robusto de desbancarização.

É um erro considerar que o mercado é uma minoria de ricos que habita o universo da Faria Lima. O segmento estabelece um processo que gera lucros, receitas, investimentos, divisas, impostos e salários. Assim, criticar o setor sem entender a sua dinâmica, sua composição e sua relação com a sociedade é primário e superficial. Revela ignorância ou má-fé. Quem sabe, ambas.

Mesmo parecendo que vive para si e parecendo pequeno em relação à população, o mercado vitaliza a economia do país ao ampliar as oportunidades de investimento e aumentar a concorrência. Pois bem, tal qual em uma peça grega em que um deus aparece para resolver o impasse, o segmento age assim. E como ele se expressa? Por meio dos juros futuros, pelo índice da bolsa de valores e pela flutuação do câmbio.

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“A previsibilidade e a credibilidade do governo influenciam diretamente o apetite do investidor”

Na quinta-feira 10 de novembro, logo após uma lua de mel com o presidente eleito, houve um “banho de sangue” no mercado, com perdas relevantes para investidores. Tudo por causa das declarações de Lula sobre política fiscal. Na sequência, o presidente eleito reagiu com ironia, dizendo que o setor estava “muito sensível”.

O mercado não “estava” sensível. Ele é muito sensível aos bons e ruins inputs que vêm das autoridades. Quando elas promovem imprevisibilidade e incerteza, ele reage negativamente, adequando as expectativas às circunstâncias. Nada pessoal contra alguém. É apenas assim.

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Seria mais do que esperado que o presidente eleito já estivesse familiarizado com os movimentos do mercado, dada a sua experiência. Até mesmo pelo fato de esse segmento ter trabalhado a seu favor em suas gestões anteriores, a partir de sinais de previsibilidade e consistência em relação a políticas fiscais.

Custa crer que as boas lições do passado tenham ficado por lá. Um mercado ruim dificulta o comércio, o emprego, a arrecadação de impostos, o financiamento imobiliário e de veículos, entre outras dinâmicas que acabam prejudicando quem trabalha.

Obviamente, o mercado segue regras. Pois ele é motor e não mentor, como disse o jurista Ayres Britto. E deve ser assim. São regras escritas: a competição justa, a não concentração em oligopólios ou monopólios, o combate à especulação, entre outras. São regras não escritas: a previsibilidade das decisões governamentais e a credibilidade das autoridades. Ambas influenciam diretamente o apetite do investidor, que, no fim das contas, gira a roda da economia.

Publicado em VEJA de 23 de novembro de 2022, edição nº 2816

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