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Maílson da Nóbrega Por Coluna Blog do economista Maílson da Nóbrega: política, economia e história

Quem diria, o liberal Guedes superou a esquerda radical

O FMI vai embora pela insatisfação do ministro com suas projeções para o PIB. No passado, o “Fora FMI” era orientado por razões ideológicas

Por Maílson da Nóbrega 17 dez 2021, 09h58

Insatisfeito com as previsões do FMI para a economia brasileira, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse ao Fundo para fechar seu escritório de representação em Brasília. “As previsões anteriores todas estavam erradas. Dizer até com muita delicadeza que estamos dispensando a missão do FMI. Eles estão aqui já há bastante tempo porque tinham o que fazer, né? [O Brasil] vivia sempre em desequilíbrio, mas estamos dispensando. Pode voltar. Estão dispensados, podem ir passear lá fora”, falou o ministro, de forma deselegante.

Na verdade, o FMI criou o escritório em 1999 por razões distintas. O objetivo era estreitar ainda mais o relacionamento com um país relevante, que à época mantinha um acordo de assistência financeira com o Fundo. O FMI não ficou aqui por nossos desequilíbrios. Se fosse assim, haveria razões para permanecer. A situação fiscal está sob perigo desde o governo Dilma e foi agravada com a decisão de Guedes, a de dar um calote nos detentores de precatórios e de liderar uma pedalada para mudar o cálculo do teto de gastos. As duas manobras geraram margem de R$ 117 bilhões para gastos adicionais, principalmente os de natureza eleitoreira. A âncora fiscal desandou. Os desequilíbrios aumentaram.

O Brasil é uma das nações que fundaram o FMI e o Banco Mundial na reunião de Bretton Woods (1944). O país é um dos que coordenam outros grupos (constituencies). Tem um brasileiro na diretoria executiva. Foi em 1967, na reunião da Assembleia-Geral do Fundo no Rio de Janeiro, que se criou a moeda do FMI, isto é, os Direitos Especiais de Saque.

Diz-se que o Fundo já havia decidido fechar sua representação. O anúncio pode ter sido precipitado pela ordem do ministro, que usou linguajar impróprio para quem exerce o cargo. Guedes se tornou o ministro liberal que protagonizou o ato de saída do FMI. A ideia foi defendida pela esquerda em vários momentos, nos quais grupos radicais brandiam slogans contra os acordos de assistência financeira.

O “Fora FMI” do passado era movido por razões ideológicas. Invocava-se a defesa da soberania nacional e se dizia que o Fundo estaria a serviço de potências estrangeiros e do sistema financeiro mundial para colocar o país de joelhos e extrair nossas riquezas a preços de banana. Agora, a decisão teria sido movida por razões mundanas, qual seja o mal-estar do ministro com as projeções sobre o PIB. Guedes superou os radicais.

Os erros de projeção para o PIB de 2021 foram comuns aqui e lá fora. Eles decorreram de fatores difíceis de antecipar. Era preciso imaginar o volume e a diversidade de medidas para combater a Covid-19, que podiam mitigar os efeitos da pandemia. No Brasil, houve menor adesão às medidas de isolamento social, acarretando grau de mobilidade mais alto que o esperado. Foi maior do que se pensava a adaptação dos negócios e surpreendente a adoção do trabalho a distância.

Essas incertezas praticamente desapareceram, indicando que as projeções para 2022 serão mais precisas. O erro, desta vez, tende a situar-se no Ministério da Economia com suas projeções excessivamente otimistas para a economia no ano eleitoral.

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