Augusto Cury, candidato à Presidência, é um psiquiatra bem-sucedido. No seu programa de governo, ele parece buscar, genuinamente, a promoção do desenvolvimento econômico e social do país. Ocorre que suas ideias revelam grande desconhecimento da realidade e do funcionamento de políticas públicas. Basta mencionar quatro casos.
No primeiro, promete que o Bolsa Família será orientado para o trabalho dos pais: “Quem assinar carteira ou abrir microempresa não perderia o benefício por um período determinado — e ganharia incentivos e juros menores”. Ele parece ter-se influenciado pela equivocada ideia, professada por muitos, segundo a qual a saída para o programa é o emprego. Ocorre que o foco da política é a criança, e sua educação, saúde e alimentação. Os pais não costumam ter qualificações para ingressar adequadamente no mercado de trabalho. Seus filhos buscam esmolas nos cruzamentos. Sem estudar, mais tarde chefiarão famílias pobres. Por isso, o objetivo do programa é romper o círculo vicioso da pobreza, e não promover o emprego.
O segundo é “dividir o BNDES em duas instituições: uma voltada para grandes empresas e outra para microempresas” (esqueceu pequenas e médias), mas já é assim que funciona. O banco financia as grandes empresas e apoia indiretamente as demais mediante refinanciamento de operações de crédito conduzidas por bancos.
“Caso eleito, ele teria pouco tempo para entender o desafio de governar e formular medidas apropriadas”
O terceiro promete dobrar as exportações em oito anos. As embaixadas teriam metas de negócios. O chanceler viraria secretário de Estado e os diplomatas seriam cobrados de acordo com os mercados que abrissem. Na verdade, o chanceler já é ministro de Estado. O Itamaraty goza de excelente reputação e pode ajudar, mas a ampliação das exportações depende essencialmente de reformas estruturais para elevar a competitividade de nossos bens e serviços exportáveis, e de políticas de promoção das vendas externas, formuladas e comandadas por órgãos como a Apex Brasil.
O quarto diz que, no mandato, o déficit público cairia para algo próximo de zero, via “controle de gastos com metas por ministério e inteligência artificial fiscalizando despesas”. Acontece que o espaço para cortes nos ministérios é relativamente ínfimo dada a rigidez orçamentária. Na realidade, haveria que podar o equivalente a 9% do PIB (o déficit em 2006) ou 1,2 trilhão de reais. Acontece que as possibilidades de cortes nos gastos discricionários são de apenas 1,5% do PIB. Assim, mesmo que fosse possível paralisar todas as atividades do governo, o déficit público permaneceria elevado.
Na verdade, o problema fiscal requer reformas estruturais como desindexação de benefícios previdenciários ao salário mínimo, nova reforma da Previdência e eliminação da vinculação de despesas com educação e saúde à arrecadação de impostos. Nada disso é tratado no programa.
Caso eleito, Cury teria pouco tempo para entender as complexidades e os desafios do governo, e formular as medidas apropriadas. Nessas hipóteses, aprenderia a lição tarde demais.
Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2026, edição nº 3014







